Olhos que vêem mil vidas

Eu conheci Chagdud Tulku Rinpoche no início da década de 80, em San Francisco. Acho que ele tinha acabado de chegar à região e era relativamente pouco conhecido na época. Eu morava em uma casa bem fora do comum em West Marin, conhecida por vários dos tibetanos locais por sua semelhança com residências nepalesas ou tibetanas em muitos aspectos. Chagdud Tulku nos fez uma visita certa tarde e abençoou a casa e os arredores; depois prometeu que ia voltar. Algumas semanas se passaram e recebemos um telefonema de um integrante da sanga perguntando se Chagdud Tulku podia passar um dia na nossa casa para fazer uma gravação. Claro que ficamos emocionados e prontamente concordamos.

No dia do evento, tiramos tudo da sala e colocamos todos os tapetes tibetanos da casa. Preparamos um grande almoço de momos recheados com os legumes da nossa horta, além de providenciar muitas garrafas de saquê. As pessoas começaram a chegar entre dez e onze horas da manhã. Quando Rinpoche chegou, ele ficou absolutamente satisfeito com cada detalhe da nossa arrumação. A animação transbordava dele, como uma criancinha no Natal. Com educação, ele saboreou uma xícara de chá amanteigado, mas quando tentaram encher a xícara de novo, ele deixou bem claro que sua opção de bebida quente naquele momento era saquê. Isso serviu para quebrar o gelo de qualquer tensão que ainda restasse sobre os presentes, e todo mundo entrou em estado de profundo relaxamento imediatamente, com ou sem a bebida.

Rinpoche começou aquecendo suas cordas vocais com trechinhos de várias canções folclóricas tradicionais tibetanas, tantas quanto era capaz de lembrar. Eu lembro que as gravações começaram por volta do meio-dia e se estenderam até bem depois de escurecer. Na medida em que a luz da tarde foi lentamente se movendo de uma janela à outra, as sequências de melodias do Rinpoche foram soprando, como fumaça de lenha, em uma paisagem de mantras, entoados como se estivessem registrados no nosso DNA coletivo. O canto dele parecia sair das paredes das próprias estupas, incrustadas no compromisso com o Darma mais profundo de vidas e vidas inteiras.

***

Mais ou menos um ano depois das gravações, eu vi em um café em Seattle um folheto anunciando que Chagdud Tulku daria uma Iniciação de Tara Vermelha no dia seguinte na cidade. Quando cheguei ao local da iniciação, subi os degraus, tirei os sapatos e ouvi uma voz que me dava as boas-vindas. Ergui os olhos e lá estava Chagdud Tulku bem na minha frente, com as mãos estendidas em um cumprimento caloroso de acolhida.

Antes mesmo que eu pudesse responder, ele deu um passo atrás e, com um sorriso de orelha a orelha, disse: “Ah, estou vendo que você trouxe o dobro para a bênção de Tara hoje!”. Eu devo ter parecido confusa, porque ele então explicou, depois de uma pausa de apenas um instante: “você está grávida agora!”. Eu, é claro, fiquei sem palavras, porque não fazia a menor ideia de que estava grávida. Eu pensei: “Talvez ele esteja falando em algum nível simbólico”. Uma semana depois, de volta à Califórnia, a gravidez foi confirmada. Agora, vinte anos depois, eu reconheço que o Rinpoche realmente incorporava o sidi de ter “olhos que vêem mil vidas”.

[Contada por Susan Shannon]