Incansável

Chagdud Rinpoche breaking stones at USA

O Rinpoche era incansável e isto não foi expresso só no seu parinirvana, quando ensinou até o último instante, mas ficou evidente em cada contato que tínhamos com ele.

A primeira vez que ele esteve em Porto Alegre, ensinou um fim de semana inteiro – era um workshop sobre as Seis Perfeições – e, ao final, concedeu o voto de refúgio para uma platéia bastante numerosa ainda no local onde havia ensinado. Depois, concedeu uma iniciação de Ngondro que seria “apenas para aqueles realmente interessados em continuar a prática”, o que significou quase todos os presentes.

Tudo era muito novo para nós, acostumados com a austeridade e simplicidade do zen. A iniciação certamente foi um momento único, pois estávamos em uma sala cheia, todos apertados, com pessoas do lado de fora sentadas pelas escadas do local, na cozinha, onde coubesse alguém. Não havia espaço para se mexer. E lá estava o Rinpoche, concedendo a iniciação, dando ensinamentos sobre os quatro pensamentos, conduzindo o tsog, tudo isto ornado por duas traduções: uma do inglês dele para o inglês e outra para o português.

Não me recordo exatamente o horário no qual tudo acabou, mas já era madrugada de segunda-feira, eu, “praticante zen”, cansado e o Rinpoche lá, paciente e presente, firme como uma montanha. Mostrou-se incansável e destemido – claro, afinal era o Rinpoche – abordando a questão de comer ou não carne para uma platéia zen que torcia um pouco o nariz para este tipo de alimentação.

Chagdud Rinpoche at Tibet

Depois de reviravoltas em minha vida, tive a oportunidade de reencontrar o Rinpoche que, com seu gancho compassivo, me alcançou bem no meio do samsara. Fiquei um tempo em Três Coroas trabalhando e lembro de uma preparação para um drubtchen. Estávamos arrumando a sala e fui perguntar algo para uma pessoa da sanga enquanto outra pessoa estava em um andaime que eu deveria cuidar. O Rinpoche viu que o andaime precisava ser movido de lugar e, quando vi, ele já estava indo movimentá-lo com a outra pessoa em cima. Lembro de tê-lo impedido de fazer isto, eu mesmo empurrando o andaime. Os braços eram meus, mas a força era do Rinpoche porque não sou muito forte e a pessoa sobre o andaime não era leve. Não tive dificuldade nenhuma para executar a tarefa.

Em outra oportunidade, estávamos em um trabalho intenso, enrolando mantras dentro do templo: enquanto alguém enrolava, outro passava água de açafrão. Eu estava passando a água de açafrão e quando vi o Rinpoche veio para junto de mim e começou a enrolar os mantras. Com toda a dificuldade física dele, ele era muito rápido, muito intenso, uma força que era do tamanho da motivação dele em beneficiar os seres. Como esta força era muito maior que qualquer força que eu pudesse ter naquele momento, ao final lá estava ele, rindo, inteiro e eu cansado, provavelmente com a língua de fora…

Estas são situações visíveis, manifestas, onde ficou evidente que o Rinpoche era incansável. Mas quando penso em tudo que ele me ensinou, vez após vez, em todas as vezes em que ele deve ter olhado e percebido que teria que ensinar de novo até que a minha cabeça dura permitisse que algo mudasse, vejo que ele era muito mais incansável que aquilo que nossos olhos podem ver. E quando penso em todas as pessoas que praticam o darma ou se aproximam dele graças às atividades e realizações do Rinpoche, percebo que mesmo não estando fisicamente entre nós, ele continua como sempre foi: incansável.

Contada por Luciano Ribeiro