Frio de rachar

Em 1998 ou 1999, eu estava visitando o Gonpa e tirando fotos usando um vestido curto. Eu era novata no Gonpa e ainda não estava familiarizada com os borrachudos do local. Naquele dia, o Rinpoche e a Lama Sherab apareceram caminhando em direção ao carro muito bem vestidos, com roupas de cerimônia. No trajeto, Lama Sherab perguntou pra Inez se ela viria com eles para “gravar com a câmera”.

A Inez respondeu que infelizmente não poderia, mas ofereceu a câmera. No mesmo instante, a Lama Sherab simplesmente apontou pra mim e disse pra eu ir pegar a câmera. Sem entender muito bem o que iria acontecer, peguei a câmera. Lama Sherab perguntou se eu sabia gravar, eu respondi que sim. “Então entra” ela disse, com a porta do carro aberta.

Entrei no carro com meu vestidinho de verão, sem banho tomado, de chinelo, e fui com eles. Já dirigindo fora dos portões do Gonpa, Lama Sherab me explicou que estávamos indo pro Planeta Atlântida (um grande festival de música jovem) na praia de Atlântida, e que eu somente precisava filmar, pois o Rinpoche iria cantar. Achei super legal e disse “tudo bem!”

Eu ia no banco de trás e o Rinpoche no banco da frente, de co-piloto da Lama Sherab. Ele tinha problemas com o calor do Brasil, então o ar-condicionado estava ligado no máximo. E eu lá atrás, com meu vestidinho curto, comecei literalmente a bater o queixo de frio. Mas fiquei quietinha. Não tive coragem de dizer nada, pois sabia que o ar era necessário pro Rinpoche.

Pra minha total surpresa, depois de algum tempo batendo queixo, o Rinpoche fez um sinal pra Lama Sherab. Era incrível como ele se comunicava com ela por sinais e ela sempre entendia tudo. Então, a Lama Sherab me alcançou o zen (manto) do Rinpoche e traduziu, dizendo que o Rinpoche havia pedido pra que eu me cobrisse pra não passar frio.

Eu não sabia o que dizer. Não precisava de palavras, mas as perguntas eram milhares. Como ele sabia que eu estava com frio? Talvez fosse óbvio que eu estivesse com frio, mas mesmo assim a sua compaixão me comoveu profundamente.

[Contado por Vivian Clark]

Four legal

ChagdudRinpocheSmiling

Era um sábado glorioso de sol e todos os sábados eu costumava levar a Flávia para Três Coroas, pois ela ficava trabalhando até o meio da semana. Já eu dedicava o dia inteiro a algum trabalho e retornava no final da tarde. Naquela época, estávamos pintando os detalhes em madeira que ficavam no teto do templo ainda em construção. Sentados embaixo da bergamoteira ao lado da marcenaria, vários de nós meditavam durante sua tarefa. Era pura paz.

Quebrei a meditação de todos pedindo para a Lama Sherab perguntar ao Rimpoche se ele sabia o que significava a expressão portoalegrense “trilegal”. Ele disse que não e eu expliquei: era a referência que fazíamos a alguma coisa três vezes boa de tão boa. Muito cool. Eu queria me referir ao momento de paz e deslumbramento que estávamos compartilhando mas não cheguei a completar a minha fala quando ele disse: “four legal is better!” (quadrilegal é melhor!)

[Contado por Antonio Augusto C. de Carvalho]

Olhos que vêem mil vidas

Eu conheci Chagdud Tulku Rinpoche no início da década de 80, em San Francisco. Acho que ele tinha acabado de chegar à região e era relativamente pouco conhecido na época. Eu morava em uma casa bem fora do comum em West Marin, conhecida por vários dos tibetanos locais por sua semelhança com residências nepalesas ou tibetanas em muitos aspectos. Chagdud Tulku nos fez uma visita certa tarde e abençoou a casa e os arredores; depois prometeu que ia voltar. Algumas semanas se passaram e recebemos um telefonema de um integrante da sanga perguntando se Chagdud Tulku podia passar um dia na nossa casa para fazer uma gravação. Claro que ficamos emocionados e prontamente concordamos.

No dia do evento, tiramos tudo da sala e colocamos todos os tapetes tibetanos da casa. Preparamos um grande almoço de momos recheados com os legumes da nossa horta, além de providenciar muitas garrafas de saquê. As pessoas começaram a chegar entre dez e onze horas da manhã. Quando Rinpoche chegou, ele ficou absolutamente satisfeito com cada detalhe da nossa arrumação. A animação transbordava dele, como uma criancinha no Natal. Com educação, ele saboreou uma xícara de chá amanteigado, mas quando tentaram encher a xícara de novo, ele deixou bem claro que sua opção de bebida quente naquele momento era saquê. Isso serviu para quebrar o gelo de qualquer tensão que ainda restasse sobre os presentes, e todo mundo entrou em estado de profundo relaxamento imediatamente, com ou sem a bebida.

Rinpoche começou aquecendo suas cordas vocais com trechinhos de várias canções folclóricas tradicionais tibetanas, tantas quanto era capaz de lembrar. Eu lembro que as gravações começaram por volta do meio-dia e se estenderam até bem depois de escurecer. Na medida em que a luz da tarde foi lentamente se movendo de uma janela à outra, as sequências de melodias do Rinpoche foram soprando, como fumaça de lenha, em uma paisagem de mantras, entoados como se estivessem registrados no nosso DNA coletivo. O canto dele parecia sair das paredes das próprias estupas, incrustadas no compromisso com o Darma mais profundo de vidas e vidas inteiras.

