Do Alasca, com amor

Em outubro de 1988, eu comecei a ter sonhos e experiências muito fortes a respeito do Alasca. Eu era enfermeira itinerante e nunca tinha pensado sobre esse lugar antes, mas comecei a me pegar perguntando à minha chefe se havia algum emprego disponível para mim no Alasca. Curiosamente, ela tinha acabado de receber um pedido de Juneau, no Alasca, e eu disse: “Pode me inscrever!” – sem perceber o quanto a minha vida iria mudar.

Alguns meses depois, eu estava caminhando pela rua em Juneau no fim da tarde quando ouvi alguém chamar o meu nome. A neve caía fraca. Eu olhei ao redor mas não vi ninguém, de modo que segui em frente. Mais uma vez ouvi alguém chamar o meu nome, mais alto, até com insistência. Mais uma vez eu parei, olhei e não vi ninguém. Mas havia um cartaz em um poste telefônico perto de mim sobre um lama tibetano que iria visitar Juneau – e ele estava olhando bem para mim! Eu disse a mim mesma: “Acho que devo conferir isso”. Na época, eu não estava procurando um professor espiritual – eu tinha feito isso anos antes e estava feliz com quem e o que eu era –, mas resolvi ir mesmo assim.

No dia seguinte, eu saí apressada do trabalho para ir ver o tal lama. Ele já estava falando quando eu cheguei e, em poucos minutos, eu estava chorando ao escutá-lo falar sobre Tara Vermelha. Eu nunca tinha ouvido uma descrição assim “do feminino” e, na medida em que ele prosseguiu, eu senti que estava entrando em colapso por dentro. No dia seguinte, eu tomei refúgio com aquele lama, Chagdud Tulku Rinpoche, e recebi a iniciação de Tara Vermelha.

Rinpoche estava indo embora para ensinar no Yukon, e eu não queria me separar dele assim tão logo depois do nosso encontro. A tradutora de Rinpoche, Tsering Everest, concordou que eu os acompanhasse. Mas a nossa viagem foi adiada por uma tempestade de neve violenta, “a pior em meio século”, e nós nos apertamos em um pequeno apartamento para esperar um telefonema da companhia aérea. Finalmente, às cinco da manhã, recebemos a ligação – e tínhamos apenas trinta minutos para decolar para que pudéssemos voar pelo olho da tempestade, que era calmo.

Fomos correndo para o aeroporto e deparamos com um velho DC7 da Segunda Guerra Mundial, sem calefação. A atendente de bordo, vestida com uma roupa de neve bem grossa, nos ajudou a subir por uma escadinha de corda, ofereceu dois cobertores de lã para cada um de nós e disse que poderíamos nos sentar em qualquer lugar – desde que nos sentássemos logo, porque iríamos partir dali a quatro minutos! Nós fomos todos para assentos de janela, menos Lama Tsering, que se encolheu toda com sua capa comprida e os cobertores de lã.

A viagem foi apavorante, com turbulência pesada, mas Rinpoche ficou dando risada o tempo todo, e o riso dele me acalmou – se o Lama estava dando risada, certamente não havia nada a temer! Nós chegamos a Whitehorse com a aterrissagem mais suave que eu já vi – quase nenhum solavanco enquanto deslizávamos pela pista de pouso de lado! Fomos recolhidos com um enorme trator de esteira.

Rinpoche, com suas roupas tibetanas de inverno e seu chapéu de pele, foi atrás do piloto e garantiu que ele iria esperar para nos levar de volta a Juneau. “Você bom piloto!!”, Rinpoche disse a ele.

Naquele fim de semana, a sangha de Whitehorse abriu sua casa e seu coração para nós. Eu senti como se todas aquelas pessoas fossem meus irmãos e irmãs, e essa sensação permanece até hoje. Na verdade, não faz diferença em que lugar do mundo eu esteja com qualquer uma das sanghas de Rinpoche, a sensação é sempre a mesma – de que estou com a minha família da sangha, é uma prova do amor e da compaixão de Rinpoche por todos nós o fato de brilharmos com o mesmo amor e compaixão uns pelos outros, e por qualquer pessoa que conhecemos.

Nas décadas de 60 e 70, quando eu estava à procura de um professor, eu compreendi que era possível saber muito sobre um professor ao examinar as qualidades de bondade desenvolvidas em seus alunos. Eu sempre sei que posso encontrar Rinpoche, e suas qualidades, na minha grande e maravilhosa família do Darma!

Obrigada, Rinpoche, por ter gritado comigo e chamado a minha atenção naquela tarde. Eu fiquei com tanta saudade de você quando se mudou para o Brasil, e como tive inveja dos brasileiros! Mas eu também aprendi que você está no meu coração e nos meus sonhos, do mesmo modo que eu sei que estou nos seus.

Ao longo dos anos, eu fiz a minha prática e o meu trabalho, pedindo a ajuda de Rinpoche em silêncio e dedicando mérito. Eu finalmente fui capaz de aquietar o meu anseio pela presença física de Rinpoche – e a minha inveja dos brasileiros sortudos que podiam estar com ele – e me enchi de regozijo alegre com a maneira como Rinpoche foi capaz de conquistar e fazer frutificar tantas de suas aspirações no Brasil. Que outra lição maior ele poderia ter me ensinado?

[contada por Pat Martin]

Sem roupas

O primeiro contato que tive com o Khadro Ling foi em 1998, quando estava fazendo um trabalho fotográfico pra faculdade. Na verdade, esse primeiro contato aconteceu também devido ao vínculo familiar – meus irmãos Cinthia, Maurício e seus filhos já residiam próximo ao Centro e participavam das atividades do local. Naquela época, o templo iniciava sua construção num grande terreno, com algumas residências ao redor, a cozinha, um refeitório pequeno e uma sala de meditação, que hoje são dormitórios.

Na primeira vez que vi o Rinpoche, fiquei assustada com a concentração, sabedoria e disciplina com que ele conduzia as cerimônias. Mas essa primeira impressão de “medo” logo foi se dissipando. Um dia, ao notar que eu estava sentada muito longe de todos pra assistir a cerimônia, ele fez um gesto olhando diretamente pra mim e me chamou, fazendo sinal com a mão, pra que eu sentasse junto dos outros. Aquele pequeno ato demonstrou a sua compaixão e sensibilidade, pois eu realmente estava me sentindo deslocada lá.

