Desapego

Rinpoche

Quando eu havia recém terminado meu retiro de 6 meses, tentei desistir de uma entrevista com o Rinpoche quando soube que o humor dele estava irado. Lama Sherab disse que eu não poderia desistir porque ele queria falar comigo. E eu fui, temerosa.

Depois de preâmbulos nada fáceis, o Rinpoche me comunicou seu desejo de que eu fosse cuidar da sanga de Manaus. Eu fiquei tão chocada que não entendi. Enquanto ele falava com alguém que entrou na sala, perguntei para a Sibele, que traduzia: “O que ele falou?” Ela confirmou: “Ele quer que você se mude para lá.”

Com o coração apertado, respondi que não era rica, que tendo parado de trabalhar como fiz, teria dinheiro apenas por um tempo, levando uma vida muito simples. O Rinpoche contra-argumentou que eu poderia trabalhar lá, que com certeza as pessoas me ajudariam a ter clientes. Com o coração apertado e a boca seca, respondi: “Rinpoche, meu lado infantil diz que deseja ficar aqui, na casa que construí, perto do meu mestre. Mas a praticante responde que eu faço o que o senhor desejar”. Rinpoche respondeu: “Ok. Now go, go.”

Saí como se tivesse sido mandada para o exílio. Teria que voltar a trabalhar profissionalmente pra me sustentar e ficaria longe do meu mestre e dos meus filhos.

No dia seguinte, o Rinpoche viajou por um mês. Só me lembro de ter ficado tão angustiada na minha adolescência. Comecei a olhar o Khadro Ling e a minha casinha à qual estava tão apegada, com olhos de despedida, de deixar ir. Foi difícil! O trabalho na lojinha me ajudava a desviar a mente do problema. Os dias passaram. Rinpoche foi, voltou e nunca mais falou no assunto.

O resultado daquele golpe de mestre foi um excelente trabalho de desapego. O Rinpoche fez a mágica de me mandar para longe sem que eu nunca tivesse saído daqui.

[Contada por Yvonne]