Do Alasca, com amor

Em outubro de 1988, eu comecei a ter sonhos e experiências muito fortes a respeito do Alasca. Eu era enfermeira itinerante e nunca tinha pensado sobre esse lugar antes, mas comecei a me pegar perguntando à minha chefe se havia algum emprego disponível para mim no Alasca. Curiosamente, ela tinha acabado de receber um pedido de Juneau, no Alasca, e eu disse: “Pode me inscrever!” – sem perceber o quanto a minha vida iria mudar.

Alguns meses depois, eu estava caminhando pela rua em Juneau no fim da tarde quando ouvi alguém chamar o meu nome. A neve caía fraca. Eu olhei ao redor mas não vi ninguém, de modo que segui em frente. Mais uma vez ouvi alguém chamar o meu nome, mais alto, até com insistência. Mais uma vez eu parei, olhei e não vi ninguém. Mas havia um cartaz em um poste telefônico perto de mim sobre um lama tibetano que iria visitar Juneau – e ele estava olhando bem para mim! Eu disse a mim mesma: “Acho que devo conferir isso”. Na época, eu não estava procurando um professor espiritual – eu tinha feito isso anos antes e estava feliz com quem e o que eu era –, mas resolvi ir mesmo assim.

No dia seguinte, eu saí apressada do trabalho para ir ver o tal lama. Ele já estava falando quando eu cheguei e, em poucos minutos, eu estava chorando ao escutá-lo falar sobre Tara Vermelha. Eu nunca tinha ouvido uma descrição assim “do feminino” e, na medida em que ele prosseguiu, eu senti que estava entrando em colapso por dentro. No dia seguinte, eu tomei refúgio com aquele lama, Chagdud Tulku Rinpoche, e recebi a iniciação de Tara Vermelha.

Rinpoche estava indo embora para ensinar no Yukon, e eu não queria me separar dele assim tão logo depois do nosso encontro. A tradutora de Rinpoche, Tsering Everest, concordou que eu os acompanhasse. Mas a nossa viagem foi adiada por uma tempestade de neve violenta, “a pior em meio século”, e nós nos apertamos em um pequeno apartamento para esperar um telefonema da companhia aérea. Finalmente, às cinco da manhã, recebemos a ligação – e tínhamos apenas trinta minutos para decolar para que pudéssemos voar pelo olho da tempestade, que era calmo.

Fomos correndo para o aeroporto e deparamos com um velho DC7 da Segunda Guerra Mundial, sem calefação. A atendente de bordo, vestida com uma roupa de neve bem grossa, nos ajudou a subir por uma escadinha de corda, ofereceu dois cobertores de lã para cada um de nós e disse que poderíamos nos sentar em qualquer lugar – desde que nos sentássemos logo, porque iríamos partir dali a quatro minutos! Nós fomos todos para assentos de janela, menos Lama Tsering, que se encolheu toda com sua capa comprida e os cobertores de lã.

A viagem foi apavorante, com turbulência pesada, mas Rinpoche ficou dando risada o tempo todo, e o riso dele me acalmou – se o Lama estava dando risada, certamente não havia nada a temer! Nós chegamos a Whitehorse com a aterrissagem mais suave que eu já vi – quase nenhum solavanco enquanto deslizávamos pela pista de pouso de lado! Fomos recolhidos com um enorme trator de esteira.

Rinpoche, com suas roupas tibetanas de inverno e seu chapéu de pele, foi atrás do piloto e garantiu que ele iria esperar para nos levar de volta a Juneau. “Você bom piloto!!”, Rinpoche disse a ele.

Naquele fim de semana, a sangha de Whitehorse abriu sua casa e seu coração para nós. Eu senti como se todas aquelas pessoas fossem meus irmãos e irmãs, e essa sensação permanece até hoje. Na verdade, não faz diferença em que lugar do mundo eu esteja com qualquer uma das sanghas de Rinpoche, a sensação é sempre a mesma – de que estou com a minha família da sangha, é uma prova do amor e da compaixão de Rinpoche por todos nós o fato de brilharmos com o mesmo amor e compaixão uns pelos outros, e por qualquer pessoa que conhecemos.

Nas décadas de 60 e 70, quando eu estava à procura de um professor, eu compreendi que era possível saber muito sobre um professor ao examinar as qualidades de bondade desenvolvidas em seus alunos. Eu sempre sei que posso encontrar Rinpoche, e suas qualidades, na minha grande e maravilhosa família do Darma!

Obrigada, Rinpoche, por ter gritado comigo e chamado a minha atenção naquela tarde. Eu fiquei com tanta saudade de você quando se mudou para o Brasil, e como tive inveja dos brasileiros! Mas eu também aprendi que você está no meu coração e nos meus sonhos, do mesmo modo que eu sei que estou nos seus.

Ao longo dos anos, eu fiz a minha prática e o meu trabalho, pedindo a ajuda de Rinpoche em silêncio e dedicando mérito. Eu finalmente fui capaz de aquietar o meu anseio pela presença física de Rinpoche – e a minha inveja dos brasileiros sortudos que podiam estar com ele – e me enchi de regozijo alegre com a maneira como Rinpoche foi capaz de conquistar e fazer frutificar tantas de suas aspirações no Brasil. Que outra lição maior ele poderia ter me ensinado?

[contada por Pat Martin]