O segundo momento marcante que tive com o Rinpoche foi quando comprei um mala na lojinha do Khadro Ling. A pessoa que me vendeu me deu uma série de recomendações sobre como usar o mala e também disse que seria muito auspicioso se eu o levasse pro Rinpoche abençoar.

Depois de confirmar com a minha irmã, que morava lá, se isso era realmente necessário, fui até o Rinpoche. Chegando no seu quarto, foi Andréa (Lama Sherab) que me atendeu com um pequeno cachorro poodle nos braços, o Snowy. Ela pediu pra eu sentar na frente do Rinpoche e logo ele começou a falar comigo em inglês, que eu não entendia na época, o que me deixou muito envergonhada, mais do que já estava.

A sensação de sentar na frente dele, naquela primeira vez, foi como de estar completamente sem roupas. É difícil de explicar. A simplicidade na forma como ele olhava e enxergava através das minhas máscaras me impressionou. Todos os pensamentos sobre “aprovação”, “ser aceita ou não”, “desejo de compra do mala”, toda a confusão interna sobre a escolha de um caminho espiritual, são conceitos que eu só consigo ver claramente hoje. Mas pro Rinpoche, isso tudo parecia muito claro naquele momento. A experiência dele em observar e contemplar a mente proporcionava essa realização de poder enxergar na gente aquilo que nem mesmo a gente tinha consciência sentir.

Então, através da tradução da Lama Sherab, ele começou a me perguntar onde aquele mala tinha sido feito e onde eu havia comprado. E com um olhar desaprovador. Foi um pouco engraçado, porque eu disse que havia comprado ali mesmo, na lojinha do Khadro Ling. Ele disse que não estava bom, não estava certo. E, pra minha surpresa, ele desmanchou o mala e começou a refazê-lo com um novo fio que pediu à Lama Sherab.

O que era para ser uma entrevista de 15 minutos se tornou 40 minutos de espera e suor frio pois eu não sabia o que fazer, o que dizer ou onde colocar minhas mãos. Fiquei acariciando a Snowy que também pareceu ter notado o meu desconforto. Sabiamente, o Rinpoche me fez esperar um tempo precioso, me fez parar e observar a minha própria mente. Não existia nada a ser feito ali, nenhuma palavra a ser dita, mas os pensamentos eram milhares, e isso só hoje eu consigo perceber. Esse era o motivo pelo qual eu me envergonhava na frente dele: meus verdadeiros pensamentos e intenções em adquirir aquele objeto, que ele parecia enxergar claramente.

Com o passar dos anos, ajudando, ouvindo, observando e contemplando tudo o que era ensinado e feito pelo Rinpoche e pela comunidade, pude perceber e identificar sua compaixão, generosidade e amor em ensinar incansavelmente até o último dia de sua vida. Seu exemplo de diligência, paciência e sabedoria é o que mantém viva sua presença na mente e coração de todos aqueles que tiveram a preciosa oportunidade de encontrar sua manifestação iluminada.

[Contada por Vivian Clark]

Incansável

Chagdud Rinpoche breaking stones at USA

O Rinpoche era incansável e isto não foi expresso só no seu parinirvana, quando ensinou até o último instante, mas ficou evidente em cada contato que tínhamos com ele.

A primeira vez que ele esteve em Porto Alegre, ensinou um fim de semana inteiro – era um workshop sobre as Seis Perfeições – e, ao final, concedeu o voto de refúgio para uma platéia bastante numerosa ainda no local onde havia ensinado. Depois, concedeu uma iniciação de Ngondro que seria “apenas para aqueles realmente interessados em continuar a prática”, o que significou quase todos os presentes.

Tudo era muito novo para nós, acostumados com a austeridade e simplicidade do zen. A iniciação certamente foi um momento único, pois estávamos em uma sala cheia, todos apertados, com pessoas do lado de fora sentadas pelas escadas do local, na cozinha, onde coubesse alguém. Não havia espaço para se mexer. E lá estava o Rinpoche, concedendo a iniciação, dando ensinamentos sobre os quatro pensamentos, conduzindo o tsog, tudo isto ornado por duas traduções: uma do inglês dele para o inglês e outra para o português.

Não me recordo exatamente o horário no qual tudo acabou, mas já era madrugada de segunda-feira, eu, “praticante zen”, cansado e o Rinpoche lá, paciente e presente, firme como uma montanha. Mostrou-se incansável e destemido – claro, afinal era o Rinpoche – abordando a questão de comer ou não carne para uma platéia zen que torcia um pouco o nariz para este tipo de alimentação.

Chagdud Rinpoche at Tibet

Depois de reviravoltas em minha vida, tive a oportunidade de reencontrar o Rinpoche que, com seu gancho compassivo, me alcançou bem no meio do samsara. Fiquei um tempo em Três Coroas trabalhando e lembro de uma preparação para um drubtchen. Estávamos arrumando a sala e fui perguntar algo para uma pessoa da sanga enquanto outra pessoa estava em um andaime que eu deveria cuidar. O Rinpoche viu que o andaime precisava ser movido de lugar e, quando vi, ele já estava indo movimentá-lo com a outra pessoa em cima. Lembro de tê-lo impedido de fazer isto, eu mesmo empurrando o andaime. Os braços eram meus, mas a força era do Rinpoche porque não sou muito forte e a pessoa sobre o andaime não era leve. Não tive dificuldade nenhuma para executar a tarefa.

