Tudo passa

Estávamos eu e alguns membros da sanga de Manaus no quarto do hotel em que Rinpoche estava hospedado, aproveitando seu tempo conosco para fazer perguntas e ouvir seus ensinamentos.

Lembro dele sentado na cama, sem camisa, comendo tsampa. Chamou-me atenção a simplicidade da cena e, ao mesmo tempo, a estranheza da mesma. Nosso tão venerado mestre, ali, como um ser humano comum, com parte do corpo exposta e misturando com as mãos a farinha e a água sem nenhum constrangimento.

Naquela época, eu ainda havia tido muito pouco contato com ele e, mesmo assim, sinto não ter tido a abertura necessária para usufruir da sua presença. Queria ter podido conversar mais e ouvi-lo com todo meu coração, mas sentia medo dele.

Lembro de ter feito uma única pergunta. Na verdade, eu queria um conselho, pois não estava mais satisfeita com meu relacionamento amoroso e queria me separar. Mas como não tive coragem de perguntar se isso seria o melhor para mim, já que era algo tão direto e pessoal, fiz uma pergunta geral. Indaguei se deveríamos agir no sentido de buscar a mudança de uma situação difícil, como por exemplo, no caso de uma mulher que tem um marido agressivo e que sofre violência, se ela deveria tentar se separar do marido. Não era o meu caso, mas hoje vejo que a minha pergunta direcionava o tipo de resposta que eu queria ouvir.

A resposta do Rinpoche foi totalmente surpreendente para mim. Ele respondeu algo que demorei muito tempo para entender. Ele disse que, quando compreendemos verdadeiramente o que significa a impermanência, não há razão para mudar. Penso que até hoje eu ainda não consegui compreender completamente o significado mais profundo deste ensinamento, mesmo tendo refletido sobre ele durante muito tempo.

Quando o Rinpoche morreu, tive outra grande surpresa. Não acreditei que ele pudesse simplesmente ir e não nos avisar, mesmo estando todos ali com ele, ouvindo ensinamentos sobre P’owa. Por um momento, cheguei a ficar com raiva. Me senti desamparada e abandonada por ele. Depois, percebi o que ele queria nos ensinar: “Tudo é impermanente. Tudo passa. Não esperem que as coisas durem. Não esperem que vocês possam controlar o que lhes acontece.”

[Contada por Carliza Vettorato Timm]