Vozes do Parinirvana

Lamparinas

Durante a cerimônia de dez anos do parinirvana de Chagdud Rinpoche, em novembro de 2012, colhemos uma série de entrevistas em áudio com alunos presentes no evento. Infelizmente, problemas técnicos inutilizaram o material para o uso originalmente pretendido. Mas, diante da riqueza dos depoimentos captados, selecionamos trechos significativos e inspiradores para transcrever em texto. Alguns deles são os relatos publicados abaixo, que formam uma representação luminosa da voz da sangha naquele dia tão especial.

6333746079_4f3e8d387b

“Eu me lembro da voz dele, nunca vou me esquecer da voz dele. Parecia que ele não mexia a boca e vinha aquele vozeirão. Eu fui numa Essência do Siddhi em 2000 e o Mauriã tinha quinze anos, talvez nem isso. Um dia, eu estava fazendo a prática, que é uma sadhana muito bonita, com melodias muito bonitas, e eu ouvi aquela voz forte e demorei o dia inteiro pra me dar conta que não era o Rinpoche que estava cantando, era o Mauriã. Então, acho que, apesar do Rinpoche ter se ido em corpo, a manifestação dele está em tudo que é lugar. Onde está o nome Chagdud Gonpa tem muito do Rinpoche. Não é um pouquinho, é muito.”

***

“Eu sempre me lembro quando ele falava da motivação. Ele batia a mão contra o coração, a mão aberta, juntando os dedos e colocando a mão no coração. Esse gesto ficou comigo, eu sempre me lembro desse gesto. Quando eu estou me sentindo muito ensimesmado, muito autocentrado, eu me lembro do Rinpoche falando de motivação com a mão no coração. Isso aí eu vou levar para a hora da morte, assim espero.”

CTR_gonpa

“Dez anos atrás eu estava em retiro, completando seis meses no retiro de três anos. Poucos dias antes, ele tinha ido lá dar ensinamentos. E eu lembro perfeitamente que na saída ele fez uma brincadeira, olhou pra todo mundo com um sorriso na cara, como se o último ensinamento dele fosse um sorriso gigante, um sorriso de ‘isso é se alegrar com o Darma, poder praticar, acreditar e confiar no que é o Darma essencial.’ Então, a última lembrança que eu tenho é ele já frágil fisicamente, mas brilhante. Cada vez que ele ia lá, eu pensava ‘nossa, ele está cada vez mais parecido com o sol’. Ele estava muito brilhante, ele não falava, não era a quantidade, não eram as palavras em si, mas ele estava radiante. Parecia que o corpo dele estava ficando mais frágil e ele ficando mais forte. É muito louco, o Rinpoche não para de ensinar.”

***

“A gente estava fora do Brasil fazendo uma estátua de Guru Rinpoche. E eu estava com ele bem pertinho, ajudando junto com outros alunos e conversando com a Lama Sherab em português. Ela me contou alguma novidade e eu disse ‘nossa, que legal!’. Nisso, o Rinpoche levantou a cabeça e repetiu: “nossa, que legal!”

***

“Uma imagem que eu tenho muito querida do Rinpoche é uma vez que ele ficou em Florianópolis, logo no início, uma das primeiras vezes, quando a sangha era muito pequena. A gente tinha poucas atividades quando ele foi, era só à noite. Então, durante o dia, o Rinpoche ficava sentado perto de uma janela horas e horas costurando, bem quieto, só costurando roupas. E a gente em volta, as pessoas próximas, sentadas.”

6333745685_d2d6fe96d2

“Uma das coisas que eu fui percebendo depois (do parinirvana) é a presença de todos esses outros lamas que vêm pra nos dar ensinamentos. Eu comecei a cada vez mais olhar pra eles como o próprio Chagdud Rinpoche. Porque dá para perceber claramente que tem uma intenção dele com isso. Já tinha antes e parece que ele preparou tudo pra que tivesse uma continuidade através da Khadro, dos outros lamas do Chagdud Gonpa e dos que vêm de fora. Então, ele continua ensinando de várias outras formas.”

***

“Para mim, a lembrança mais forte é o Rinpoche incansável. A gente não via ele cansado. Quando ele ficava cansado, ele começava a praticar e aí melhorava. Mesmo naqueles momentos em que a gente estava caindo no templo, o Rinpoche estava lá que nem uma montanha mostrando como é que é a gente ter a visão diferente a respeito do mundo, de realmente ver o trabalho além daquilo que é o comum pra nós, de realmente ser um trabalho que traz benefício para os seres. E para isso ele era incansável.”

***

“O que marca os dez anos do parinirvana é a presença forte ainda depois de tanto tempo, mesmo ele não estando junto com a gente. Isso é marcante. Que a gente ainda vê pessoas chegando nos centros, que nunca o conheceram, mas que, de alguma forma, têm uma conexão. É ele que traz essas pessoas, e elas entram e se conectam e se beneficiam com aquilo que ele nos deixou. Isso ainda é muito forte.”

Terra Pura

“Nesses dez anos, o que eu vejo é que o Rinpoche permanece vivo em todos os lugares aqui no Khadro Ling, na minha mente, no meu coração, nas atividades, em todos os lugares. Em Porto Alegre, por exemplo, quando eu ando e vejo as bandeirinhas que os visitantes compram aqui e penduram em casa, eu penso ‘nossa, é o Rinpoche, é a presença do Rinpoche’. Foi ele que trouxe isso.”

“Hoje eu lembrei da primeira vez que vim aqui neste local. Era um mato, havia chovido e estava um barral enorme. Era a consagração do templo e depois da cerimônia o Rinpoche iria dar entrevistas individuais. Tinha uma fila enorme. Todo mundo queria perguntar alguma coisa e eu não sabia o que perguntaria. Entrei na fila e, quando chegou a minha vez, eu perguntei, muito tímida, se eu não estava muito velha pra começar uma religião nova. Eu já estava velhina, com mais de 60. E ele olhou pra mim, parou, ficou olhando e disse assim: ‘Para o budismo não há idade.'”

***

A primeira e a última foto deste post foram tiradas durante as cerimônias de Parinirvana de 2012. Veja mais fotos deste dia aqui.