Em outra oportunidade, estávamos em um trabalho intenso, enrolando mantras dentro do templo: enquanto alguém enrolava, outro passava água de açafrão. Eu estava passando a água de açafrão e quando vi o Rinpoche veio para junto de mim e começou a enrolar os mantras. Com toda a dificuldade física dele, ele era muito rápido, muito intenso, uma força que era do tamanho da motivação dele em beneficiar os seres. Como esta força era muito maior que qualquer força que eu pudesse ter naquele momento, ao final lá estava ele, rindo, inteiro e eu cansado, provavelmente com a língua de fora…

Estas são situações visíveis, manifestas, onde ficou evidente que o Rinpoche era incansável. Mas quando penso em tudo que ele me ensinou, vez após vez, em todas as vezes em que ele deve ter olhado e percebido que teria que ensinar de novo até que a minha cabeça dura permitisse que algo mudasse, vejo que ele era muito mais incansável que aquilo que nossos olhos podem ver. E quando penso em todas as pessoas que praticam o darma ou se aproximam dele graças às atividades e realizações do Rinpoche, percebo que mesmo não estando fisicamente entre nós, ele continua como sempre foi: incansável.

Contada por Luciano Ribeiro

Generosidade

Certa tarde, o Riponche parou as recitações durante um retiro e começou a falar sobre generosidade. Disse que devemos praticar a generosidade, que isso poderia ser bom para todos nós. Falou que devemos experimentar dar algo que temos. Se não temos muito, podemos doar um pouco do que temos. Disse que sempre temos algo pra dar, basta querer. Podemos doar um sorriso, ajudar alguém.

Se ainda assim, pensarmos que não temos nada para doar, devemos olhar em volta, ver a beleza da natureza e fazer generosamente uma doação desse presente que a natureza nos oferece: as árvores, as flores, o vale. Se não temos tanta beleza em volta, olhamos para o céu, vemos a beleza do céu azul, das estrelas, do sol, da lua. Podemos generosamente doar a beleza do céu, das estrelas….

[Contada por Cledi]

Companhia

Chagdud Rinpoche and his dog Snowy

Há alguns anos tive a linda e única oportunidade de morar no Khadro Ling. No curto espaço de tempo em que vivi com esta grande família do Rinpoche, a minha história foi desenhada por diversas pinceladas, mas a mão do artista era uma só. Fui escalada pra trabalhar na loja, na administração, atendendo telefonemas noturnos e no Projeto de Livros Infantis com a Mônica. Essa última atividade se tornou a paixão da minha vida e foi no desempenho dela que a minha história com o Rinpoche começou a tomar um rumo de humor misturado com a severidade de um grande mestre.


Uma vez, como de costume, a Mônica e eu estávamos na sala do quarto da Khadro (que se encontrava em retiro), onde escrevíamos todos os dias a história sobre um sapo e seus amigos. Nessa ocasião, estávamos completamente envolvidas pela atmosfera do livro e, sem nos darmos conta, desencadeamos uma risadaria por conta do sapo.


Ao terminar aquele meu turno, me despedi da Mônica. Quando estava indo embora, passei por uma sala cheia de alunos do Rinpoche com o próprio sentado no meio, desenhando a face de Akshobia. De repente, ouço o Rinpoche esbravejar. Primeiro, não me dei conta que aquelas palavras em inglês misturadas com tibetano eram dirigidas aos meus ouvidos, e mais profundamente, ao meu coração. Mas Sultrim sussurou no meu ouvido: “Rinpoche está falando com você”. Eu fiquei completamente atônita, sabia que alguma besteira tinha feito, mas não imaginava o quê.


O Rinpoche continuou em muito alto e bom som: “Onde você pensa que está pra rir desse jeito? Não percebe que está atrapalhando a Khadro em retiro? Não quero que isso se repita novamente”. Não preciso falar que devo ter purificado um tantão de carma pela vergonha que passei, tudo por causa do sapo da história. Eu não sabia pra onde correr e a minha vontade era evaporar.


Como toda aluna indisciplinada, sem dominar os meus impulsos, o meu ego me deu mais duas rasteiras. Por mais duas vezes quis evaporar. Mas tive que enfrentar, por mais duas vezes também, o barulho forte da bengala do Rinpoche no assoalho de madeira. A gente não consegue evaporar perante o nosso verdadeiro mestre.


Na segunda vez, estava matando a saudade de uma amiga com uma sonora gargalhada no telefone, quando ouvi o tilintar da bengala do Rinpoche. E falei pra Lili: “Vou pular a janela”. Mas, infelizmente, não tinha pra onde correr, pois na minha frente em pé na porta, estava Rinponche. Me curvei o bastante pra tirar meu olhar da sua mira. E ele, docemente, e com o seu humor contagiante começou a contar uma história tão engraçada que os quatro (Rinpoche, Lama Sherab, Lili e eu) caímos numa uníssona gargalhada.


Nesta mesma tarde, ganhei um presente que sempre desembrulho com a memória quando estou com saudades do Rinpoche. O presente, depois do grande mico, foi ele tirar a sua costumeira siesta. E, como dessa vez, a Cinthia não podia ficar lá, a Lili com delicadeza se encarregou de me presentear. Ela disse: “Marta vai fazer companhia para o Rinpoche.” Eu, completamente sem graça, querendo fugir do alcance da bengala dele, respondi que não. Ainda bem que ela insistiu.

Enquanto estava lá, ao lado da cama, fiquei aflita em não saber ou não estar preparada pra responder aos seus pedidos. Durante o sono, ele mexeu o corpinho arredondado, abriu lentamente os olhos, tentou me identificar e, em seguida, coçando a barriga, entregou-se à minha guarda, voltando a dormir. Com certeza era ele quem cuidava de mim.


Quando acordou, Rinpoche me chamou pra separar com ele as qualidades de diversos chás tibetanos, que ele sabia identificar um por um pelo aroma. E desta vez me senti tão familiar a ele como uma filha que brinca com o pai, de viver.

[Contada por Marta Maia]

Construção

Durante a construção do Lha Kang, eu trabalhava no terraço do quarto antigo do Rinpoche, onde o Chris havia colocado uma lona amarela para proteger o nosso “atelier” da chuva. Era o início do inverno e choveu muito nessa época, mas quando era dia de fazer as lages de concreto, o Rinpoche dava um jeito de parar a chuva. Os operários não entendiam: “Está chovendo forte lá embaixo na cidade e aqui o dia está bonito!” É…

Lá de cima, eu gostava de ver a obra do templo e ouvir o barulho que vinha da carpintaria, das misturadoras de cimento, dos tratores movendo terra, de caminhões que chegavam com material. Também dava pra ver o pessoal passando de um lado para outro, sempre alguém gritando “Tu viste o Chris? A Soninha? O Dudu?” E a vozinha do Diogo, seguida da voz da Fernanda: “Menino, desce daí, quantas vezes o Rinpoche já disse que não quer as crianças brincando no meio da obra?” Ou então a Irinia, chegando das compras na cidade e distribuindo material: uma serra para o Dave, tinta para a Inês, tecido para a Cíntia e as notas para a Lili conferir!

