A estátua

CTR

Eu nunca entendi o inglês do Rinpoche muito bem. Quando cheguei aqui, eu tentava entender e não dava. A tradução era em português e então eu também não entendia a tradução. Todos os brasileiros entendiam o inglês dele, mas para mim ele não estava falando inglês. Eu fiquei com muita inveja por todos os brasileiros poderem conversar com ele sem fim.

Com Rinpoche, eu estava o tempo todo assim: “O que ele disse? O que ele disse? O quê? O quê? O que ele diz?” Eu não entendia nada. Mas, na verdade, com o Rinpoche não era preciso falar. A mente dele permeia o nosso coração, permeia tudo. Eu me lembro de uma vez quando finalmente entendi o que ele dizia: foi um milagre.

Ele sempre estava com pressa para construir todas as coisas aqui no Khadro Ling, como um cavalo em uma corrida. Ele tinha essa sensação: pressa, pressa, não temos muito tempo, e esse sentido do corpo humano precioso estava sempre muito presente dentro dele. Nós tínhamos essa sensação de que o corpo dele estava perdendo energia, mas a mente, não. A mente tinha um caráter nuclear.

Nós não tínhamos escada de carpinteiro nem rampa na frente do templo. E ele disse: “Eu tenho de fazer isto e meu corpo não pode, mas tem de fazer”. E ele estava olhando para fora da janela e viu o Eduardo, Dudu, que tem os siddhis do trabalho físico. E o Rinpoche falou: “Oh! O Dudu está aí! Ele é os meus braços”.

Eu fiquei muito tocada com isso, porque vi que ele tinha amor, um tipo de valor. Ele valorizava as pessoas que trabalhavam para ele. Parecia que ele tinha dito: “Meus braços não funcionam mais, minhas pernas não funcionam mais, mas eu tenho o Eduardo. Ele é os meus braços, ele é meu corpo, um corpo humano precioso”.

Outra coisa de que eu me lembro é quando minha mente mudou de uma posição muito ordinária para outra posição. Ele estava sentado no trono e depois do puja nós sempre nos reuníamos aqui de modo informal. As pessoas estavam fazendo prática. Ele tinha urgência com a prática: “Nós não temos muito tempo nesta vida”. E nós sempre tínhamos uma idéia, uma noção de que nós não tínhamos muito tempo com ele.

Tudo estava muito quieto. No lago, lá embaixo, costumava ter muitos sapos. Nessa noite tinha muito, muito barulho. E porque estávamos muito quietos, dava para ouvir aquele crê, crê, crê”, e mais e mais. E o Rinpoche disse: “Essas pessoas…”. E eu pensei: “Que pessoas? Só há sete pessoas aqui – Lama Sherab, Andreia, Cris, Sonia, Cibele, eu, Dudu, que pessoas estão fazendo muito barulho hoje à noite?”. E o Rinpoche: “Será que essas pessoas estão dando uma festa?”. E eu pensando: “Que pessoas?”.

Até que eu me dei conta que ele estava falando dos sapos. Para ele sapos são pessoas, não animais. Eu era nova no Brasil, nova na sanga. Então, pensei: “Se ele se sente assim em relação aos sapos, talvez ele possa gostar de mim, talvez eu possa ficar aqui”.

Outra história: eu sou de Boston, perto de Nova York. Em Boston nós não temos muita sanga. Eu só havia visto a Lama Tsering e a Khadro. Eu cheguei aqui no Khadro Ling pela primeira vez e estava com Rinpoche em um retiro de 40 pessoas na outra sala. Eu não sabia nada sobre budismo, sobre a mente, e eu não sabia muito sobre o Rinpoche. Mas eu estava muito, muito feliz, com muita expectativa por estar aqui.

Durante este retiro, de 4 ou 5 semanas, o Rinoche apontou para um lugar onde só havia um pedestal e um buraco no chão e disse: “Neste mês, nós vamos terminar esta estátua”.

E eu ri sozinha, completamente sozinha. Eu fechei a minha boca, sentei muito ereta, olhei ao redor e ninguém estava rindo. Pensei: “Fecha a boca, Liz, ele está falando sério, ai meu deus… ok, vamos terminar a estátua. Tá bom… ok, estátua…vamos ver.”

E claro que sim, ele terminou.

[Contada por Liz]