Não posso explicar agora

Chagdud and Marice 1

Conheci o Rinpoche em 1999 na inauguração de uma feira ecológica em Porto Alegre. Eu fazia parte da organização e lembro que todo mundo estava super ansioso para receber esse tal de Lama. As fitas de inauguração da feira tinham as cores do budismo tibetano: azul, vermelha, amarela, branca, verde. Eu fui escolhida para puxar uma das fitas e, como gostava muito de vermelho, fui pegar a fitinha vermelha mas uma mão apareceu, pegou antes e riu assim: “Hi hi hi.” Era o Rinpoche do meu lado. Ele puxou rápido a fita vermelha e eu tive que pegar a verde.

No dia seguinte, eu ia para a Espanha tentar arrumar minha vida. Só que cheguei lá e deu tudo errado. Então, depois de um tempo, voltei para o Brasil e me lembrei do Rinpoche. Eu não tinha uma vida espiritual e pensei que talvez as coisas estivessem dando errado porque isso é que estava faltando.

Um tempo depois, eu estava na feira da José Bonifácio (uma feira de alimentos ecológicos) quando passou um rapaz com o livro do Rinpoche e disse que haveria um evento em Três Coroas – um retiro de Ioga dos Sonhos. Eu decidi ir e, quando cheguei no Khadro Ling, estava de “civil”. Todo mundo tinha sadanas, todos os apetrechos e eu sem nada. Entrei e fiquei em um cantinho. Achei o lugar super bonito, fiquei apaixonada pela música de Tara, mas pensei “não é para mim, vou terminar isso aqui e vou embora”.

Só que daí fui ao Yeshe Ling, em Porto Alegre, e a Maria Inês me procurou e pediu ajuda com o Excel. Eu comecei a frequentar o Yeshe Ling por causa das tabelas de Excel.

Chagdud and Marice 2

Em 2002, eu lembro que tinha que trabalhar horrores e larguei tudo para fazer umas iniciações em um sábado de manhã, lá no quarto do Rinpoche no Khadro Ling. Quando eu estava subindo, uma menina me disse: “Tu não moras aqui, não vais fazer as iniciações”. Eu disse: “Tá, então vou lá pegar o meu dinheiro de volta e vou embora, né”. Mas chegou outra pessoa e disse “Sobe, sobe”, e daí eu subi e fiquei na porta. Fui a última a chegar.

Depois disso, fui a outros eventos e iniciações. Mesmo tomando todas aquelas iniciações, eu me perguntava: “Ai, será?” Eu ficava muito na dúvida.

Daí veio o retiro de P’owa em novembro de 2002 e eu estava meio sem dinheiro. Só que, naquela semana, chegou a restituição do imposto de renda e eu disse “bom, está aqui o dinheiro. Eu vou”. Daí fui, e acho que aquilo foi um marco para mim porque, mesmo que eu não tenha tido uma convivência direta com o Rinpoche, aquele retiro fez toda a diferença. O que aconteceu naquele retiro foi tão forte, me marcou.

Depois disso, quase fui despedida do meu emprego porque passava muito tempo no Khadro Ling fazendo lamparinas. Meu celular tocando e o meu chefe atrás de mim. Eu dizia: “Eu não posso, morreu uma pessoa”. E ele: “Mas quem morreu?”. E eu: “O Rinpoche”. E ele: “É teu avo? Teu pai?”.

Eu enlouqueci, chutei o balde, quase fui para rua. Meu chefe falou: “Marice, tu és uma pessoa séria, responsável, alguma coisa deve estar acontecendo.”

E eu: “Me dá um tempo que não posso explicar agora”.

[Contada por Marice]