Um dia eu pensei: “Deve ser por isso que o Rinpoche é o Senhor da Dança. Tantas, tantas coisas acontecendo sem parar e Rinpoche sentado tranquilo no meio de tudo, sabendo de tudo, resolvendo cada detalhe, negociando orçamentos, ensinando a pintar, desenhando, fazendo traduções, medindo, decifrando sonhos, dando ensinamentos, assoprando o passarinho que caiu do ninho, tirando fotos com visitantes (uma vez ele se virou pra mim e disse, com a maior ironia: “Fiz um samaya de tirar 100.000 fotos!”), telefonando para a Lama Tsering, recebendo jornalista, preparando uma iniciação, costurando, jogando Mo pra moça que ligou da Suíça, cuidando de cada um de nós e sempre perguntando: “Done, done?” (Está pronto?)

No dia em que fizeram as colunas, no meio do puja da noite o Rinpoche parou tudo e disse: “Esqueci uma coisa!” Então chamou o Chris e perguntou algo. O Cris fez que não com a cabeça. Ele chamou a Andréia, ela saiu e voltou com um pote cheio de purbas. O Rinpoche escolheu várias, entregou para o Chris e o Chris correu a enfiar purbas nas colunas. Ainda bem que o cimento ainda não estava seco!

Uma vez, o Rinpoche e a Soninha chegaram muito atrasados para o puja, pois tinham ido a Porto Alegre comprar as louças do banheiro do templo. A Khadro perguntou: “então, compraram tudo?” “Sim”, disse o Rinpoche. “Encontramos uma ótima oferta”. “E de que cor são, Rinpoche?” “Lama color!” respondeu ele, mostrando a sua tchuba. A Khadro quase desmaiou! “O que? Lama color nos banheiros para o público?” “Yes, I like it.” (sim, eu gosto!) A Khadro só dizia “ah não, me diga que não é verdade…” Ele procurou uma cor no seu casaco de cetim colorido, depois olhou o forro, que era levemente mais claro que a tchuba, e disse triunfante: “Like this: pink!” (Como isso, rosa!) Eu nunca fiquei sabendo se ele estava brincando com a Khadro ou se era verdade, mas os banheiros hoje são brancos, como mandam as regras de higiene pública.

Outra vez, estávamos no fim do puja de Tara, de manhã cedo, quando o Rinpoche entrou muito rápido na sala e foi sentando no trono fazendo sinal para não levantarmos do lugar. A Andréia ia traduzindo: “o Rinpoche disse que se vocês fizerem prostrações, estarão se prostrando para uma bola de fogo, pois ele está muito brabo.” E ele continuou dizendo que tinha acordado às duas da manhã e não tinha mais conseguido dormir de tão brabo, pois ficara sabendo que houvera um desentendimento com os operários da construção. Eu não me lembro de todas as palavras, mas ele disse que nós não estávamos construindo uma casa qualquer, um hotel ou uma loja, mas que aquilo era um templo e que um templo não se constrói com tijolos e cimento, mas sim com tudo que pensamos e sentimos e expressamos… e por aí se foi. Nunca vi o Rinpoche tão furioso! Depois disso nos comportamos como verdadeiros santos por umas duas semanas.

Eu dormia na sala de meditação, onde hoje é o dormitório. Era uma sensação maravilhosa ficar lá sozinha, com as lamparinas de manteiga iluminando as estátuas e depois se apagando uma a uma durante a noite. Já estava chegando o inverno e, muitas vezes, depois do puja, o Rinpoche ficava até mais tarde conversando com o Lama Norbu, o Chris, o Randy, o Dudu, a Suzi e todo o pessoal mais envolvido com a construção. Eu gostaria de lembrar o nome de todas as pessoas que vieram de muitos cantos do mundo para ajudar na construção. Eu sempre pensava em escrever um diário desta época, mas nunca sobrava tempo. Enquanto o Rinpoche continuava no templo, eu ia para a cozinha tomar um chá com o Maurício e a turma que ficava por ali por um motivo ou outro, modelando uma torma, cortando o pão para o dia seguinte, fazendo a lista de compras, tomando um mate. Se alguém estava gripado, o Billy fazia um chá mágico, que cura qualquer coisa. Uma noite, em vez de ir para o quarto, o Rinpoche se foi para a cozinha, sentou num banquinho e disse: “Vim ver por que vocês vêm prá cá.” “Porque é quentinho perto do fogão e tem chá, Rinpoche! Aceita uma xícara?” Ele tomou, ficou um pouquinho e se foi.

Com o Rinpoche descobri que as paredes não são coisas estáticas. Um dia tem uma porta aqui, no outro já mudou tudo. O quarto dele era atelier, escritório, sala de visitas, tinha computador, máquina de xerox, água quente para o chá, um telefone (o outro ficava na lojinha) que a Drica atendia sem parar. Logo que o quarto novo ficou pronto, o chão brilhando, tapete novo, tudo perfeito, entrei na ante-sala e lá estava o Rinpoche, de roupa limpíssima, trabalhando bem feliz em argila. Logo entrou a Andréa: “Rinpoche, está na hora de descer para o ensinamento.” Eu perguntei: “Desço ou fico aqui trabalhando?” Ele me passou o trabalho e disse: “Fica aqui. Se a Khadro vier e te mandar trabalhar noutro lugar, diz yes, yes – e continua trabalhando!”

