O Chagdud não dá ponto sem nó

Até hoje, depois de quase 10 anos, as fichas de um ensinamento muito direto que recebi de Chagdud Rinpoche ainda estão caindo. O entendimento do que ele me disse vai se modificando com o passar do tempo e, em cada fase da minha vida, adquire um novo significado.

Em 2000 ou 2001, eu cozinhava para o Rinpoche e estava num momento bem complicado, com ciúmes , querendo ser reconhecida e amada. Velhas questões emocionais. Por isso, pedi que a Lama Sherab perguntasse para o Rinpoche se ele gostava ou não gostava de mim. Eu mesma não tinha nem coragem de perguntar porque, naquele tempo, o Rinpoche era bem duro comigo. A Lama Sherab me advertiu que não era uma pergunta muito apropriada para o momento, que a resposta poderia não ser o que eu queria ouvir, mas eu, claro, insisti e disse que queria uma resposta.

Servi o jantar do Rinpoche e fui pra casa, ansiosa pela resposta que eu sabia que estaria à minha espera quando eu fosse servir o café da manhã. No outro dia, a resposta estava mesmo me esperando. E foi a seguinte: “Se ela me pergunta isso é porque a fé dela é dúbia e eu não tenho que gostar e nem deixar de gostar de aluno nenhum! O problema é dela! “

E eu pra Lama: “E o que mais?”

Ela : “Isso. Mais nada.”

Eu não entendi e continuei no mesmo estado mental/emocional que estava. Mas, como sempre, através do mérito do Rinpoche, cozinhando ao longo dos dias, as fichas foram caindo. Aos poucos, meu estado foi mudando. Eu me acalmei e concordei com o Rinpoche: sim, a minha fé era dúbia e eu não conseguia disfarçar isso. Era o primeiro entendimento sobre o que ele havia dito.

Continuei cozinhando e praticando. Com o passar do tempo, as coisas foram mudando, as experiências acontecendo e, um pouco antes de eu fazer o meu primeiro retiro de Dzogchen (o último do Chagdud em janeiro de 2002), eu entendi outra coisa: que o Rinpoche era o meu professor e que, para ser isso, ele realmente não precisava gostar e nem deixar de gostar de mim.

O tempo passou mais um pouco e eu achava que já tinha sacado tudo. Daí chegou o Paranirvana. Nessa experiência que vivi com ele, depois tantas costelas assadas , tsampas e sopas, além de muita dura, ensinamentos, bençãos e generosidade, a minha fé começou a brotar, intensa, límpida e esclarecedora. Foi muito forte e, mais uma vez, achei que eu finalmente havia entendido o ensinamento completo. Ilusão.

Anos mais tarde, a minha vida mudou completamente. Eu fiz outro retiro de Dzogchen e quando já estava praticamente vivendo outra vida, um outro significado surgiu daquele ensinamento. Eu entendi claramente que umas das coisas que ele queria me dizer foi: “Eu não sou seu pai!!!”

Fiquei impressionada como esse insight do ensinamento depois de tanto tempo operou grandes mudanças no meu coração e na minha mente. E esse entendimento gerou muito outros. Entendi que eu sou o meu pai, a minha mãe e todo o resto. E que meu professor me conduziu com firmeza e generosidade. Se meu pai dessa vida me instigou à procura da liberdade, foi o meu professor que me mostrou o caminho. Minha fé ficou mais forte ainda e logo depois recebi a notícia de que o Chagdud estava renascido e bem. Novamente, do alto do meu orgulho, achei que o entendimento do ensinamento estava consolidado. Outra ilusão.

Há três semanas, ouvi os ensinamentos de Mahamudra e então começou a florescer, daquela resposta tão antiga, um novo entendimento. Se naquele tempo a minha fé era dúbia, agora ela é inabalável e eu ainda tenho muito para apreender com o ensinamento precioso e perfeito do meu professor.

[Contada por uma aluna]