***

Mais ou menos um ano depois das gravações, eu vi em um café em Seattle um folheto anunciando que Chagdud Tulku daria uma Iniciação de Tara Vermelha no dia seguinte na cidade. Quando cheguei ao local da iniciação, subi os degraus, tirei os sapatos e ouvi uma voz que me dava as boas-vindas. Ergui os olhos e lá estava Chagdud Tulku bem na minha frente, com as mãos estendidas em um cumprimento caloroso de acolhida.

Antes mesmo que eu pudesse responder, ele deu um passo atrás e, com um sorriso de orelha a orelha, disse: “Ah, estou vendo que você trouxe o dobro para a bênção de Tara hoje!”. Eu devo ter parecido confusa, porque ele então explicou, depois de uma pausa de apenas um instante: “você está grávida agora!”. Eu, é claro, fiquei sem palavras, porque não fazia a menor ideia de que estava grávida. Eu pensei: “Talvez ele esteja falando em algum nível simbólico”. Uma semana depois, de volta à Califórnia, a gravidez foi confirmada. Agora, vinte anos depois, eu reconheço que o Rinpoche realmente incorporava o sidi de ter “olhos que vêem mil vidas”.

[Contada por Susan Shannon]

Josh

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Desde o dia em que meu filho Joshua nasceu, ele sofria de dores abdominais muito intensas. Ele passava o dia e a noite inteira berrando. No começo, tentei todos os remédios possíveis para cólica; depois, o levei a um gastrenterologista que não pode ajudar. Eu sou médica e também pratico medicina complementar e psicoterapia. Eu tinha todos os recursos possíveis, mas nada fazia a menor diferença.

Quando Josh cresceu, ele vinha correndo para mim e dizia: “A dor está chegando, me abraça”. Ele subia no meu colo, apertava a barriga dele contra a minha e nós chorávamos e balançávamos e cantávamos e conversávamos até a dor aliviar, daí ele voltava a ficar em paz durante algumas horas. Dia e noite, o sofrimento continuava. Então, quando estava com três anos e meio, ele começou a ter pesadelos terríveis – sempre parecidos – de que eu estava dirigindo o carro com ele na cadeirinha no banco de trás; alguém batia em nós por trás e ele morria. Com frequência, eu também morria.

Esses pesadelos eram realistas, repetitivos e apavorantes para ele. Depois de alguns meses, a visão passou a tomar conta do dia dele. “Mamãe, eu não quero morrer, faça alguma coisa.” Naquele momento, eu soube o que precisava fazer. Eu tinha assistido aos ensinamentos do Rinpoche quando ele veio à Austrália, quando Josh era bem pequeno. Eu sabia que ele era o único que poderia nos ajudar. Liguei para o Rigdzin Ling na Califórnia e fui informada de que haveria um Drubtchen de Vajrakilaia. Eu não fazia ideia do que era isso, mas fomos para lá. Como Josh berrava toda noite, aluguei um chalé a alguns quilômetros do Gonpa.

Durante um intervalo no Drubtchen, eu procurei o Rinpoche e perguntei sobre a dor e os sonhos. Eu disse que me apavorava com a impermanência e não queria que isso também acontecesse com Josh. O Rinpoche olhou para mim com tanta compaixão, tão vasta… eu sabia que tudo ficaria bem, independentemente do que acontecesse.

Quando eu procurei o Rinpoche de novo, depois de ele o ter “examinado”, ele disse que Josh ia precisar de cirurgia para remover um segmento do intestino e que eu deveria ligar para ele para falar sobre os sonhos quando voltasse para a Austrália.

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Chegamos em casa e eu comentei com Josh que ele não estava sentindo dor, e ele respondeu: “O Rinpoche consertou”. Como eu não tinha chegado a levar Josh até o Rinpoche no Drubtchen, perguntei o que ele
queria dizer. Ele respondeu: “Certa noite, o Rinpoche veio do Gonpa, atravessou a parede, veio até a minha cama e tocou na minha cabeça com seu vaso da longa vida, e consertou a minha dor na barriga”. Quando eu perguntei: “Você sonhou?”, ele olhou bem fixo para mim e respondeu: “Não, mamãe, você estava dormindo, o Rinpoche realmente atravessou a parede, veio até a minha cama…”.

Alguns anos depois, quando eu relatei a história para Chagdud Khadro-la, ela disse que eu devia contar para o Rinpoche, que ele não costumava realizar essas coisas na mente comum, mas o que Josh tinha experimentado era um corpo de emanação da vasta compaixão do Rinpoche.

Eu liguei para o Rinpoche para falar sobre o que Josh tinha visto e ele explicou que Josh tinha um forte carma para morrer em um acidente entre os 4 e os 6 anos de idade. Ele me disse o que fazer. Eu devia rezar intensamente para Tara Vermelha, acumular mérito. Salvar vidas e pendurar bandeiras de oração. E o Rinpoche rezaria para ele e também penduraria bandeiras de longa vida na casa do pavão no Gonpa.

Em intervalos de alguns meses, eu ligava para o Rinpoche para saber se os obstáculos tinham desaparecido; vez após outra ele me dizia com muita paciência para continuar, e que ele também estava rezando. Finalmente, um mês depois do aniversário de 5 anos de Josh, eu liguei para o Rinpoche e ele disse que o obstáculo tinha desaparecido! Eu me deitei no chão e chorei de alívio, depois de alegria. O meu garotinho
viveria!