Um dia eu pensei: “Daqui um tempo vai estar tudo pronto e eu vou sentar e meditar no maior silêncio.” E comecei a rir sozinha, pois já sabia que o Rinpoche nunca sequer pensou em parar de construir. Depois que o Lha Kang ficou pronto, vieram as casas das rodas de oração, as estupas, as estátuas, a sala das lamparinas, e nós vamos ainda construir muito mais, pois esta é uma parte importante da nossa Guru Yoga. Ele até nos deixou uma lição de casa: construir o Palácio de Padmasambhava. Daqui uns quatro ou cinco anos ele vai subir as escadas correndo, com os olhinhos brilhando como uma criança que entra pela primeira vez num templo… “and it’s better be well done!” (e é bom estar bem feito!)

[Contada por Flávia Pellanda]

Tudo passa

Estávamos eu e alguns membros da sanga de Manaus no quarto do hotel em que Rinpoche estava hospedado, aproveitando seu tempo conosco para fazer perguntas e ouvir seus ensinamentos.

Lembro dele sentado na cama, sem camisa, comendo tsampa. Chamou-me atenção a simplicidade da cena e, ao mesmo tempo, a estranheza da mesma. Nosso tão venerado mestre, ali, como um ser humano comum, com parte do corpo exposta e misturando com as mãos a farinha e a água sem nenhum constrangimento.

Naquela época, eu ainda havia tido muito pouco contato com ele e, mesmo assim, sinto não ter tido a abertura necessária para usufruir da sua presença. Queria ter podido conversar mais e ouvi-lo com todo meu coração, mas sentia medo dele.

Lembro de ter feito uma única pergunta. Na verdade, eu queria um conselho, pois não estava mais satisfeita com meu relacionamento amoroso e queria me separar. Mas como não tive coragem de perguntar se isso seria o melhor para mim, já que era algo tão direto e pessoal, fiz uma pergunta geral. Indaguei se deveríamos agir no sentido de buscar a mudança de uma situação difícil, como por exemplo, no caso de uma mulher que tem um marido agressivo e que sofre violência, se ela deveria tentar se separar do marido. Não era o meu caso, mas hoje vejo que a minha pergunta direcionava o tipo de resposta que eu queria ouvir.

A resposta do Rinpoche foi totalmente surpreendente para mim. Ele respondeu algo que demorei muito tempo para entender. Ele disse que, quando compreendemos verdadeiramente o que significa a impermanência, não há razão para mudar. Penso que até hoje eu ainda não consegui compreender completamente o significado mais profundo deste ensinamento, mesmo tendo refletido sobre ele durante muito tempo.

Quando o Rinpoche morreu, tive outra grande surpresa. Não acreditei que ele pudesse simplesmente ir e não nos avisar, mesmo estando todos ali com ele, ouvindo ensinamentos sobre P’owa. Por um momento, cheguei a ficar com raiva. Me senti desamparada e abandonada por ele. Depois, percebi o que ele queria nos ensinar: “Tudo é impermanente. Tudo passa. Não esperem que as coisas durem. Não esperem que vocês possam controlar o que lhes acontece.”

[Contada por Carliza Vettorato Timm]

Fortaleza

Conheci o Rinpoche num começo de noite de janeiro de 2001 durante um retiro de Dzogchen. Eu não estava fazendo o retiro, mas apareci no Khadro Ling com alguns amigos e na loja me aconselharam a falar com a Andréa (hoje Lama Sherab) para chegar ao Rinpoche.

No final do turno de prática, como a Lama Sherab havia prometido, o Rinpoche nos chamou mesmo antes que todos os praticantes saíssem do templo. Ficou aquele mundo de gente olhando e as outras duas pessoas que estavam comigo não quiseram falar com ele. Eu fui e entreguei um presente, uma rede no formato de uma cadeira, dessas de pendurar no teto. Ele abriu, riu e ficou olhando para o teto do templo como se fosse pendurar lá. Foi a maior risada. Eu quase tive um troço de tanta timidez.

No dia seguinte, ainda estávamos no Khadro Ling e, de repente, alguém disse que o Rinpoche estava no carro esperando para sair. Um monte de gente foi até o carro se despedir. Eu fui junto e, quando cheguei perto, pedi pra ele me dar uma benção. Ele colocou a mão na minha cabeça e ficou rezando um tempo. Eu não sei realmente descrever até hoje a sensação daquele momento.

Em 2002, o Rinpoche veio à Fortaleza e aí foi uma “viagem” andar com ele de carro pra lá e pra cá, com ele tentando ler um monte de placas e letreiros em português, perguntando o significado de cada uma. Na primeira palestra pública, havia quase 300 pessoas em um hotel, com a maior parte da platéia sentada no chão. Depois, nos ensinamentos, ele deu iniciação do Buda da Medicina com uma explicação sobre o surgimento das doenças a partir dos venenos da mente.

A alegria e o prazer que ele demonstrava com os lugares e as pessoas eram incríveis. Durante a participação em um programa de rádio local, ele ria o tempo todo. Era tudo muito rápido: a visita ao hospital das crianças com câncer, as bênçãos que ele dirigiu a tudo e a todos… a minha devoção só aumenta a cada dia, pois cada lembrança dessas fortifica a minha conexão com ele, com a Khadro, com a Lama Sherab, enfim com as atividades do Lama.

[Contada por Patrícia]

Frio de rachar

Em 1998 ou 1999, eu estava visitando o Gonpa e tirando fotos usando um vestido curto. Eu era novata no Gonpa e ainda não estava familiarizada com os borrachudos do local. Naquele dia, o Rinpoche e a Lama Sherab apareceram caminhando em direção ao carro muito bem vestidos, com roupas de cerimônia. No trajeto, Lama Sherab perguntou pra Inez se ela viria com eles para “gravar com a câmera”.

A Inez respondeu que infelizmente não poderia, mas ofereceu a câmera. No mesmo instante, a Lama Sherab simplesmente apontou pra mim e disse pra eu ir pegar a câmera. Sem entender muito bem o que iria acontecer, peguei a câmera. Lama Sherab perguntou se eu sabia gravar, eu respondi que sim. “Então entra” ela disse, com a porta do carro aberta.

Entrei no carro com meu vestidinho de verão, sem banho tomado, de chinelo, e fui com eles. Já dirigindo fora dos portões do Gonpa, Lama Sherab me explicou que estávamos indo pro Planeta Atlântida (um grande festival de música jovem) na praia de Atlântida, e que eu somente precisava filmar, pois o Rinpoche iria cantar. Achei super legal e disse “tudo bem!”

