Frio de rachar

Em 1998 ou 1999, eu estava visitando o Gonpa e tirando fotos usando um vestido curto. Eu era novata no Gonpa e ainda não estava familiarizada com os borrachudos do local. Naquele dia, o Rinpoche e a Lama Sherab apareceram caminhando em direção ao carro muito bem vestidos, com roupas de cerimônia. No trajeto, Lama Sherab perguntou pra Inez se ela viria com eles para “gravar com a câmera”.

A Inez respondeu que infelizmente não poderia, mas ofereceu a câmera. No mesmo instante, a Lama Sherab simplesmente apontou pra mim e disse pra eu ir pegar a câmera. Sem entender muito bem o que iria acontecer, peguei a câmera. Lama Sherab perguntou se eu sabia gravar, eu respondi que sim. “Então entra” ela disse, com a porta do carro aberta.

Entrei no carro com meu vestidinho de verão, sem banho tomado, de chinelo, e fui com eles. Já dirigindo fora dos portões do Gonpa, Lama Sherab me explicou que estávamos indo pro Planeta Atlântida (um grande festival de música jovem) na praia de Atlântida, e que eu somente precisava filmar, pois o Rinpoche iria cantar. Achei super legal e disse “tudo bem!”

Eu ia no banco de trás e o Rinpoche no banco da frente, de co-piloto da Lama Sherab. Ele tinha problemas com o calor do Brasil, então o ar-condicionado estava ligado no máximo. E eu lá atrás, com meu vestidinho curto, comecei literalmente a bater o queixo de frio. Mas fiquei quietinha. Não tive coragem de dizer nada, pois sabia que o ar era necessário pro Rinpoche.

Pra minha total surpresa, depois de algum tempo batendo queixo, o Rinpoche fez um sinal pra Lama Sherab. Era incrível como ele se comunicava com ela por sinais e ela sempre entendia tudo. Então, a Lama Sherab me alcançou o zen (manto) do Rinpoche e traduziu, dizendo que o Rinpoche havia pedido pra que eu me cobrisse pra não passar frio.

Eu não sabia o que dizer. Não precisava de palavras, mas as perguntas eram milhares. Como ele sabia que eu estava com frio? Talvez fosse óbvio que eu estivesse com frio, mas mesmo assim a sua compaixão me comoveu profundamente.

[Contado por Vivian Clark]