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Chagdud Rinpoche and his dog Snowy

Há alguns anos tive a linda e única oportunidade de morar no Khadro Ling. No curto espaço de tempo em que vivi com esta grande família do Rinpoche, a minha história foi desenhada por diversas pinceladas, mas a mão do artista era uma só. Fui escalada pra trabalhar na loja, na administração, atendendo telefonemas noturnos e no Projeto de Livros Infantis com a Mônica. Essa última atividade se tornou a paixão da minha vida e foi no desempenho dela que a minha história com o Rinpoche começou a tomar um rumo de humor misturado com a severidade de um grande mestre.


Uma vez, como de costume, a Mônica e eu estávamos na sala do quarto da Khadro (que se encontrava em retiro), onde escrevíamos todos os dias a história sobre um sapo e seus amigos. Nessa ocasião, estávamos completamente envolvidas pela atmosfera do livro e, sem nos darmos conta, desencadeamos uma risadaria por conta do sapo.


Ao terminar aquele meu turno, me despedi da Mônica. Quando estava indo embora, passei por uma sala cheia de alunos do Rinpoche com o próprio sentado no meio, desenhando a face de Akshobia. De repente, ouço o Rinpoche esbravejar. Primeiro, não me dei conta que aquelas palavras em inglês misturadas com tibetano eram dirigidas aos meus ouvidos, e mais profundamente, ao meu coração. Mas Sultrim sussurou no meu ouvido: “Rinpoche está falando com você”. Eu fiquei completamente atônita, sabia que alguma besteira tinha feito, mas não imaginava o quê.


O Rinpoche continuou em muito alto e bom som: “Onde você pensa que está pra rir desse jeito? Não percebe que está atrapalhando a Khadro em retiro? Não quero que isso se repita novamente”. Não preciso falar que devo ter purificado um tantão de carma pela vergonha que passei, tudo por causa do sapo da história. Eu não sabia pra onde correr e a minha vontade era evaporar.


Como toda aluna indisciplinada, sem dominar os meus impulsos, o meu ego me deu mais duas rasteiras. Por mais duas vezes quis evaporar. Mas tive que enfrentar, por mais duas vezes também, o barulho forte da bengala do Rinpoche no assoalho de madeira. A gente não consegue evaporar perante o nosso verdadeiro mestre.


Na segunda vez, estava matando a saudade de uma amiga com uma sonora gargalhada no telefone, quando ouvi o tilintar da bengala do Rinpoche. E falei pra Lili: “Vou pular a janela”. Mas, infelizmente, não tinha pra onde correr, pois na minha frente em pé na porta, estava Rinpoche. Me curvei o bastante pra tirar meu olhar da sua mira. E ele, docemente, e com o seu humor contagiante começou a contar uma história tão engraçada que os quatro (Rinpoche, Lama Sherab, Lili e eu) caímos numa uníssona gargalhada.


Nesta mesma tarde, ganhei um presente que sempre desembrulho com a memória quando estou com saudades do Rinpoche. O presente, depois do grande mico, foi ele tirar a sua costumeira siesta. E, como dessa vez, a Cinthia não podia ficar lá, a Lili com delicadeza se encarregou de me presentear. Ela disse: “Marta vai fazer companhia para o Rinpoche.” Eu, completamente sem graça, querendo fugir do alcance da bengala dele, respondi que não. Ainda bem que ela insistiu.

Enquanto estava lá, ao lado da cama, fiquei aflita em não saber ou não estar preparada pra responder aos seus pedidos. Durante o sono, ele mexeu o corpinho arredondado, abriu lentamente os olhos, tentou me identificar e, em seguida, coçando a barriga, entregou-se à minha guarda, voltando a dormir. Com certeza era ele quem cuidava de mim.


Quando acordou, Rinpoche me chamou pra separar com ele as qualidades de diversos chás tibetanos, que ele sabia identificar um por um pelo aroma. E desta vez me senti tão familiar a ele como uma filha que brinca com o pai, de viver.

[Contada por Marta Maia]