Eu ia no banco de trás e o Rinpoche no banco da frente, de co-piloto da Lama Sherab. Ele tinha problemas com o calor do Brasil, então o ar-condicionado estava ligado no máximo. E eu lá atrás, com meu vestidinho curto, comecei literalmente a bater o queixo de frio. Mas fiquei quietinha. Não tive coragem de dizer nada, pois sabia que o ar era necessário pro Rinpoche.

Pra minha total surpresa, depois de algum tempo batendo queixo, o Rinpoche fez um sinal pra Lama Sherab. Era incrível como ele se comunicava com ela por sinais e ela sempre entendia tudo. Então, a Lama Sherab me alcançou o zen (manto) do Rinpoche e traduziu, dizendo que o Rinpoche havia pedido pra que eu me cobrisse pra não passar frio.

Eu não sabia o que dizer. Não precisava de palavras, mas as perguntas eram milhares. Como ele sabia que eu estava com frio? Talvez fosse óbvio que eu estivesse com frio, mas mesmo assim a sua compaixão me comoveu profundamente.

[Contado por Vivian Clark]

Four legal

ChagdudRinpocheSmiling

Era um sábado glorioso de sol e todos os sábados eu costumava levar a Flávia para Três Coroas, pois ela ficava trabalhando até o meio da semana. Já eu dedicava o dia inteiro a algum trabalho e retornava no final da tarde. Naquela época, estávamos pintando os detalhes em madeira que ficavam no teto do templo ainda em construção. Sentados embaixo da bergamoteira ao lado da marcenaria, vários de nós meditavam durante sua tarefa. Era pura paz.

Quebrei a meditação de todos pedindo para a Lama Sherab perguntar ao Rimpoche se ele sabia o que significava a expressão portoalegrense “trilegal”. Ele disse que não e eu expliquei: era a referência que fazíamos a alguma coisa três vezes boa de tão boa. Muito cool. Eu queria me referir ao momento de paz e deslumbramento que estávamos compartilhando mas não cheguei a completar a minha fala quando ele disse: “four legal is better!” (quadrilegal é melhor!)

[Contado por Antonio Augusto C. de Carvalho]

Olhos que vêem mil vidas

Eu conheci Chagdud Tulku Rinpoche no início da década de 80, em San Francisco. Acho que ele tinha acabado de chegar à região e era relativamente pouco conhecido na época. Eu morava em uma casa bem fora do comum em West Marin, conhecida por vários dos tibetanos locais por sua semelhança com residências nepalesas ou tibetanas em muitos aspectos. Chagdud Tulku nos fez uma visita certa tarde e abençoou a casa e os arredores; depois prometeu que ia voltar. Algumas semanas se passaram e recebemos um telefonema de um integrante da sanga perguntando se Chagdud Tulku podia passar um dia na nossa casa para fazer uma gravação. Claro que ficamos emocionados e prontamente concordamos.

No dia do evento, tiramos tudo da sala e colocamos todos os tapetes tibetanos da casa. Preparamos um grande almoço de momos recheados com os legumes da nossa horta, além de providenciar muitas garrafas de saquê. As pessoas começaram a chegar entre dez e onze horas da manhã. Quando Rinpoche chegou, ele ficou absolutamente satisfeito com cada detalhe da nossa arrumação. A animação transbordava dele, como uma criancinha no Natal. Com educação, ele saboreou uma xícara de chá amanteigado, mas quando tentaram encher a xícara de novo, ele deixou bem claro que sua opção de bebida quente naquele momento era saquê. Isso serviu para quebrar o gelo de qualquer tensão que ainda restasse sobre os presentes, e todo mundo entrou em estado de profundo relaxamento imediatamente, com ou sem a bebida.

Rinpoche começou aquecendo suas cordas vocais com trechinhos de várias canções folclóricas tradicionais tibetanas, tantas quanto era capaz de lembrar. Eu lembro que as gravações começaram por volta do meio-dia e se estenderam até bem depois de escurecer. Na medida em que a luz da tarde foi lentamente se movendo de uma janela à outra, as sequências de melodias do Rinpoche foram soprando, como fumaça de lenha, em uma paisagem de mantras, entoados como se estivessem registrados no nosso DNA coletivo. O canto dele parecia sair das paredes das próprias estupas, incrustadas no compromisso com o Darma mais profundo de vidas e vidas inteiras.

***

Mais ou menos um ano depois das gravações, eu vi em um café em Seattle um folheto anunciando que Chagdud Tulku daria uma Iniciação de Tara Vermelha no dia seguinte na cidade. Quando cheguei ao local da iniciação, subi os degraus, tirei os sapatos e ouvi uma voz que me dava as boas-vindas. Ergui os olhos e lá estava Chagdud Tulku bem na minha frente, com as mãos estendidas em um cumprimento caloroso de acolhida.

Antes mesmo que eu pudesse responder, ele deu um passo atrás e, com um sorriso de orelha a orelha, disse: “Ah, estou vendo que você trouxe o dobro para a bênção de Tara hoje!”. Eu devo ter parecido confusa, porque ele então explicou, depois de uma pausa de apenas um instante: “você está grávida agora!”. Eu, é claro, fiquei sem palavras, porque não fazia a menor ideia de que estava grávida. Eu pensei: “Talvez ele esteja falando em algum nível simbólico”. Uma semana depois, de volta à Califórnia, a gravidez foi confirmada. Agora, vinte anos depois, eu reconheço que o Rinpoche realmente incorporava o sidi de ter “olhos que vêem mil vidas”.

[Contada por Susan Shannon]

Josh

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Desde o dia em que meu filho Joshua nasceu, ele sofria de dores abdominais muito intensas. Ele passava o dia e a noite inteira berrando. No começo, tentei todos os remédios possíveis para cólica; depois, o levei a um gastrenterologista que não pode ajudar. Eu sou médica e também pratico medicina complementar e psicoterapia. Eu tinha todos os recursos possíveis, mas nada fazia a menor diferença.

