Resultado

Quando eu trabalhava com o Rinpoche, ajudando a modelar, em argila, as estátuas, ornamentos, máscaras e tantas coisas que ele fez com as próprias mãos para nos ensinar, eu passava muito tempo sentada frente a frente com ele, e muitas coisas aconteciam ao nosso redor durante um dia de trabalho.

Por exemplo, eu já tinha ouvido falar que o Rinpoche era um ótimo negociador e certa feita tive a oportunidade de vê-lo em ação. Ele estava querendo contratar um empreiteiro para terminar umas obras no templo, mas o homem estava pedindo muito dinheiro. Então, o Rinpoche resolveu conversar com ele. O homem chegou e sentou perto de nós. Os dois começaram a conversar com a ajuda de alguém traduzindo, mas no início a conversa estava meio dura, e eu achei que eles não estavam se acertando. Aí o assunto morreu, mas o homem não ia embora. Lá pelas tantas, ele começou a folhear um livro grande de fotos sobre o Tibete que estava por perto. As fotografias eram lindas, com vastas paisagens, cavalos, cavaleiros empunhado lanças, algumas cenas bastante parecidas com os nossos pampas e costumes gaúchos. O homem, então, começou a fazer perguntas sobre o Tibete e o Rinpoche a explicar as fotos. Logo paramos de trabalhar e a tarde se passou num papo agradável. Não falaram mais em negócios, mas depois o homem pegou o serviço, certamente pelo preço que o Rinpoche achou justo.

Outra vez, uma menina que estava tentando ajudar, mas atrapalhava bastante, se dirigiu ao Rinpoche de uma maneira totalmente imprópria, usando um palavrão bem grande, numa língua que todo mundo entendeu. Eu levei um susto ― levantei a cabeça do trabalho e segurei a respiração. O Rinpoche continuou trabalhando, quieto. A menina, achando que ele não tinha escutado, repetiu tudo, mais alto. E aí o Rinpoche me olhou. Ele olhou dentro dos meus olhos e eu vi e aprendi para sempre o que é compaixão. O olhar dele era pura compaixão, sem o mínimo laivo de raiva, de irritação, de nada ruim. Então, ele disse, bem calmo: “Deixa tudo aí e vai lá pro templo sentar um pouco sozinha.” E continuou trabalhando.

Isso eu escrevi lembrando que há dez anos eu não ouço a voz do Rinpoche, mas tudo o que ele me ensinou, com palavras, com gestos, ou simplesmente com um olhar, continua vivo e crescendo no meu coração. Eu lembro e gosto de contar para as pessoas que chegaram depois, porque muitas vezes era assim que as coisas aconteciam, como se nada estivesse acontecendo, mas depois o resultado estava lá, com as bençãos do Rinpoche.

[Contada por Flávia Pellanda]