Inveja e Banho

Eu nunca tive coragem de chegar e conversar com o Rinpoche. Eu achava que não tinha méritos e não sabia o que dizer. Então eu sempre me senti um espectador dos meios hábeis dele.
Eu me lembro de vir aqui e de achar o Gonpa um lugar um tanto quanto árido na minha visão do que deveria ser um lugar espiritual. As pessoas pareciam estar de mau humor muitas vezes. Além disso, eu falava muita bobagem e isso deixava as pessoas ainda mais irritadas.
Um dia, durante uma prática que eu não lembro qual era, eu fiquei com muita inveja de todo mundo porque as pessoas tinham os tamborzinhos e os vajras e eu não tinha nada disso. Eu fiquei com muita inveja. Eu estava criando muita não virtude durante a prática e, logo depois da sessão, o Rinpoche disse: “Eu realmente não conheço, não sei o nome de todo mundo aqui. Mas eu conheço todas as pessoas pelos sentimentos delas, por aquilo que elas sentem. Às vezes, eu até me confundo com os nomes, mas eu conheço todas as pessoas e elas têm de cuidar durante a prática para não ter inveja dos outros praticantes.”
E eu continuava pensando coisas como: “As pessoas trabalham demais, será que elas estão vendo que estão sendo exploradas?” Uma mentalidade meio marxista, meio fora de lugar. Eram ideias que surgiam na minha mente.
Daí o Rinpoche falava: “Há pessoas que têm um tipo de compaixão errada por aqueles que trabalham muito para o Darma. É um tipo de compaixão errônea, equivocada, que não gera virtude.”
Enfim, ele acabou com todas as coisas que eu estava pensando. E eu me perguntava: ” Será que o recado é para mim?” Eu achava sempre que os recados eram para mim.
Tem outra história de que eu fui testemunha. Aconteceu com o meu irmão. Um exemplo de como a fala dele atingia as pessoas em vários níveis, como a fala do Buda atinge, individualmente, cada um dos alunos. O Rinpoche tinha a fala búdica. Hoje eu sei disso, mas na época eu me sentia paranoico.
Foi em um retiro de Ngondro, se não me engano. No final do ensinamento, o Rinpoche dizia que as pessoas não deviam ficar orgulhosas da sua prática, mas que também não deviam esconder de si as suas qualidades. Isto seria não valorizar a sua mente, o seu corpo humano precioso. E falou mais alguma coisa que a Lama Sherab se recusou a traduzir. E ele disse: ” Traduz, pode traduzir, vai lá”. E a Lama Sherab: “O Rinpoche diz que ele pode ser velho e pode ter mau cheiro, mas que ele é um bodisatva, ele reconhece isto. Talvez ele não seja um grande bodisatva, mas ele reconhece que não é grande.”
Recentemente, quando os movimentos do carma me trouxeram de novo à prática, eu estava conversando com o meu irmão, e ele me disse: “Uma vez, durante os ensinamentos, eu estava desatento, perdi a linha do ensinamento e comecei a pensar ‘Bah, como o Rinpoche é velho. Será que ele toma banho?’
[Contada por um estudante]