Quando Josh cresceu, ele vinha correndo para mim e dizia: “A dor está chegando, me abraça”. Ele subia no meu colo, apertava a barriga dele contra a minha e nós chorávamos e balançávamos e cantávamos e conversávamos até a dor aliviar, daí ele voltava a ficar em paz durante algumas horas. Dia e noite, o sofrimento continuava. Então, quando estava com três anos e meio, ele começou a ter pesadelos terríveis – sempre parecidos – de que eu estava dirigindo o carro com ele na cadeirinha no banco de trás; alguém batia em nós por trás e ele morria. Com frequência, eu também morria.

Esses pesadelos eram realistas, repetitivos e apavorantes para ele. Depois de alguns meses, a visão passou a tomar conta do dia dele. “Mamãe, eu não quero morrer, faça alguma coisa.” Naquele momento, eu soube o que precisava fazer. Eu tinha assistido aos ensinamentos do Rinpoche quando ele veio à Austrália, quando Josh era bem pequeno. Eu sabia que ele era o único que poderia nos ajudar. Liguei para o Rigdzin Ling na Califórnia e fui informada de que haveria um Drubtchen de Vajrakilaia. Eu não fazia ideia do que era isso, mas fomos para lá. Como Josh berrava toda noite, aluguei um chalé a alguns quilômetros do Gonpa.

Durante um intervalo no Drubtchen, eu procurei o Rinpoche e perguntei sobre a dor e os sonhos. Eu disse que me apavorava com a impermanência e não queria que isso também acontecesse com Josh. O Rinpoche olhou para mim com tanta compaixão, tão vasta… eu sabia que tudo ficaria bem, independentemente do que acontecesse.

Quando eu procurei o Rinpoche de novo, depois de ele o ter “examinado”, ele disse que Josh ia precisar de cirurgia para remover um segmento do intestino e que eu deveria ligar para ele para falar sobre os sonhos quando voltasse para a Austrália.

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Chegamos em casa e eu comentei com Josh que ele não estava sentindo dor, e ele respondeu: “O Rinpoche consertou”. Como eu não tinha chegado a levar Josh até o Rinpoche no Drubtchen, perguntei o que ele
queria dizer. Ele respondeu: “Certa noite, o Rinpoche veio do Gonpa, atravessou a parede, veio até a minha cama e tocou na minha cabeça com seu vaso da longa vida, e consertou a minha dor na barriga”. Quando eu perguntei: “Você sonhou?”, ele olhou bem fixo para mim e respondeu: “Não, mamãe, você estava dormindo, o Rinpoche realmente atravessou a parede, veio até a minha cama…”.

Alguns anos depois, quando eu relatei a história para Chagdud Khadro-la, ela disse que eu devia contar para o Rinpoche, que ele não costumava realizar essas coisas na mente comum, mas o que Josh tinha experimentado era um corpo de emanação da vasta compaixão do Rinpoche.

Eu liguei para o Rinpoche para falar sobre o que Josh tinha visto e ele explicou que Josh tinha um forte carma para morrer em um acidente entre os 4 e os 6 anos de idade. Ele me disse o que fazer. Eu devia rezar intensamente para Tara Vermelha, acumular mérito. Salvar vidas e pendurar bandeiras de oração. E o Rinpoche rezaria para ele e também penduraria bandeiras de longa vida na casa do pavão no Gonpa.

Em intervalos de alguns meses, eu ligava para o Rinpoche para saber se os obstáculos tinham desaparecido; vez após outra ele me dizia com muita paciência para continuar, e que ele também estava rezando. Finalmente, um mês depois do aniversário de 5 anos de Josh, eu liguei para o Rinpoche e ele disse que o obstáculo tinha desaparecido! Eu me deitei no chão e chorei de alívio, depois de alegria. O meu garotinho
viveria!

Da época do Drubtchen até agora, que Josh está com 18 anos, ele nunca mais teve a dor abdominal; ele não precisou de cirurgia. É difícil descrever o alívio enorme que foi ver aquela dor cessar! Josh estava com quase 4 anos quando dormiu uma noite inteira pela primeira vez. Os pesadelos também cessaram completamente desde a época do Drubtchen e das orações do Rinpoche para o bem dele.

Sua Santidade Chagdud Rinpoche, por meio de sua compaixão e sabedoria incomensuráveis, curou a dor de Josh, salvou sua vida e a minha, e nos libertou de nosso inferno pessoal. O Rinpoche cuidou de nós com tanto
carinho naquela época (e ainda hoje) e plantou nossos pés com muita firmeza na vastidão do Darma.

Eu rezo do fundo do meu coração para que as atividades iluminadas de Chagdud Rinpoche prossigam em todos os reinos, e que seu Yangsi floresça!

[contada por Jullie Kidd]

Are you sure?

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Logo que me mudei para o Chagdud Gonpa, no final de 1996, um dos grandes obstáculos que enfrentei foram as poucas horas de sono que tínhamos. O ritmo de trabalho no Gonpa, quando o Rinpoche estava lá, era sempre alucinante. Um dia, naquela época, o Rinpoche e a Khadro estavam se preparando para ir aos Estados Unidos, onde passariam alguns meses no Rigdzin Ling. Cedo da tarde, me lembro de ter comentado com a Lama Yeshe ( naquela época ela ainda era a “Soninha” ), sobre meu cansaço e juntas concordamos que a ausência do Rinpoche e Khadro seria boa para descansarmos um pouco e colocarmos nosso sono em dia.

À noitinha, eu estava no quarto do Rinpoche ajudando-o a terminar de empacotar as suas malas para a viagem. E disse para ele toda comovida: “Ah, Rinpoche, que pena que você está indo viajar. Vou sentir muita falta de você. ” Ele franziu sua testa, me olhou incrédulo e disse: “Are you sure?” (Tem certeza?)

Imediatamente me veio à minha memória minha conversa coma Lama Yeshe horas antes. Fiquei completamente sem jeito e sem palavras, enquanto o Rinpoche ria de mim.

[Contada pela Drika]

I’m Here

Rinpoche and Phuntsog

Uma vez, eu e alguns outros praticantes estávamos varrendo o templo ainda em construção com a Khadro liderando a limpeza. De repente, o Rinpoche apareceu para verificar alguns detalhes e a Khadro disse: “Rinpoche, não fique aqui, está muito empoeirado, isso não é bom para você”. Ele disse “Ok” e saiu.

