Boa noite para um Buda

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Quando lembro do Rinpoche, lembro de um Buda. Quando dei o último boa noite a ele, sei que dei um último boa noite a um Buda. Conforme o percebia com olhar mais puro, a necessidade de ficar mais próxima a ele crescia também. E sabe o que o meu coração via nos olhos dele? Compaixão.

Desde a primeira vez que o Rinpoche me fitou, até o último olhar de boa noite, ele sempre irradiou compaixão. Ele era um Buda vivo que irradiava compaixão. Ah, essa compaixão ainda irradia, porque um Buda não morre. Ainda temos o corpo Sanga. Sua voz não é ouvida mais ao vivo, porém ainda temos os ensinamentos preciosos e a mente – bem, esta continua irradiando bênçãos para todas as direções.

Obrigada, Rinpoche, por me pescar desse oceano de sofrimento e contar a verdade, plantando em mim a semente da iluminação.

[Contada por uma aluna]

Inveja e Banho

Rinpoche

Eu nunca tive coragem de chegar e conversar com o Rinpoche. Eu achava que não tinha méritos e não sabia o que dizer. Então eu sempre me senti um espectador dos meios hábeis dele.

Eu me lembro de vir aqui e de achar o Gonpa um lugar um tanto quanto árido na minha visão do que deveria ser um lugar espiritual. As pessoas pareciam estar de mau humor muitas vezes. Além disso, eu falava muita bobagem e isso deixava as pessoas ainda mais irritadas.

Um dia, durante uma prática que eu não lembro qual era, eu fiquei com muita inveja de todo mundo porque as pessoas tinham os tamborzinhos e os vajras e eu não tinha nada disso. Eu fiquei com muita inveja. Eu estava criando muita não virtude durante a prática e, logo depois da sessão, o Rinpoche disse: “Eu realmente não conheço, não sei o nome de todo mundo aqui. Mas eu conheço todas as pessoas pelos sentimentos delas, por aquilo que elas sentem. Às vezes, eu até me confundo com os nomes, mas eu conheço todas as pessoas e elas têm de cuidar durante a prática para não ter inveja dos outros praticantes.”

E eu continuava pensando coisas como: “As pessoas trabalham demais, será que elas estão vendo que estão sendo exploradas?” Uma mentalidade meio marxista, meio fora de lugar. Eram ideias que surgiam na minha mente.

Daí o Rinpoche falava: “Há pessoas que têm um tipo de compaixão errada por aqueles que trabalham muito para o Darma. É um tipo de compaixão errônea, equivocada, que não gera virtude.”

Enfim, ele acabou com todas as coisas que eu estava pensando. E eu me perguntava: ” Será que o recado é para mim?” Eu achava sempre que os recados eram para mim.

Tem outra história de que eu fui testemunha. Aconteceu com o meu irmão. Um exemplo de como a fala dele atingia as pessoas em vários níveis, como a fala do Buda atinge, individualmente, cada um dos alunos. O Rinpoche tinha a fala búdica. Hoje eu sei disso, mas na época eu me sentia paranoico.

Foi em um retiro de Ngondro, se não me engano. No final do ensinamento, o Rinpoche dizia que as pessoas não deviam ficar orgulhosas da sua prática, mas que também não deviam esconder de si as suas qualidades. Isto seria não valorizar a sua mente, o seu corpo humano precioso. E falou mais alguma coisa que a Lama Sherab se recusou a traduzir. E ele disse: ” Traduz, pode traduzir, vai lá”. E a Lama Sherab: “O Rinpoche diz que ele pode ser velho e pode ter mau cheiro, mas que ele é um bodisatva, ele reconhece isto. Talvez ele não seja um grande bodisatva, mas ele reconhece que não é grande.”

Recentemente, quando os movimentos do carma me trouxeram de novo à prática, eu estava conversando com o meu irmão, e ele me disse: “Uma vez, durante os ensinamentos, eu estava desatento, perdi a linha do ensinamento e comecei a pensar ‘Bah, como o Rinpoche é velho. Será que ele toma banho?’

