Ele nunca se ausenta

Rinpoche

Eu lembro que era um dia daqueles em São Paulo. Eu estava no trabalho, folheando o jornal, e, em uma das últimas páginas, de repente, vi aquela fotinho em branco e preto com algumas palavras escritas embaixo. Dizia que um Lama tibetano – Chagdud Tulku Rinpoche – viria ao Brasil e iria morar em Três Coroas, falando ainda que o lugar iria se transformar em um centro mundial do budismo. Eu já estava envolvida com o budismo havia muitos anos, mas nunca tinha de fato encontrado o “meu Lama”. De algum modo, no momento em que olhei para aquela foto, senti uma convicção claríssima, do fundo do coração: “Isto é para mim”. Peguei uma tesoura e recortei a foto dele, guardei em um saquinho de plástico e coloquei bem ali na minha mesa. Isso foi em maio de 1995, e ele tinha acabado de chegar.

Naquele ano, eu tentei encontrá-lo, liguei para amigos em Porto Alegre, vez após outra, mas ninguém sabia onde “aquele Lama” estava, porque na época ele morava em um apartamento na cidadezinha de Três Coroas e ainda não tinha se mudado para o lugar que posteriormente seria o Gonpa. Além disso, naqueles primeiros meses, ele também viajava muito para os Estados Unidos e para o Nepal, de modo que o tempo foi passando e eu não o encontrava. Daí, em 1997, ele foi convidado para transmitir uma mensagem de paz em um show de rock em Porto Alegre. Ele apareceu nos jornais locais e de repente ficou “famoso”. Foi aí que os meus amigos de Porto Alegre me ligaram e finalmente me falaram sobre o Gonpa em Três Coroas. Eu liguei imediatamente para o lugar e perguntei como poderia ver o Lama ou falar com ele. Disseram que de manhã, às seis horas, e no fim da tarde, ele fazia o puja, e que eu podia ir lá assistir. Então eu providenciei hospedagem em Gramado e, de lá, peguei um táxi para me levar ao Gonpa às cinco da manhã.

Estávamos em setembro, ainda era inverno, estava frio e totalmente nublado; o taxista nunca tinha ouvido falar do Rinpoche e não fazia a menor ideia do caminho que precisava seguir. Quando finalmente encontramos a estrada que ia até o alto da montanha, ainda estava escuro e com neblina, e o motorista ficava perguntando: “Então, aonde mesmo a gente está indo?”. Eu respondia: “Não sei. A única coisa que eu sei é que tem um Lama tibetano que mora no alto desta montanha”. Então nós seguimos em frente até finalmente topar com uma placa dizendo que tínhamos chegado ao Gonpa. O templo ainda não tinha sido construído e a sala das cerimônias ficava em um prédio que hoje serve de dormitório.

Eu entrei e havia um pequeno grupo de pessoas. O puja tinha acabado de começar, e eu lembro daquilo com muita clareza. O Rinpoche estava sentado de costas para a parede, à esquerda da entrada. Quando eu entrei, ele não virou a cabeça, mas eu vi e senti os olhos dele disparando na minha direção, de ladinho. Foi como se aquilo tivesse me atingido. Eu desabei ali na frente e fiquei assim durante o puja todo, só olhando para ele. Daí, depois do puja, ele me chamou e perguntou o que eu queria saber. Eu lembro de ter dito a ele, antes de qualquer coisa, que, se dependesse de mim, eu nunca mais iria embora dali, que eu queria ficar naquele momento mesmo, mas que infelizmente precisava voltar para São Paulo para trabalhar. Perguntei se ele podia me dar conselhos a respeito de como meditar no dia a dia, no meio da confusão da cidade grande. Ele perguntou se eu entendia inglês e eu respondi que sim, claro. Então ele começou a falar e eu não entendi nenhuma palavra. Mas não fez diferença. Eu só olhei nos olhos dele e me perdi completamente. Daí eu me levantei, saí da sala e encontrei uma amiga minha, Susie. Eu me sentei nos degraus e só chorei e chorei. Susie perguntou: “O que foi? Por que você está chorando?”. Eu respondi:

“Ah, Susie, eu estou tão feliz por ter encontrado o Rinpoche e eu sei, com tanta clareza, que esta é a minha última chance nesta vida”.

A partir de então, eu passei a ir ao Gonpa com a maior frequência possível e também conheci a Lama Tsering em São Paulo. O Rinpoche ficava me pedindo, vez após outra, para ir morar no Gonpa, mas o samsara – o trabalho, a família e todos os meus apegos – tinha me pegado de jeito. Finalmente, em 2000, eu consegui me libertar e mudei para o Gonpa. Nunca me arrependi dessa decisão, nem por um instante; a minha vida mudou de um jeito com o qual eu jamais poderia ter sonhado.

O Rinpoche me mostrou minha verdadeira natureza. Ele revelou tudo que é possível em um ser humano e o que a gente é capaz de fazer quando entende como se deve viver, experimentar a vida e estar com os outros seres – como viver tudo isso de outra maneira.

Eu só queria fazer a minha prática. Eu só queria viver tudo aquilo que ele tinha mostrado para nós.
As qualidades dele que eu amava eram sua compaixão ilimitada, seu amor imparcial infinito e a maneira como nos ajudava , nos via e nos ensinava. Ele era tão paciente conosco, os “bebês do Darma” dele, como ele dizia, sempre com humor, risadas, diligência e visão inspiradoras. “Siga em frente”, era a maneira mais simples que ele tinha de nos motivar quando chegávamos com todas as nossas perguntas e dúvidas. Ele era apenas uma mente de pureza total derramando amor em cima de nós; e é tão incrível quando se pode receber esse amor.

E agora que ele se foi do plano físico, não faz diferença, porque tudo continua presente – e muito mais, multiplicando-se como nuvens de oferendas no céu – e ele está conosco o tempo todo. Eu ando por aí e sempre o escuto na minha mente. Eu sempre o vejo e sempre o sinto. Então, ele está comigo o tempo todo. Ele nunca se ausenta. E eu nunca, jamais vou abandoná-lo.

[Contado por Christine]