Da época do Drubtchen até agora, que Josh está com 18 anos, ele nunca mais teve a dor abdominal; ele não precisou de cirurgia. É difícil descrever o alívio enorme que foi ver aquela dor cessar! Josh estava com quase 4 anos quando dormiu uma noite inteira pela primeira vez. Os pesadelos também cessaram completamente desde a época do Drubtchen e das orações do Rinpoche para o bem dele.

Sua Santidade Chagdud Rinpoche, por meio de sua compaixão e sabedoria incomensuráveis, curou a dor de Josh, salvou sua vida e a minha, e nos libertou de nosso inferno pessoal. O Rinpoche cuidou de nós com tanto
carinho naquela época (e ainda hoje) e plantou nossos pés com muita firmeza na vastidão do Darma.

Eu rezo do fundo do meu coração para que as atividades iluminadas de Chagdud Rinpoche prossigam em todos os reinos, e que seu Yangsi floresça!

[contada por Jullie Kidd]

Are you sure?

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Logo que me mudei para o Chagdud Gonpa, no final de 1996, um dos grandes obstáculos que enfrentei foram as poucas horas de sono que tínhamos. O ritmo de trabalho no Gonpa, quando o Rinpoche estava lá, era sempre alucinante. Um dia, naquela época, o Rinpoche e a Khadro estavam se preparando para ir aos Estados Unidos, onde passariam alguns meses no Rigdzin Ling. Cedo da tarde, me lembro de ter comentado com a Lama Yeshe ( naquela época ela ainda era a “Soninha” ), sobre meu cansaço e juntas concordamos que a ausência do Rinpoche e Khadro seria boa para descansarmos um pouco e colocarmos nosso sono em dia.

À noitinha, eu estava no quarto do Rinpoche ajudando-o a terminar de empacotar as suas malas para a viagem. E disse para ele toda comovida: “Ah, Rinpoche, que pena que você está indo viajar. Vou sentir muita falta de você. ” Ele franziu sua testa, me olhou incrédulo e disse: “Are you sure?” (Tem certeza?)

Imediatamente me veio à minha memória minha conversa coma Lama Yeshe horas antes. Fiquei completamente sem jeito e sem palavras, enquanto o Rinpoche ria de mim.

[Contada pela Drika]

I’m Here

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Uma vez, eu e alguns outros praticantes estávamos varrendo o templo ainda em construção com a Khadro liderando a limpeza. De repente, o Rinpoche apareceu para verificar alguns detalhes e a Khadro disse: “Rinpoche, não fique aqui, está muito empoeirado, isso não é bom para você”. Ele disse “Ok” e saiu.

Minutos depois, o Rinpoche entrou de novo em passos rápidos, como uma criança – foi a única vez que vi o Rinpoche correr – e disse, numa voz bem aguda e desafiante: “I’m here!” (estou aqui!)

[Contada por Eduardo]

Chagdud Dawa Drolma

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Eu sou de Belo Horizonte, Brasil, do centro Chagdud Dawa Drolma. Esse nome do centro surgiu um dia em que o Rinpoche estava dando uma palestra em São Paulo. Nessa ocasião, eu tive uma visão dele brincando pequeno numa casa com uma senhora. Então, me veio um nome e eu escrevi esse nome em um papel.

No dia seguinte eu mostrei para ele o papel e perguntei que nome era aquele. Ele disse que era o nome da mãe dele. Eu pedi que ele escrevesse o nome correto. Ele escreveu e deu o nome ao centro de Belo Horizonte, Dawa Drolma, que era o nome da mãe dele.

[Contada por Bete Zaidan]

O fato mais importante da vida

rinpoche

Quando o Rinpoche morreu, eu senti muitas coisas ao mesmo tempo. No início foi muito triste, me senti completamente abandonada, sem chão. Me perguntava o que faria da minha vida sem meu lama. Mas, na verdade, eu não entendia o significado disso dentro de mim.

Então, durante os dias em que a mente do Rinpoche ainda estava no seu corpo após a sua morte, senti como se ele estivesse o tempo todo ao meu lado, uma presença muito forte. Durante esses dias tive a certeza de que a coisa mais preciosa que eu poderia ter tido na minha vida foi ter encontrado o Rinpoche, meu lama precioso, o próprio Buda.

Entendi que a sua morte foi mais uma forma que o Rinpoche encontrou de mostrar a sua imensa compaixão por nós, de trazer beneficio, de fazer com que a nossa prática melhorasse. Ao pensar nisso, a tristeza se foi, pois me dei conta que a presença dele jamais sairá do meu coração.

[Contada por Vanessa Sabbado]

Driblando formigas

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Em uma das vezes que Rinpoche foi a Florianópolis, ele se alojou na casa de uma vizinha da sanga que ficava a poucos metros do Gonpa. Na hora de sair, eu o acompanhava, segurando-o pelo braço para irmos até o carro. Tínhamos que atravessar um pequeno trajeto de lajotas para depois subirmos alguns degraus de pedra junto ao portão do jardim.

O Rinpoche estava com alguma dificuldade de andar e eu não estava muito acostumado a ajudá-lo nisso. Além do mais, eu ainda estava realmente comovido com a sua presença conosco nesses dias e me sentia atrapalhado nas interações que fugiam aos enquadres formais dos momentos de ensinamentos ou cerimônias.