[Contada por um estudante]

Don’t Worry, Be Happy

Rinpoche

Eu estava com o Rinpoche trabalhando na preparação de um Drubtchen da Essência do Sidi e, enquanto isso, choramingava minhas penas. E ele com aquela paciência infinita, tratando de me fazer entender que “assim é o samsara, todos nós somos seres humanos e, portanto, todos temos nossos defeitos”. Mas eu, por hábito, seguia no papel de “pobrezinha de mim”.

Uma noite, a Lama Tsering chegou com um quadro que tinha um peixe que cantava e mexia a cabeça quando você ligava um botãozinho. Lá foi ela mostrar o tal peixe para o Rinpoche e, como eu estava por ali, escutei o peixe cantando Bob Mac Ferrin: “Don’t worry, be happy”.

Rimos bastante e a Lama Tsering deixou o peixe na mesa da entrada da casa. Na vez seguinte que eu fui dizer “pobrezinha de mim” para o Rinpoche, ele ficou quieto, muito sério e me disse, com essas mesmas palavras: “You there go…fish pull…and…” e nós dois caímos na gargalhada! Claro: “Don’t worry, be happy”!

Até hoje, sempre que minha mente começa a se apegar demais à realidade aparente do samsara, lembro dessa cena e tento fazer isso: “Don’t worry, be happy”.

[Contada por Ângela]

Presença

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Eu conheci o Rinpoche em 1996, mas nunca consegui falar com ele em todas as vezes que vim aos eventos do Khadro Ling. Eu sempre ficava próxima, mas me perguntava: “Por que eu não consigo falar com ele? Eu não devo ter mérito. Mas no fundo acho que eu tenho é medo que ele vá me dar um xingão.”

Só que chegou um período que eu tinha muita vontade de falar com ele. Em 2002, meu pai faleceu. Um mês antes do Rinpoche. Daí eu decidi: “Eu vou lá, eu preciso falar com o Rinpoche.” Ele ia dar ensinamentos de Powa, que foi no mesmo final de semana que ele faleceu. Eu cheguei aqui e ele já não estava bem. Eu olhava nos intervalos para ele, para a Lama Sherab e dizia para mim mesma: “Ah! Eles estão tão cansados, não é justo. A Lama Sherab também está tão abatida e ele não está bem. O que eu faço?” Eu precisava falar, eu tinha umas questões sobre a morte, até porque eu assisti meu pai falecer.

Então, no retiro, durante um intervalo, meu olhar cruzou com o do Rinpoche de uma forma tão especial que eu senti como se ele tivesse dito assim: “A gente não precisa de palavras”. Aquilo para mim foi o suficiente. Eu me tranqüilizei e logo depois ele faleceu.

Durante um tempo, fiquei muito triste por não ter falado com ele. Depois comentei com a Khadro que eu sempre sentia muita dificuldade de falar com os lamas, que eu achava que estava tomando o tempo deles. E ela disse que os lamas estavam ali exatamente para estas coisas, para ajudar.

Depois que o Rinpoche partiu, eu percebi que sentia muito mais a presença dele. Tanto é que eu sentia mais necessidade de estar aqui, de vir para cá. Numa manhã de domingo, eu estava fazendo prostrações num cantinho do templo e a pessoa que teria que receber os visitantes não estava naquele momento. Os visitantes começaram a chegar e eu pensei: “Será que eu posso interromper minha prática? O que eu faço?” Naquele momento, é como se eu estivesse enxergando ele na minha frente e perguntei: “Rinpoche, o que eu faço?” E a resposta foi natural, eu senti como se ele tivesse dito assim: “Faz disso parte da tua prática”. Imediatamente, eu parei as prostrações e fui atender os visitantes com todo amor e carinho.

Mas isto é para colocar para vocês que o fato de ele não estar aqui fisicamente… ele está aqui junto com a gente e isso é uma coisa muito forte.

