Construção

Durante a construção do Lha Kang, eu trabalhava no terraço do quarto antigo do Rinpoche, onde o Chris havia colocado uma lona amarela para proteger o nosso “atelier” da chuva. Era o início do inverno e choveu muito nessa época, mas quando era dia de fazer as lages de concreto, o Rinpoche dava um jeito de parar a chuva. Os operários não entendiam: “Está chovendo forte lá embaixo na cidade e aqui o dia está bonito!” É…

Lá de cima, eu gostava de ver a obra do templo e ouvir o barulho que vinha da carpintaria, das misturadoras de cimento, dos tratores movendo terra, de caminhões que chegavam com material. Também dava pra ver o pessoal passando de um lado para outro, sempre alguém gritando “Tu viste o Chris? A Soninha? O Dudu?” E a vozinha do Diogo, seguida da voz da Fernanda: “Menino, desce daí, quantas vezes o Rinpoche já disse que não quer as crianças brincando no meio da obra?” Ou então a Irinia, chegando das compras na cidade e distribuindo material: uma serra para o Dave, tinta para a Inês, tecido para a Cíntia e as notas para a Lili conferir!

Um dia eu pensei: “Deve ser por isso que o Rinpoche é o Senhor da Dança. Tantas, tantas coisas acontecendo sem parar e Rinpoche sentado tranquilo no meio de tudo, sabendo de tudo, resolvendo cada detalhe, negociando orçamentos, ensinando a pintar, desenhando, fazendo traduções, medindo, decifrando sonhos, dando ensinamentos, assoprando o passarinho que caiu do ninho, tirando fotos com visitantes (uma vez ele se virou pra mim e disse, com a maior ironia: “Fiz um samaya de tirar 100.000 fotos!”), telefonando para a Lama Tsering, recebendo jornalista, preparando uma iniciação, costurando, jogando Mo pra moça que ligou da Suíça, cuidando de cada um de nós e sempre perguntando: “Done, done?” (Está pronto?)

No dia em que fizeram as colunas, no meio do puja da noite o Rinpoche parou tudo e disse: “Esqueci uma coisa!” Então chamou o Chris e perguntou algo. O Cris fez que não com a cabeça. Ele chamou a Andréia, ela saiu e voltou com um pote cheio de purbas. O Rinpoche escolheu várias, entregou para o Chris e o Chris correu a enfiar purbas nas colunas. Ainda bem que o cimento ainda não estava seco!

Uma vez, o Rinpoche e a Soninha chegaram muito atrasados para o puja, pois tinham ido a Porto Alegre comprar as louças do banheiro do templo. A Khadro perguntou: “então, compraram tudo?” “Sim”, disse o Rinpoche. “Encontramos uma ótima oferta”. “E de que cor são, Rinpoche?” “Lama color!” respondeu ele, mostrando a sua tchuba. A Khadro quase desmaiou! “O que? Lama color nos banheiros para o público?” “Yes, I like it.” (sim, eu gosto!) A Khadro só dizia “ah não, me diga que não é verdade…” Ele procurou uma cor no seu casaco de cetim colorido, depois olhou o forro, que era levemente mais claro que a tchuba, e disse triunfante: “Like this: pink!” (Como isso, rosa!) Eu nunca fiquei sabendo se ele estava brincando com a Khadro ou se era verdade, mas os banheiros hoje são brancos, como mandam as regras de higiene pública.

Outra vez, estávamos no fim do puja de Tara, de manhã cedo, quando o Rinpoche entrou muito rápido na sala e foi sentando no trono fazendo sinal para não levantarmos do lugar. A Andréia ia traduzindo: “o Rinpoche disse que se vocês fizerem prostrações, estarão se prostrando para uma bola de fogo, pois ele está muito brabo.” E ele continuou dizendo que tinha acordado às duas da manhã e não tinha mais conseguido dormir de tão brabo, pois ficara sabendo que houvera um desentendimento com os operários da construção. Eu não me lembro de todas as palavras, mas ele disse que nós não estávamos construindo uma casa qualquer, um hotel ou uma loja, mas que aquilo era um templo e que um templo não se constrói com tijolos e cimento, mas sim com tudo que pensamos e sentimos e expressamos… e por aí se foi. Nunca vi o Rinpoche tão furioso! Depois disso nos comportamos como verdadeiros santos por umas duas semanas.

Eu dormia na sala de meditação, onde hoje é o dormitório. Era uma sensação maravilhosa ficar lá sozinha, com as lamparinas de manteiga iluminando as estátuas e depois se apagando uma a uma durante a noite. Já estava chegando o inverno e, muitas vezes, depois do puja, o Rinpoche ficava até mais tarde conversando com o Lama Norbu, o Chris, o Randy, o Dudu, a Suzi e todo o pessoal mais envolvido com a construção. Eu gostaria de lembrar o nome de todas as pessoas que vieram de muitos cantos do mundo para ajudar na construção. Eu sempre pensava em escrever um diário desta época, mas nunca sobrava tempo. Enquanto o Rinpoche continuava no templo, eu ia para a cozinha tomar um chá com o Maurício e a turma que ficava por ali por um motivo ou outro, modelando uma torma, cortando o pão para o dia seguinte, fazendo a lista de compras, tomando um mate. Se alguém estava gripado, o Billy fazia um chá mágico, que cura qualquer coisa. Uma noite, em vez de ir para o quarto, o Rinpoche se foi para a cozinha, sentou num banquinho e disse: “Vim ver por que vocês vêm prá cá.” “Porque é quentinho perto do fogão e tem chá, Rinpoche! Aceita uma xícara?” Ele tomou, ficou um pouquinho e se foi.

Com o Rinpoche descobri que as paredes não são coisas estáticas. Um dia tem uma porta aqui, no outro já mudou tudo. O quarto dele era atelier, escritório, sala de visitas, tinha computador, máquina de xerox, água quente para o chá, um telefone (o outro ficava na lojinha) que a Drica atendia sem parar. Logo que o quarto novo ficou pronto, o chão brilhando, tapete novo, tudo perfeito, entrei na ante-sala e lá estava o Rinpoche, de roupa limpíssima, trabalhando bem feliz em argila. Logo entrou a Andréa: “Rinpoche, está na hora de descer para o ensinamento.” Eu perguntei: “Desço ou fico aqui trabalhando?” Ele me passou o trabalho e disse: “Fica aqui. Se a Khadro vier e te mandar trabalhar noutro lugar, diz yes, yes – e continua trabalhando!”

Um dia eu pensei: “Daqui um tempo vai estar tudo pronto e eu vou sentar e meditar no maior silêncio.” E comecei a rir sozinha, pois já sabia que o Rinpoche nunca sequer pensou em parar de construir. Depois que o Lha Kang ficou pronto, vieram as casas das rodas de oração, as estupas, as estátuas, a sala das lamparinas, e nós vamos ainda construir muito mais, pois esta é uma parte importante da nossa Guru Yoga. Ele até nos deixou uma lição de casa: construir o Palácio de Padmasambhava. Daqui uns quatro ou cinco anos ele vai subir as escadas correndo, com os olhinhos brilhando como uma criança que entra pela primeira vez num templo… “and it’s better be well done!” (e é bom estar bem feito!)

[Contada por Flávia Pellanda]