Eu já previa que a tarefa não seria muito simples, pois o peso do Rinpoche não era pouco e minha habilidade com ele não era muita. Eu estava aterrorizado e feliz ao mesmo tempo. Aterrorizado pela possibilidade do Rinpoche cair e se machucar. E feliz por estar junto com ele em uma situação muito simples, mas ao mesmo tempo extremamente profunda. Apesar de eu não ter compartilhado com ele muitos momentos desse tipo, a experiência de intimidade e de cumplicidade era muito grande e o Rinpoche parecia se sentir seguro comigo.

Quando chegamos ao degrau, eu tomei coragem e impulsionei o Rinpoche. Mas, para minha surpresa, ele não parecia estar disposto a se mexer. Tomei novo impulso e dei uma empurrada mais forte. O Rinpoche, no entanto, não só não estava ajudando como parecia fazer força no sentido contrário. E agora? Um novo impulso e o Rinpoche resistiu, mas dessa vez também caiu na gargalhada. Uma gargalhada dessas que parece que vem do centro de uma montanha e faz tremer a terra.

Eu não tive muito tempo para rir pelo desespero de encontrar algum ponto de equilíbrio. Já com nossos quatro pés bem apoiados e o centro de gravidade restabelecido, pude rir ao ver o degrau e entender que o Rinpoche estava evitando pisar em umas formigas que passavam tranquilamente à frente, carregando algum pedaço de folha que lhes serviria de alimento.

[Contada por Luciano Florit]

Ele nunca se ausenta

Rinpoche

Eu lembro que era um dia daqueles em São Paulo. Eu estava no trabalho, folheando o jornal, e, em uma das últimas páginas, de repente, vi aquela fotinho em branco e preto com algumas palavras escritas embaixo. Dizia que um Lama tibetano – Chagdud Tulku Rinpoche – viria ao Brasil e iria morar em Três Coroas, falando ainda que o lugar iria se transformar em um centro mundial do budismo. Eu já estava envolvida com o budismo havia muitos anos, mas nunca tinha de fato encontrado o “meu Lama”. De algum modo, no momento em que olhei para aquela foto, senti uma convicção claríssima, do fundo do coração: “Isto é para mim”. Peguei uma tesoura e recortei a foto dele, guardei em um saquinho de plástico e coloquei bem ali na minha mesa. Isso foi em maio de 1995, e ele tinha acabado de chegar.

Naquele ano, eu tentei encontrá-lo, liguei para amigos em Porto Alegre, vez após outra, mas ninguém sabia onde “aquele Lama” estava, porque na época ele morava em um apartamento na cidadezinha de Três Coroas e ainda não tinha se mudado para o lugar que posteriormente seria o Gonpa. Além disso, naqueles primeiros meses, ele também viajava muito para os Estados Unidos e para o Nepal, de modo que o tempo foi passando e eu não o encontrava. Daí, em 1997, ele foi convidado para transmitir uma mensagem de paz em um show de rock em Porto Alegre. Ele apareceu nos jornais locais e de repente ficou “famoso”. Foi aí que os meus amigos de Porto Alegre me ligaram e finalmente me falaram sobre o Gonpa em Três Coroas. Eu liguei imediatamente para o lugar e perguntei como poderia ver o Lama ou falar com ele. Disseram que de manhã, às seis horas, e no fim da tarde, ele fazia o puja, e que eu podia ir lá assistir. Então eu providenciei hospedagem em Gramado e, de lá, peguei um táxi para me levar ao Gonpa às cinco da manhã.

Estávamos em setembro, ainda era inverno, estava frio e totalmente nublado; o taxista nunca tinha ouvido falar do Rinpoche e não fazia a menor ideia do caminho que precisava seguir. Quando finalmente encontramos a estrada que ia até o alto da montanha, ainda estava escuro e com neblina, e o motorista ficava perguntando: “Então, aonde mesmo a gente está indo?”. Eu respondia: “Não sei. A única coisa que eu sei é que tem um Lama tibetano que mora no alto desta montanha”. Então nós seguimos em frente até finalmente topar com uma placa dizendo que tínhamos chegado ao Gonpa. O templo ainda não tinha sido construído e a sala das cerimônias ficava em um prédio que hoje serve de dormitório.

Eu entrei e havia um pequeno grupo de pessoas. O puja tinha acabado de começar, e eu lembro daquilo com muita clareza. O Rinpoche estava sentado de costas para a parede, à esquerda da entrada. Quando eu entrei, ele não virou a cabeça, mas eu vi e senti os olhos dele disparando na minha direção, de ladinho. Foi como se aquilo tivesse me atingido. Eu desabei ali na frente e fiquei assim durante o puja todo, só olhando para ele. Daí, depois do puja, ele me chamou e perguntou o que eu queria saber. Eu lembro de ter dito a ele, antes de qualquer coisa, que, se dependesse de mim, eu nunca mais iria embora dali, que eu queria ficar naquele momento mesmo, mas que infelizmente precisava voltar para São Paulo para trabalhar. Perguntei se ele podia me dar conselhos a respeito de como meditar no dia a dia, no meio da confusão da cidade grande. Ele perguntou se eu entendia inglês e eu respondi que sim, claro. Então ele começou a falar e eu não entendi nenhuma palavra. Mas não fez diferença. Eu só olhei nos olhos dele e me perdi completamente. Daí eu me levantei, saí da sala e encontrei uma amiga minha, Susie. Eu me sentei nos degraus e só chorei e chorei. Susie perguntou: “O que foi? Por que você está chorando?”. Eu respondi:

“Ah, Susie, eu estou tão feliz por ter encontrado o Rinpoche e eu sei, com tanta clareza, que esta é a minha última chance nesta vida”.