[Contada por Nice]

Um momento mágico

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Um grande mestre dá a cada um dos seus estudantes o remédio necessário para que acorde e tire os óculos da ilusão. Existem aqueles que dele receberam o calor do sorriso, o chamado da intimidade. A dureza do meu carma exigiu tratamento irado: o gelo do olhar, a palavra que ao revelar me deixava prostrada de vergonha.

Um dia nos cruzamos na saída posterior do templo. Curvei-me com humildade à sua passagem. Ele me olhou e, por um breve segundo, tão curto como o cintilar de uma faísca, deixou-me entrever um mar imenso, profundo e extraordinário de amor. Fiquei paralisada, embasbacada, como se fica quando se entrevê algo excepcional. Era uma janela para o infinito, maior do que cabia na minha mente estreita. A resposta ao meu espanto foi que ele baixou as pálpebras fechando a cortina. Tudo ficou comum outra vez.

Se há um pedido que sempre faço é que ele me dê nova chance, que me deixe banhar a saudade neste incomensurável mar de amor.

[Contada por Yvonne Vieira]

Caixinha de Música

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Eu estava participando de um retiro de dzogtchen e a minha cabeça já estava pra lá de Bagdá. Eu não entendia mais nada que o Rinpoche falava e a gente ainda foi ao quarto dele para receber algumas instruções. E, nossa, as instruções eram muito sofisticadas! A Lama Sherab estava traduzindo, e mesmo assim eu não entendia o que ele estava querendo dizer. Eu comecei a ficar realmente preocupada. Eu já não entendia o inglês dele muito bem e, quando vinha a tradução, eu via que em português eu não entendia nada também!

Então ele pegou uma caixinha de música na forma de um gramofone, uma coisinha bem pequenininha. E toda vez que ele parava de dar ensinamentos e começava a tradução, ele pegava aquela caixinha de música e dava corda. Aí botava no ouvido e ficava ouvindo.

No começo, eu achei meio estranho. Só que comecei a perceber que ele estava dando uma versão alternativa para quem não estava entendendo muito bem as instruções. E em cada intervalo, durante a tradução para o português, ele dava corda na caixinha de novo.

Ele não estava só curtindo a caixinha, ele estava meditando com ela. Ele estava dando a versão prática de tudo aquilo que era hipersofisticado. Aquela coisa do discurso não entrava na minha cabeça. Mas eu comecei a relaxar e percebi que ele estava de fato dando uma alternativa para nós podermos entender os ensinamentos de um jeito não discursivo. E aquilo era tudo o que eu precisava naquela hora.

Durante todo o ensinamento, ele manteve por vários intervalos aquele movimento: parava de falar, dava corda na caixinha e ficava meditando. Acho que eu relaxei no decorrer da história por perceber que tinha alguma coisa que eu estava entendendo no meio daquilo tudo.

Quando saí da prática, eu tinha certeza que tinha entendido tudo que era essencial para ser transmitido. Mais uma vez, eu me curvei diante dele. Vi o quanto ele era extraordinário, além da nossa compreensão. Com certeza, foi o ensinamento que me deixou mais marcada no decorrer desta vida como a forma mais linda da compaixão se manifestar e dar oportunidade da gente entender, mesmo quando nossa mente não está em condição de nada.

[Contada por Nenung]

O exemplo perfeito

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Só vi o Rinpoche em seu último ensinamento, sobre P’owa. O seu amor, compaixão, entrega generosa e total falta de preocupação por si mesmo em benefício dos demais produziram um impacto imenso que dura até hoje. Para mim, foi o exemplo mais real que tive de um bodisatva, entregando-se completamente para o benefício dos outros. Recordo perfeitamente de um momento na prática em que seu rosto ficou pálido, ele inclinou-se e levou a mão ao peito. Ficou em silêncio um pouco, respirou profundamente e, esforçando-se, olhou para nós com profundo amor e continuou ensinando. Morreu poucas horas depois.

