Sem roupas

O primeiro contato que tive com o Khadro Ling foi em 1998, quando estava fazendo um trabalho fotográfico pra faculdade. Na verdade, esse primeiro contato aconteceu também devido ao vínculo familiar – meus irmãos Cinthia, Maurício e seus filhos já residiam próximo ao Centro e participavam das atividades do local. Naquela época, o templo iniciava sua construção num grande terreno, com algumas residências ao redor, a cozinha, um refeitório pequeno e uma sala de meditação, que hoje são dormitórios.

Na primeira vez que vi o Rinpoche, fiquei assustada com a concentração, sabedoria e disciplina com que ele conduzia as cerimônias. Mas essa primeira impressão de “medo” logo foi se dissipando. Um dia, ao notar que eu estava sentada muito longe de todos pra assistir a cerimônia, ele fez um gesto olhando diretamente pra mim e me chamou, fazendo sinal com a mão, pra que eu sentasse junto dos outros. Aquele pequeno ato demonstrou a sua compaixão e sensibilidade, pois eu realmente estava me sentindo deslocada lá.

O segundo momento marcante que tive com o Rinpoche foi quando comprei um mala na lojinha do Khadro Ling. A pessoa que me vendeu me deu uma série de recomendações sobre como usar o mala e também disse que seria muito auspicioso se eu o levasse pro Rinpoche abençoar.

Depois de confirmar com a minha irmã, que morava lá, se isso era realmente necessário, fui até o Rinpoche. Chegando no seu quarto, foi Andréa (Lama Sherab) que me atendeu com um pequeno cachorro poodle nos braços, o Snowy. Ela pediu pra eu sentar na frente do Rinpoche e logo ele começou a falar comigo em inglês, que eu não entendia na época, o que me deixou muito envergonhada, mais do que já estava.

A sensação de sentar na frente dele, naquela primeira vez, foi como de estar completamente sem roupas. É difícil de explicar. A simplicidade na forma como ele olhava e enxergava através das minhas máscaras me impressionou. Todos os pensamentos sobre “aprovação”, “ser aceita ou não”, “desejo de compra do mala”, toda a confusão interna sobre a escolha de um caminho espiritual, são conceitos que eu só consigo ver claramente hoje. Mas pro Rinpoche, isso tudo parecia muito claro naquele momento. A experiência dele em observar e contemplar a mente proporcionava essa realização de poder enxergar na gente aquilo que nem mesmo a gente tinha consciência sentir.

Então, através da tradução da Lama Sherab, ele começou a me perguntar onde aquele mala tinha sido feito e onde eu havia comprado. E com um olhar desaprovador. Foi um pouco engraçado, porque eu disse que havia comprado ali mesmo, na lojinha do Khadro Ling. Ele disse que não estava bom, não estava certo. E, pra minha surpresa, ele desmanchou o mala e começou a refazê-lo com um novo fio que pediu à Lama Sherab.

O que era para ser uma entrevista de 15 minutos se tornou 40 minutos de espera e suor frio pois eu não sabia o que fazer, o que dizer ou onde colocar minhas mãos. Fiquei acariciando a Snowy que também pareceu ter notado o meu desconforto. Sabiamente, o Rinpoche me fez esperar um tempo precioso, me fez parar e observar a minha própria mente. Não existia nada a ser feito ali, nenhuma palavra a ser dita, mas os pensamentos eram milhares, e isso só hoje eu consigo perceber. Esse era o motivo pelo qual eu me envergonhava na frente dele: meus verdadeiros pensamentos e intenções em adquirir aquele objeto, que ele parecia enxergar claramente.

Com o passar dos anos, ajudando, ouvindo, observando e contemplando tudo o que era ensinado e feito pelo Rinpoche e pela comunidade, pude perceber e identificar sua compaixão, generosidade e amor em ensinar incansavelmente até o último dia de sua vida. Seu exemplo de diligência, paciência e sabedoria é o que mantém viva sua presença na mente e coração de todos aqueles que tiveram a preciosa oportunidade de encontrar sua manifestação iluminada.

[Contada por Vivian Clark]