A partir de então, eu passei a ir ao Gonpa com a maior frequência possível e também conheci a Lama Tsering em São Paulo. O Rinpoche ficava me pedindo, vez após outra, para ir morar no Gonpa, mas o samsara – o trabalho, a família e todos os meus apegos – tinha me pegado de jeito. Finalmente, em 2000, eu consegui me libertar e mudei para o Gonpa. Nunca me arrependi dessa decisão, nem por um instante; a minha vida mudou de um jeito com o qual eu jamais poderia ter sonhado.

O Rinpoche me mostrou minha verdadeira natureza. Ele revelou tudo que é possível em um ser humano e o que a gente é capaz de fazer quando entende como se deve viver, experimentar a vida e estar com os outros seres – como viver tudo isso de outra maneira.

Eu só queria fazer a minha prática. Eu só queria viver tudo aquilo que ele tinha mostrado para nós.
As qualidades dele que eu amava eram sua compaixão ilimitada, seu amor imparcial infinito e a maneira como nos ajudava , nos via e nos ensinava. Ele era tão paciente conosco, os “bebês do Darma” dele, como ele dizia, sempre com humor, risadas, diligência e visão inspiradoras. “Siga em frente”, era a maneira mais simples que ele tinha de nos motivar quando chegávamos com todas as nossas perguntas e dúvidas. Ele era apenas uma mente de pureza total derramando amor em cima de nós; e é tão incrível quando se pode receber esse amor.

E agora que ele se foi do plano físico, não faz diferença, porque tudo continua presente – e muito mais, multiplicando-se como nuvens de oferendas no céu – e ele está conosco o tempo todo. Eu ando por aí e sempre o escuto na minha mente. Eu sempre o vejo e sempre o sinto. Então, ele está comigo o tempo todo. Ele nunca se ausenta. E eu nunca, jamais vou abandoná-lo.

[Contado por Christine]

Não posso explicar agora

Chagdud and Marice 1

Conheci o Rinpoche em 1999 na inauguração de uma feira ecológica em Porto Alegre. Eu fazia parte da organização e lembro que todo mundo estava super ansioso para receber esse tal de Lama. As fitas de inauguração da feira tinham as cores do budismo tibetano: azul, vermelha, amarela, branca, verde. Eu fui escolhida para puxar uma das fitas e, como gostava muito de vermelho, fui pegar a fitinha vermelha mas uma mão apareceu, pegou antes e riu assim: “Hi hi hi.” Era o Rinpoche do meu lado. Ele puxou rápido a fita vermelha e eu tive que pegar a verde.

No dia seguinte, eu ia para a Espanha tentar arrumar minha vida. Só que cheguei lá e deu tudo errado. Então, depois de um tempo, voltei para o Brasil e me lembrei do Rinpoche. Eu não tinha uma vida espiritual e pensei que talvez as coisas estivessem dando errado porque isso é que estava faltando.

Um tempo depois, eu estava na feira da José Bonifácio (uma feira de alimentos ecológicos) quando passou um rapaz com o livro do Rinpoche e disse que haveria um evento em Três Coroas – um retiro de Ioga dos Sonhos. Eu decidi ir e, quando cheguei no Khadro Ling, estava de “civil”. Todo mundo tinha sadanas, todos os apetrechos e eu sem nada. Entrei e fiquei em um cantinho. Achei o lugar super bonito, fiquei apaixonada pela música de Tara, mas pensei “não é para mim, vou terminar isso aqui e vou embora”.

Só que daí fui ao Yeshe Ling, em Porto Alegre, e a Maria Inês me procurou e pediu ajuda com o Excel. Eu comecei a frequentar o Yeshe Ling por causa das tabelas de Excel.

Chagdud and Marice 2

Em 2002, eu lembro que tinha que trabalhar horrores e larguei tudo para fazer umas iniciações em um sábado de manhã, lá no quarto do Rinpoche no Khadro Ling. Quando eu estava subindo, uma menina me disse: “Tu não moras aqui, não vais fazer as iniciações”. Eu disse: “Tá, então vou lá pegar o meu dinheiro de volta e vou embora, né”. Mas chegou outra pessoa e disse “Sobe, sobe”, e daí eu subi e fiquei na porta. Fui a última a chegar.

Depois disso, fui a outros eventos e iniciações. Mesmo tomando todas aquelas iniciações, eu me perguntava: “Ai, será?” Eu ficava muito na dúvida.

Daí veio o retiro de P’owa em novembro de 2002 e eu estava meio sem dinheiro. Só que, naquela semana, chegou a restituição do imposto de renda e eu disse “bom, está aqui o dinheiro. Eu vou”. Daí fui, e acho que aquilo foi um marco para mim porque, mesmo que eu não tenha tido uma convivência direta com o Rinpoche, aquele retiro fez toda a diferença. O que aconteceu naquele retiro foi tão forte, me marcou.

Depois disso, quase fui despedida do meu emprego porque passava muito tempo no Khadro Ling fazendo lamparinas. Meu celular tocando e o meu chefe atrás de mim. Eu dizia: “Eu não posso, morreu uma pessoa”. E ele: “Mas quem morreu?”. E eu: “O Rinpoche”. E ele: “É teu avo? Teu pai?”.

Eu enlouqueci, chutei o balde, quase fui para rua. Meu chefe falou: “Marice, tu és uma pessoa séria, responsável, alguma coisa deve estar acontecendo.”

E eu: “Me dá um tempo que não posso explicar agora”.