[Contada por Constanza Aguillar]

Chegar em casa

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Conhecer o Rinpoche foi como ter chegado em casa. Eu finalmente encontrei o meu mestre. E quando encontramos o nosso mestre, nos sentimos tranqüilos, serenos, sentimos o motivo pelo qual estamos aqui. E sabemos que viemos para ajudar os seres a aliviar o seu sofrimento.

O Rinpoche, a cada instante, nos ensinava isso. Ele foi um exemplo de compaixão. Ele dedicava cada pensamento seu para todos os seres. Uma vez ele nos disse: “Quando vocês recitam o mantra de Tara, pensem em todas as vezes que vocês recitaram e dediquem também cada recitação pelo benefício de todos os seres.” Aí eu me dei conta que cada vez que ele dizia “Om Tare Tam Soha” estava tentando beneficiar todos os seres. E ele disse que colocaria todas as estátuas que ele já construiu de Tara nesse mantra. Para que todos os seres pudessem se beneficiar de cada simples estátua que ele tinha feito ao longo dos anos.

[Contada por Ângela]

As formigas

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Eu estava morando em uma casa que tinha muitas formigas, na pia, no chão, nas paredes e, apesar dos ensinamentos que havia recebido sobre não matar nenhum ser, fazia de conta que não via e matava algumas, pensando que elas poderiam renascer no reino dos humanos. E eu não contei isso para o Rinpoche.

Um certo dia, depois de um passeio no shopping com ele, fui escutar seus ensinamentos e, no intervalo, o Rinpoche me chamou, perguntou como eu estava e, após um silêncio entre nós, falou que não era para eu matar as formigas. Eu olhei para ele espantada e falei que, ao matar, eu aspirava que elas pudessem renascer no reino dos humanos. O Rinpoche sorriu e respondeu que eu só poderia tirar a vida de alguém quando pudesse devolvê-la.

[Contada por Giovanna de Barros]

Disponível

O Rinpoche deixou para todos nós presentes maravilhosos. O que eu, particularmente, mais aprecio, é a compaixão incrível que ele mostrou de todas as maneiras. Eu tenho grande apreço pelo fato de que nós, os alunos ocidentais e os alunos de todos os lugares do mundo, fomos ensinados de maneira tão impecável.

O Rinpoche se concentrava em nos ensinar tudo sobre a prática e a filosofia budista tibetana, principalmente os rituais, exatamente como ele havia sido ensinado. Por isso eu agradeço a Guru Rinpoche e me sinto muito grata ao Rinpoche e a todo o trabalho fantástico que ele iniciou, seu trabalho infinito.

Eu lembro que o Rinpoche passava o ano todo viajando e ensinando, todos os dias; com frequência ele passava a noite toda acordado. Mesmo que as pessoas fossem procurá-lo às 4h da manhã para requisitar ensinamentos ou bênçãos, ele estava disponível para elas. Isso é o que eu mais aprecio. Como ele se empenhou e como sua compaixão por todos os seres era infinita.

[Contada por Silvia Salazar]

A primeira e a última vez

Eu conheci o budismo quando morei no oriente. Ao voltar para o Brasil, o primeiro livro que ganhei de presente sobre budismo foi o “Portões da Prática Budista”. Eu me interessei muito por aquilo e resolvi ir atrás do mestre. Curiosamente, todas as vezes que fui ao Khadro Ling, eu não encontrava o Rinpoche. E quando o Rinpoche estava em São Paulo, eu também não conseguia vê-lo. Eu me sentia até um pouco frustrado correndo atrás do mestre e nunca conseguindo encontrá-lo.

