Peregrinação

Minha conexão com Rinpoche começou de uma forma estranha. Eu trabalhava em uma empresa em Campo Bom que recebia a Folha de São Paulo uma vez por semana. Era um deleite receber aquele jornal grande, bonito e cheio de novidades. Numa quarta feira, saiu na Folha uma foto de página inteira do Chagdud Rinpoche. Eu fiquei maravilhado com aquela figura. Parecia o velhinho do filme Karatê Kid, muito simpático, sorrindo naquela foto de corpo inteiro.

O jornal dizia que ele estaria em São Paulo e depois viria a Porto Alegre. Em Porto Alegre, perdi a oportunidade de vê-lo, mas em seguida um amigo descobriu que ele faria uma palestra em uma universidade de Novo Hamburgo e eu fui assisti-lo. Fiquei maravilhado com a presença do Rinpoche. Naquele dia, pensei: “tenho que me encontrar com este homem, tenho que saber o que é isto que estou sentindo”.

Logo depois, soube através de outro amigo que o Rinpoche e a Khadro estavam hospedados em uma casa em Três Coroas e, como ainda não havia nada construído no Khadro Ling, eles faziam práticas em um pequeno chalé. Quando meu amigo me contou isso, eu falei: “tenho que fazer uma peregrinação, tenho que encontrar meu lama e acho que esse professor tem tudo a ver comigo”. Ele respondeu: “bom, como eu sou baiano, já fiz várias romarias e tenho experiência. Deixa que eu mesmo faço os planos, o check-list e tudo mais.”

Então nós partimos de Novo Hamburgo a pé de madrugada, com a esperança de encontrar o Rinpoche depois de uma longa caminhada inspirada nos peregrinos tibetanos. Só não íamos fazendo prostração, mas o desafio fisico das prostrações ficou por conta das várias caixas de suco de laranja que havíamos colocado na mala. Na verdade, depois de andar alguns quilômetros, começamos a colocar fora caixas de suco para podermos caminhar mais leve.

No total, levamos onze horas e meia para chegar a Três Coroas. Eu tenho problemas físicos, tive poliomielite e, depois desse tempo todo caminhando, estava com câimbra até nas sobrancelhas. Para nossa frustração, não havia ninguém onde esperávamos encontrar o Rinpoche. Então pensei: “Não é possível uma coisa dessas. Eu tenho alguma coisa especial com esse senhor…”. Foi muito frustrante.

Decidimos retornar de ônibus. Aliás, fomos assaltados no ônibus, roubaram nossas coisas enquanto estávamos dormindo, babando. No dia seguinte, de volta a Novo Hamburgo, eu estava tomando relaxantes musculares e vendo televisão quando começou a passar um documentário sobre monges tibetanos. Pensei: “ah, não, vou ter que voltar lá”. Dessa vez, subi a serra no meu carro. Cheguei lá e encontrei os praticantes, aquelas pessoas com colares estranhos no pescoço.

“Oi, vocês conhecem o Rinpoche, aquele senhor?” perguntei. E me responderam: “Sim, inclusive ele está na casa daquela moça ali”. Fiquei muito entusiasmado. Eles iam fazer a prática de Tara Vermelha e me convidaram para assistir. Parecia que meu coração ia sair pela boca. Fui seguindo a moça por um atalho em condições muito piores do que as de hoje. Era como se fosse um rali Paris-Dakar, mas finalmente consegui chegar à casa dela. Havia vários sapatos na rua, o que eu achava estranho, mas entrei e o Rinpoche estava muito sorridente, rodeado de alunos.

A moça falou: “Rinpoche, olha só esse garoto aqui. Ele veio lhe conhecer, caminhou 60km para vir lhe ver.” O Rinpoche fechou a cara, ficou me olhando e falou: “Como assim? Sessenta quilômetros?” Tirou o mala e começou a murmurar. Depois tirou outro mala e continuou com o murmúrio enquanto olhava para mim. A certa altura, virou de novo para a moça e perguntou: “Mas não tinha ônibus?”. Ela virou para mim, surpresa, e repetiu: “Mas não tinha ônibus?”

Aí me deu uma super confusão na cabeça porque tinha ônibus e tinha o meu carro. Então ele disse: “Olha, garoto, prática espiritual não é isso que você está pensando, você não tem vergonha? Olha o seu problema físico! Você deve estar sofrendo com dores até hoje. Não é nada disso. Prática espiritual não é esse sofrimento. Não pode fazer mais difícil do que é a coisa toda!” Então eu falei: “Tá, eu posso ser seu aluno?”. E ele disse: “Tá, pode, pode.”

Esse foi o primeiro grande ensinamento que o Rinpoche me deu: tome ônibus que você chega mais rápido.

[contada por Maurinho]