[Contada por Marice]

Costurês

Rinpoche

Eu nasci com o bom carma de saber costurar. Por isso, nas vésperas de um Drubtchen da Essência do Sidi, o Rinpoche me chamou para costurar os 16 djaltsens (estandartes da vitória, hoje feitos de fibra) que seriam colocados no telhado do templo.

A máquina de costura, presente de casamento da Khadro para o Rinpoche, estava no quarto de hóspedes no apartamento deles. Lá, encontrei sobre a cama muitas peças do brim que eu ia costurar. O Rinpoche foi muitas vezes até lá para ver o andamento das costuras e sentava no meio da cama explicando o que eu devia fazer. Ele abria o tecido e me explicava por meio de gestos, já que eu não falava inglês. Eu respondia com o polegar para cima, indicando que estava entendendo.

Foi aí que eu descobri uma nova língua, o costurês, que tive privilégio de falar com o mestre, também costureiro.

[Contada por Elusa Faria]

Desapego

Rinpoche

Quando eu havia recém terminado meu retiro de 6 meses, tentei desistir de uma entrevista com o Rinpoche quando soube que o humor dele estava irado. Lama Sherab disse que eu não poderia desistir porque ele queria falar comigo. E eu fui, temerosa.

Depois de preâmbulos nada fáceis, o Rinpoche me comunicou seu desejo de que eu fosse cuidar da sanga de Manaus. Eu fiquei tão chocada que não entendi. Enquanto ele falava com alguém que entrou na sala, perguntei para a Sibele, que traduzia: “O que ele falou?” Ela confirmou: “Ele quer que você se mude para lá.”

Com o coração apertado, respondi que não era rica, que tendo parado de trabalhar como fiz, teria dinheiro apenas por um tempo, levando uma vida muito simples. O Rinpoche contra-argumentou que eu poderia trabalhar lá, que com certeza as pessoas me ajudariam a ter clientes. Com o coração apertado e a boca seca, respondi: “Rinpoche, meu lado infantil diz que deseja ficar aqui, na casa que construí, perto do meu mestre. Mas a praticante responde que eu faço o que o senhor desejar”. Rinpoche respondeu: “Ok. Now go, go.”

Saí como se tivesse sido mandada para o exílio. Teria que voltar a trabalhar profissionalmente pra me sustentar e ficaria longe do meu mestre e dos meus filhos.

No dia seguinte, o Rinpoche viajou por um mês. Só me lembro de ter ficado tão angustiada na minha adolescência. Comecei a olhar o Khadro Ling e a minha casinha à qual estava tão apegada, com olhos de despedida, de deixar ir. Foi difícil! O trabalho na lojinha me ajudava a desviar a mente do problema. Os dias passaram. Rinpoche foi, voltou e nunca mais falou no assunto.

O resultado daquele golpe de mestre foi um excelente trabalho de desapego. O Rinpoche fez a mágica de me mandar para longe sem que eu nunca tivesse saído daqui.

[Contada por Yvonne]

Conexão

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A primeira vez que eu vi Rinpoche foi em 1998, quando morava em Manaus e trabalhava com informática. Na época, eu estava com um abcesso no ombro e passava o tempo todo consertando e carregando máquinas com aquilo nas minhas costas doendo.

Uma vez, passei o dia inteiro dopada com Cataflan. Tomava Cataflan de duas em duas horas. Nesse dia, o Rinpoche ia dar uma palestra em Manaus. Era a primeira vez que eu iria vê-lo. Eu não sabia quem ele era, não tinha a menor idéia. Na hora de sair para a palestra, parei de tomar o Cataflan e fiquei com a dor. A palestra era bem perto do meu trabalho. Eu cheguei cedinho, sentei e fiquei esperando minha colega.

Então chegou o Rinpoche. A Lama Sherab tinha um cabelão e eu pensei “nossa, que cabelão é esse”. O Rinpoche sentou e eu pensei “nossa, que estranho ele é”. Até esse momento, eu ainda tinha consciência da minha dor. Daí o Rinpoche começou a falar. Falou, falou várias coisas e aquilo foi me acalmando, aquilo fazia muito sentido. Ele falou muito tempo. Eu esqueci a dor, esqueci o meu braço, esqueci tudo e fiquei prestando atenção nele. Eu prestava atenção na barbinha, no olhinho tão engraçado e teve uma hora que eu senti uma coisa engraçada no braço. Tinha estourado o abcesso. E eu não quis nem saber, eu queria saber do Rinpoche, fiquei só prestando atenção nele.

Quando ele terminou, eu não lembrava mais da minha dor, nem lembrava que estava escorrendo, nada. Ele terminou e a gente ofereceu o katag ( lenço branco de seda) para ele. Depois fomos embora e só dentro do carro da minha colega é que eu me lembrei do ombro. Então eu disse para ela: “Eu estava com dor, não mexia o braço…” e daí mexi o braço e minha colega disse: “Isso foi o Rinpoche”. E eu: “Ah tá, foi o Rinpoche”. Fiquei feliz, porque na verdade eu senti uma conexão com ele, isso ficou bem presente para mim.

[Contada por Sandrinha Vinhales]

A estátua

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Eu nunca entendi o inglês do Rinpoche muito bem. Quando cheguei aqui, eu tentava entender e não dava. A tradução era em português e então eu também não entendia a tradução. Todos os brasileiros entendiam o inglês dele, mas para mim ele não estava falando inglês. Eu fiquei com muita inveja por todos os brasileiros poderem conversar com ele sem fim.