Até que então eu tive uma perda muito próxima na família e não sabia da prática de Powa. Isso foi no dia 25 de outubro de 2002. Logo em seguida, o pessoal de São Paulo avisou que haveria um retiro de Powa e que seriam dados os ensinamentos pelo Rinpoche. Eu deixei tudo que tinha e acabei indo para o Sul, para o Khadro Ling. Tive o privilégio de estar com o Rinpoche fisicamente, a primeira e a última vez. Foi neste retiro que ele deu, não só para mim, mas para todos os praticantes, o maior ensinamento que poderia ter dado.

Então a minha lembrança do Rinpoche é muito forte. A única vez que eu pude vê-lo foi a última. E eu me sinto privilegiado em poder ter estado com ele naquele dia. Obrigado.

[Contada por Argos]

Quadro Abençoado

Certa vez, uma pessoa da nossa sanga começou a fazer pinturas de deidades e a colocar na lojinha pra vender. Quando eu vi, pensei: “Não acredito que essa pessoa está colocando isso aqui.” A pintura estava muito feia, tudo diferente, as medidas, as cores, mas, enfim, era eu com meus julgamentos, aquela questão de é isto ou aquilo. Eu olhava o desenho e não tinha jeito de gostar. No fim, o quadro ficou encalhado lá.
Aí, outro dia, o Rinpoche falou durante os ensinamentos que era legal a gente desenhar como prática. Porque, a princípio, as deidades pareciam mais demônios do que a própria deidade mas, aos poucos, a gente ia se aprimorando na visualização. Claro que eu lembrei do quadro. E ele completou dizendo que a gente não deveria desenhar de qualquer jeito, que existem as medidas e proporções corretas.
Só que depois eu bati o olho no quadro e ele estava completamente diferente. E perguntei para um amigo: “O quadro foi pintado de novo?” E ele respondeu: “Não, não, o Rinpoche abençoou.”

[Contada por um estudante]

Quase Monges

Certa vez, eu cheguei para um retiro no Khadro Ling com dois amigos e o meu namorado. Os três tinham o cabelo raspado. No final da prática, o Rinpoche os chamou para conversar e convidou-os para permanecerem no templo fazendo retiro. Ele queria enviar alguns alunos brasileiros à India para ter formação monástica.

Enquanto ele explicava como era a vida de um monge, cheguei com o meu filho, que era muito pequeno. Nesse momento, o Rinpoche começou a rir e percebeu que havia a família em nossa vida. Nesse momento, ele mudou a direção da conversa: começou a dar ensinamentos sobre o que é a família e os méritos que uma família tem em praticar o Darma.

[Contada por Janaina Torves]

Cuecas

A experiência que eu quero contar é um pouco engraçada e aconteceu durante um drubtchen de Vajrakilaia no qual eu estava sentado pertinho dele. Uma hora eu fui ao banheiro e, quando voltei, passei pelo Rinpoche e percebi que ele estava rindo muito de mim. Chamava as pessoas ao lado, chamava os lamas para olharem para mim, apontava e eu não entendia o porquê.

Quando eu cheguei mais perto do meu lugar, uma amiga que estava sentada ao lado apontou para a minha tchuba. Aí eu percebi que tinha voltado do banheiro com metade da tchuba aberta, aparecendo as cuecas. O Rinpoche não parou de rir disso.

O que eu aprendi a respeito do Rinpoche é que, entre suas várias qualidades elevadas, estava o seu elevado humor.

[Contada por Gabriel]

Espaço

A memória maravilhosa que eu tenho do Rinpoche é a de seus olhos quando ele olhou para mim. Eu pude ver espaço. Isso foi algo que marcou muito o meu coração. O Rinpoche me deu disciplina. Ele me deu método. Ele me deu amor. Ele me ensinou a como me abrir para outras pessoas. Acho que ele mudou a minha vida.

[Contada por Cândida Bastos]

Cozinhando para Retirantes

As instruções orais que o Rinpoche me deu sobre ser um cozinheiro para os retirantes foram: “Quando os retirantes vierem até a cozinha, diga a eles para irem embora. Diga para irem meditar. Diga que, se a comida vier, eles devem se regozijar. Se a comida não vier, eles purificarão o carma de renascer no reino dos fantasmas famintos. E aí bata neles”. Então ele fez um gesto de dar uma palmada com o seu braço. Eu ri.

