Presença

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Eu conheci o Rinpoche em 1996, mas nunca consegui falar com ele em todas as vezes que vim aos eventos do Khadro Ling. Eu sempre ficava próxima, mas me perguntava: “Por que eu não consigo falar com ele? Eu não devo ter mérito. Mas no fundo acho que eu tenho é medo que ele vá me dar um xingão.”

Só que chegou um período que eu tinha muita vontade de falar com ele. Em 2002, meu pai faleceu. Um mês antes do Rinpoche. Daí eu decidi: “Eu vou lá, eu preciso falar com o Rinpoche.” Ele ia dar ensinamentos de Powa, que foi no mesmo final de semana que ele faleceu. Eu cheguei aqui e ele já não estava bem. Eu olhava nos intervalos para ele, para a Lama Sherab e dizia para mim mesma: “Ah! Eles estão tão cansados, não é justo. A Lama Sherab também está tão abatida e ele não está bem. O que eu faço?” Eu precisava falar, eu tinha umas questões sobre a morte, até porque eu assisti meu pai falecer.

Então, no retiro, durante um intervalo, meu olhar cruzou com o do Rinpoche de uma forma tão especial que eu senti como se ele tivesse dito assim: “A gente não precisa de palavras”. Aquilo para mim foi o suficiente. Eu me tranqüilizei e logo depois ele faleceu.

Durante um tempo, fiquei muito triste por não ter falado com ele. Depois comentei com a Khadro que eu sempre sentia muita dificuldade de falar com os lamas, que eu achava que estava tomando o tempo deles. E ela disse que os lamas estavam ali exatamente para estas coisas, para ajudar.

Depois que o Rinpoche partiu, eu percebi que sentia muito mais a presença dele. Tanto é que eu sentia mais necessidade de estar aqui, de vir para cá. Numa manhã de domingo, eu estava fazendo prostrações num cantinho do templo e a pessoa que teria que receber os visitantes não estava naquele momento. Os visitantes começaram a chegar e eu pensei: “Será que eu posso interromper minha prática? O que eu faço?” Naquele momento, é como se eu estivesse enxergando ele na minha frente e perguntei: “Rinpoche, o que eu faço?” E a resposta foi natural, eu senti como se ele tivesse dito assim: “Faz disso parte da tua prática”. Imediatamente, eu parei as prostrações e fui atender os visitantes com todo amor e carinho.

Mas isto é para colocar para vocês que o fato de ele não estar aqui fisicamente… ele está aqui junto com a gente e isso é uma coisa muito forte.

[Contada por Nice]