Com Rinpoche, eu estava o tempo todo assim: “O que ele disse? O que ele disse? O quê? O quê? O que ele diz?” Eu não entendia nada. Mas, na verdade, com o Rinpoche não era preciso falar. A mente dele permeia o nosso coração, permeia tudo. Eu me lembro de uma vez quando finalmente entendi o que ele dizia: foi um milagre.

Ele sempre estava com pressa para construir todas as coisas aqui no Khadro Ling, como um cavalo em uma corrida. Ele tinha essa sensação: pressa, pressa, não temos muito tempo, e esse sentido do corpo humano precioso estava sempre muito presente dentro dele. Nós tínhamos essa sensação de que o corpo dele estava perdendo energia, mas a mente, não. A mente tinha um caráter nuclear.

Nós não tínhamos escada de carpinteiro nem rampa na frente do templo. E ele disse: “Eu tenho de fazer isto e meu corpo não pode, mas tem de fazer”. E ele estava olhando para fora da janela e viu o Eduardo, Dudu, que tem os siddhis do trabalho físico. E o Rinpoche falou: “Oh! O Dudu está aí! Ele é os meus braços”.

Eu fiquei muito tocada com isso, porque vi que ele tinha amor, um tipo de valor. Ele valorizava as pessoas que trabalhavam para ele. Parecia que ele tinha dito: “Meus braços não funcionam mais, minhas pernas não funcionam mais, mas eu tenho o Eduardo. Ele é os meus braços, ele é meu corpo, um corpo humano precioso”.

Outra coisa de que eu me lembro é quando minha mente mudou de uma posição muito ordinária para outra posição. Ele estava sentado no trono e depois do puja nós sempre nos reuníamos aqui de modo informal. As pessoas estavam fazendo prática. Ele tinha urgência com a prática: “Nós não temos muito tempo nesta vida”. E nós sempre tínhamos uma idéia, uma noção de que nós não tínhamos muito tempo com ele.

Tudo estava muito quieto. No lago, lá embaixo, costumava ter muitos sapos. Nessa noite tinha muito, muito barulho. E porque estávamos muito quietos, dava para ouvir aquele crê, crê, crê”, e mais e mais. E o Rinpoche disse: “Essas pessoas…”. E eu pensei: “Que pessoas? Só há sete pessoas aqui – Lama Sherab, Andreia, Cris, Sonia, Cibele, eu, Dudu, que pessoas estão fazendo muito barulho hoje à noite?”. E o Rinpoche: “Será que essas pessoas estão dando uma festa?”. E eu pensando: “Que pessoas?”.

Até que eu me dei conta que ele estava falando dos sapos. Para ele sapos são pessoas, não animais. Eu era nova no Brasil, nova na sanga. Então, pensei: “Se ele se sente assim em relação aos sapos, talvez ele possa gostar de mim, talvez eu possa ficar aqui”.

Outra história: eu sou de Boston, perto de Nova York. Em Boston nós não temos muita sanga. Eu só havia visto a Lama Tsering e a Khadro. Eu cheguei aqui no Khadro Ling pela primeira vez e estava com Rinpoche em um retiro de 40 pessoas na outra sala. Eu não sabia nada sobre budismo, sobre a mente, e eu não sabia muito sobre o Rinpoche. Mas eu estava muito, muito feliz, com muita expectativa por estar aqui.

Durante este retiro, de 4 ou 5 semanas, o Rinoche apontou para um lugar onde só havia um pedestal e um buraco no chão e disse: “Neste mês, nós vamos terminar esta estátua”.

E eu ri sozinha, completamente sozinha. Eu fechei a minha boca, sentei muito ereta, olhei ao redor e ninguém estava rindo. Pensei: “Fecha a boca, Liz, ele está falando sério, ai meu deus… ok, vamos terminar a estátua. Tá bom… ok, estátua…vamos ver.”

E claro que sim, ele terminou.

[Contada por Liz]

Olhos por todo o Gonpa

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Certa vez estava tomando banho no Khadro Ling e simplesmente esqueci dos problemas com a água. Fiquei cerca de meia hora no chuveiro. No final da cerimônia, naquele dia, fui entregar um pequeno presente ao Rinpoche e me despedir. Ao me aproximar, ele virou para o Lama Rigdzing e perguntou sobre a água.

Imediatamente percebi a minha não-virtude e devo ter ficado bem vermelho. Eles ficaram conversando sobre a água por alguns minutos. Eu fiquei paralisado a alguns passos do Rinpoche, que nem olhava para mim. Passei dias meditando sobre o que aconteceu e sobre como ele havia sido capaz de me advertir sobre minha falta de atenção de uma forma tão não-violenta mas ainda assim tão impactante.

[Contada por Eduardo Pinheiro ]

Encontrando a jóia que realiza desejos

rinpoche, leda, lama sherab

O ano de 1993 fez parte de um ciclo de profundas e drásticas mudanças em minha vida. Um tempo de muitas revisões, análises, esperanças e buscas. Em agosto daquele ano, fui ouvir a palestra de um lama tibetano com algumas amigas. O processo de tradução era lento e, por muitas vezes, eu me perdia, me dispersava. Num dado momento, algo mudou dentro de mim, foquei-me diretamente no rosto do lama, atenta à sua voz. Um magnetismo muito forte vibrava e suas palavras vieram diretas ao meu coração. Fechei minhas anotações, uma sensação suave de primavera me envolveu – era a magia da descoberta. Tudo estava, não faltava nada.