Lembrar dessas palavras dissolveu muita frustração ao longo do retiro, só por pensar que ele reconhecia a minha dificuldade de encarar minha tarefa com leveza.

[Contada por um estudante]

Você tem certeza?

Quando encontrei o Rinpoche, quis ter a impressão de apenas ter conhecido um mestre, budista, “velhinho” e bizarro. Em seguida veio a sensação de uma familiaridade muito, muito forte, e a distância que naturalmente existiria entre uma mineira matuta e um mestre do Tibete trazia um inexplicável desconforto. Meses depois, como se olhasse para minha vida depois de um furacão, estava eu, bem do ladinho dele inúmeras vezes, literalmente sacudindo minha cabeça para não ter meus pensamentos revelados, mas aí já não adiantava mais. Quanto mais me esquivava, eu ouvia: are you sure? (Você tem certeza?)

[Contada por Liliane Souza]

Orgulho

Certa vez tive uma conversa com o Rinpoche sobre alguns sonhos e, no final, contei que sentia muito orgulho. Perguntei o que poderia fazer para lidar com isso. Rinpoche disse: “Toda vez que você tiver orgulho, contemple que, espiritualmente, você não é nada porque não tem realização alguma; como humano, você não é nada porque está tão imerso em samsara quanto qualquer outro ser senciente; qualquer elogio ou crítica que você receba não vale nada porque vem de pessoas tão confusas e imersas no samsara quanto você.”

[Contada por Luciano Ribeiro]

Paciência

É muito difícil dizer em poucas palavras o que aprendi com o Rinpoche, mas eu acho que a coisa mais importante foi a compaixão. Porque o Rinpoche tinha uma compaixão muito grande. Eu sempre me impressionava com a paciência que o Rinpoche tinha com estudantes difíceis, para quem ele já tinha falado sobre a mesma coisa muitas e muitas vezes. Mas ele não perdia a paciência. Depois de um tempo, eu percebi que essa paciência vinha da sua compaixão e da sua sabedoria. Assim ele conseguia ser paciente com aquelas pessoas.

[Contada por Lama Sherab]

Ninguém como ele

Meu nome é Lama Inga e eu sou do Padma Ling em Spokane, estado de Washington (EUA). O Rinpoche me orientou em um retiro de três anos, deu-me o nome de Yeshe e então me enviou para Spokane para ser a Lama residente. Tudo que eu sei, aprendi com o Rinpoche.

Eu conheci o Rinpoche em 1988, em Portland, no Oregon (EUA), e esta é uma das minhas lembrancas preferidas.

Tínhamos chegado de Santa Cruz e estávamos esperando o lama, e eu simplesmente estava lá sentada, meditando, quando senti uma presença atrás de mim. Eu me virei e lá estava o Rinpoche. Eu ainda não tinha sido apresentada a ele, então só me curvei perante ele, porque sua presença era tão arrebatadora. Mais tarde, estava ajudando e cheguei toda carregada de caixas e, quando deparei com o Rinpoche, simplesmente me curvei com todas aquelas caixas.

Ele se evidenciava por si só. Não precisamos ser apresentados. Depois de eu me mudar para Cottage Grove, onde o Rinpoche inaugurou um centro, ele me pediu que o ajudasse a fazer uma estátua pequena de Guru Rinpoche. Aquela foi a primeira estátua. Uma coisa levou à outra e depois ele se tornou meu lama-raiz.

Realmente, nunca existiu ninguém como ele. Há tanta coisa sobre o que falar, então contar uma história curta ou escolher um fato é praticamente impossível. Eu fiz o Ngondro com o Rinpoche e ele me orientou durante um retiro de três anos e nos ensinamentos de Dzogtchen. E assim, como já disse, tudo que sei aprendi com o Rinpoche.

[Contada por Lama Inga]