Bondade

Minhas lembranças do Rinpoche se estendem por um período de 22 anos, então tenho muito em que pensar quando puxo pela memória. Mas uma das minhas recordações preferidas é de quando eu o conheci e nós ainda não tínhamos nenhum tradutor, de modo que a barreira da língua era um grande problema. Nessa ocasião, eu dei a entender ao Rinpoche que gostaria de ser aluno dele, e perguntei sobre os ensinamentos budistas. Em uma prateleira alta, estavam os vários textos tibetanos que ele tinha trazido consigo. Então ele apontou para os textos, para mostrar que os ensinamentos estavam ali, nos livros, e colocou a mão no coração para mostrar que todos os ensinamentos, em essência, se resumiam no cultivo de um bom coração.

Realmente, o Rinpoche era a epítome da bondade, da compaixão e do amor. Se eu fosse resumir o ser dele em uma palavra, seria bondade, bondade insuportável. O Rinpoche, até o último dia que eu o conheci, foi a personificação da bondade. A grande bênção de ter dado o último ensinamento de P’howa foi absolutamente poderosa e inesquecível, e ele continuou ensinando mesmo quando seu estado de saúde começou a piorar – até a noite em que ele faleceu. Naquela noite, ele convidou alguns de nós para jantar com ele em seu quarto e ficamos lá assistindo à TV. Tudo que ele precisava dizer já tinha sido dito nos ensinamentos.

Até hoje, eu encontro pessoas que eu nem sabia que tinham conhecido o Rinpoche, e elas falam sobre ele e sobre o impacto enorme que ele teve sobre a vida delas e sobre a força da bondade dele.

Ele exemplificou isso por meio de seus ensinamentos contínuos sobre a compaixão, e magnetizou uma sanga originária de todas as classes e culturas, de vários tipos de formação e nacionalidades; todas essas pessoas, no entanto, têm basicamente um bom coração e desejo de beneficiar os outros.

[Contada por Lama Norbu]