[Contada por Leda Volino]

Buda em pessoa

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Minha lembrança mais marcante é da primeira vez que eu vi Rinpoche. Ele veio ao Rigdzin Ling pra dar ensinamentos muito preciosos. Eu não o conhecia pessoalmente e, nos dias que antecederam a visita, a emoção foi crescendo no ar até o momento em que ele chegou. E a presença dele superou em muito a emoção antecipada. Se eu pudesse imaginar como o Buda era em pessoa, seria o Rinpoche.

A mente dele era como o espaço, é como o espaço. E sua compaixão é ilimitada. Amor, equanimidade, visão imparcial em relação a todos os seres e a todas as situações: assim era o Rinpoche. Os ensinamentos dele eram a respeito de como incorporar isso. O desejo dele era que todos os alunos fossem capazes de incorporar a equanimidade sem limites e a compaixão no estado vasto da mente. Foi isso que eu aprendi com o Rinpoche, a me abster de causar prejuízo em qualquer forma, a praticar virtude em todas as formas e a domar minha própria mente.

[Contada por um aluno]

Rinpoche em Curitiba

Parque Tanguá 02

Em agosto de 2008 fez 10 anos que tivemos a bênção de conhecer o Rinpoche durante a inauguração do Dordje Ling em Curitiba. No início, o centro ficava na minha casa, pois eu e minha família oferecemos de todo o coração nosso salão de festa para inaugurar rapidamente um Gonpa.

Devido à sua energia maravilhosa, queríamos ficar perto do Rinpoche para sempre, nem que fosse só olhando. Nos divertimos muito, por exemplo, quando fomos buscá-lo no aeroporto e o perdemos. Saímos um para cada lado, desesperados e inconformados por tê-lo perdido de vista, quando vimos uma pequena multidão assistindo ao que um policial descreveu como “uma senhora andando no elevador panorâmico”: lá estava Rinpoche, entretido, subindo e descendo no elevador. Ficamos apenas parados olhando porque ele parecia estar gostando muito. Outra vez, no mesmo aeroporto, Rinpoche desafiou nossa pressa com o início de um evento decidindo comer um X-salada “exatamente como o colorido da propaganda do painel” que a lanchonete mostrava. Foi a maior graça.

O passeio pelo Shopping Mueller foi outra diversão. Tudo ele gostava, entrava em cada loja e fazia o mudra de oferenda de mandala até que, em uma delas, experimentou um agasalho que gostou. Comprei-o e ele saiu da loja vestindo o presente, quase correndo de alegria pelos corredores, parecendo uma criança feliz.

Bosque Papa João XXIII

Em uma segunda-feira, decidimos levá-lo para um city tour, mas eu não sabia que a maior parte dos pontos turísticos ficam fechados para limpeza e conservação nas segundas. Apesar disso, foram poucos os lugares que não conseguimos conhecer. Onde Rinpoche chegava, as portas se abriam. Os funcionários que estavam trabalhando faziam questão de deixá-lo entrar.

No Parque Papa João II, o funcionário que abriu o portão estava justamente naquela hora lendo a reportagem do evento no jornal local, que trazia uma foto de Rinpoche. O funcionário ficou tão emocionado que pediu autógrafo no próprio jornal.

Esse foi o local que o Rinpoche mais gostou. Construído em homenagem ao Papa quando de sua primeira visita ao Brasil em Curitiba, o parque tem casas rústicas construídas com troncos maciços de árvores. Rinpoche pediu ao Lama Norbu que verificasse em detalhes como era tudo. Foi tanta emoção, tanta energia boa que até hoje não tem como esquecer.

Inauguração Dordje Ling 03

Outra coisa que Rinpoche gostou muito foi a costela que meu marido Celso fez especialmente para ele. A costela é colocada para assar na churrasqueira um dia antes e, ao ser consumida, está derretendo de tão macia. Ao final de um lindo ensinamento, já por volta de meia noite, ele desceu do Gonpa e, sentadinho todo lindo em nossa cozinha, começou a comer. Gostou tanto que perguntava ao meu marido como foi feita e pediu à Andréa que anotasse tudo.

Ao final de um outro ensinamento, sentamos no terraço externo que ficava anexo ao Gonpa e rimos como nunca das piadas do Rinpoche. Ele ria mais do que todos. Não tinha como não nos divertirmos com tanto amor, compaixão e alegria que ele transmitia.

Foram dois anos maravilhosos, que deixaram lembranças inesquecíveis e que mudaram a vida de todos. Mudaram para melhor, pois, ao lembrarmos as experiências maravilhosas, apesar de tanta dor de saudade, nos sentimos felizes simplesmente por termos conhecido o Rinpoche.

[Contada por Sumaia]

Retribuição

RinpocheOutdoor

Eu morei três anos perto do Rinpoche e, por muito tempo, pela sua sabedoria, o Rinpoche me manteve quieto. Ele não me deixava fazer nenhuma pergunta e era sempre irado comigo. Certo dia, ele convidou todas as pessoas que moravam no Khadro Ling para falar com ele. Depois de conversar comigo por um tempo, ele perguntou se eu tinha alguma pergunta. Eu fiz uma pergunta e ele me deu a resposta mais bonita que já recebi.

Naquela noite, voltei para o meu quarto, sentei e meditei de acordo com as suas instruções. Foi como ter o sol brilhando onde antes ele só tinha se posto. Naquela noite, eu realmente chorei não porque me senti triste, mas porque eu percebi que nada poderia retribuir a sua bondade. Nenhuma palavra poderia expressar a bondade que ele mostrou não somente naquele momento, mas em todos os momentos que eu vivi com ele.

[Contada por Sérgio Senna]