Minutos depois, o Rinpoche entrou de novo em passos rápidos, como uma criança – foi a única vez que vi o Rinpoche correr – e disse, numa voz bem aguda e desafiante: “I’m here!” (estou aqui!)

[Contada por Eduardo]

Chagdud Dawa Drolma

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Eu sou de Belo Horizonte, Brasil, do centro Chagdud Dawa Drolma. Esse nome do centro surgiu um dia em que o Rinpoche estava dando uma palestra em São Paulo. Nessa ocasião, eu tive uma visão dele brincando pequeno numa casa com uma senhora. Então, me veio um nome e eu escrevi esse nome em um papel.

No dia seguinte eu mostrei para ele o papel e perguntei que nome era aquele. Ele disse que era o nome da mãe dele. Eu pedi que ele escrevesse o nome correto. Ele escreveu e deu o nome ao centro de Belo Horizonte, Dawa Drolma, que era o nome da mãe dele.

[Contada por Bete Zaidan]

O fato mais importante da vida

rinpoche

Quando o Rinpoche morreu, eu senti muitas coisas ao mesmo tempo. No início foi muito triste, me senti completamente abandonada, sem chão. Me perguntava o que faria da minha vida sem meu lama. Mas, na verdade, eu não entendia o significado disso dentro de mim.

Então, durante os dias em que a mente do Rinpoche ainda estava no seu corpo após a sua morte, senti como se ele estivesse o tempo todo ao meu lado, uma presença muito forte. Durante esses dias tive a certeza de que a coisa mais preciosa que eu poderia ter tido na minha vida foi ter encontrado o Rinpoche, meu lama precioso, o próprio Buda.

Entendi que a sua morte foi mais uma forma que o Rinpoche encontrou de mostrar a sua imensa compaixão por nós, de trazer beneficio, de fazer com que a nossa prática melhorasse. Ao pensar nisso, a tristeza se foi, pois me dei conta que a presença dele jamais sairá do meu coração.

[Contada por Vanessa Sabbado]

Driblando formigas

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Em uma das vezes que Rinpoche foi a Florianópolis, ele se alojou na casa de uma vizinha da sanga que ficava a poucos metros do Gonpa. Na hora de sair, eu o acompanhava, segurando-o pelo braço para irmos até o carro. Tínhamos que atravessar um pequeno trajeto de lajotas para depois subirmos alguns degraus de pedra junto ao portão do jardim.

O Rinpoche estava com alguma dificuldade de andar e eu não estava muito acostumado a ajudá-lo nisso. Além do mais, eu ainda estava realmente comovido com a sua presença conosco nesses dias e me sentia atrapalhado nas interações que fugiam aos enquadres formais dos momentos de ensinamentos ou cerimônias.

Eu já previa que a tarefa não seria muito simples, pois o peso do Rinpoche não era pouco e minha habilidade com ele não era muita. Eu estava aterrorizado e feliz ao mesmo tempo. Aterrorizado pela possibilidade do Rinpoche cair e se machucar. E feliz por estar junto com ele em uma situação muito simples, mas ao mesmo tempo extremamente profunda. Apesar de eu não ter compartilhado com ele muitos momentos desse tipo, a experiência de intimidade e de cumplicidade era muito grande e o Rinpoche parecia se sentir seguro comigo.

Quando chegamos ao degrau, eu tomei coragem e impulsionei o Rinpoche. Mas, para minha surpresa, ele não parecia estar disposto a se mexer. Tomei novo impulso e dei uma empurrada mais forte. O Rinpoche, no entanto, não só não estava ajudando como parecia fazer força no sentido contrário. E agora? Um novo impulso e o Rinpoche resistiu, mas dessa vez também caiu na gargalhada. Uma gargalhada dessas que parece que vem do centro de uma montanha e faz tremer a terra.

Eu não tive muito tempo para rir pelo desespero de encontrar algum ponto de equilíbrio. Já com nossos quatro pés bem apoiados e o centro de gravidade restabelecido, pude rir ao ver o degrau e entender que o Rinpoche estava evitando pisar em umas formigas que passavam tranquilamente à frente, carregando algum pedaço de folha que lhes serviria de alimento.

[Contada por Luciano Florit]

Ele nunca se ausenta

Rinpoche

Eu lembro que era um dia daqueles em São Paulo. Eu estava no trabalho, folheando o jornal, e, em uma das últimas páginas, de repente, vi aquela fotinho em branco e preto com algumas palavras escritas embaixo. Dizia que um Lama tibetano – Chagdud Tulku Rinpoche – viria ao Brasil e iria morar em Três Coroas, falando ainda que o lugar iria se transformar em um centro mundial do budismo. Eu já estava envolvida com o budismo havia muitos anos, mas nunca tinha de fato encontrado o “meu Lama”. De algum modo, no momento em que olhei para aquela foto, senti uma convicção claríssima, do fundo do coração: “Isto é para mim”. Peguei uma tesoura e recortei a foto dele, guardei em um saquinho de plástico e coloquei bem ali na minha mesa. Isso foi em maio de 1995, e ele tinha acabado de chegar.

Naquele ano, eu tentei encontrá-lo, liguei para amigos em Porto Alegre, vez após outra, mas ninguém sabia onde “aquele Lama” estava, porque na época ele morava em um apartamento na cidadezinha de Três Coroas e ainda não tinha se mudado para o lugar que posteriormente seria o Gonpa. Além disso, naqueles primeiros meses, ele também viajava muito para os Estados Unidos e para o Nepal, de modo que o tempo foi passando e eu não o encontrava. Daí, em 1997, ele foi convidado para transmitir uma mensagem de paz em um show de rock em Porto Alegre. Ele apareceu nos jornais locais e de repente ficou “famoso”. Foi aí que os meus amigos de Porto Alegre me ligaram e finalmente me falaram sobre o Gonpa em Três Coroas. Eu liguei imediatamente para o lugar e perguntei como poderia ver o Lama ou falar com ele. Disseram que de manhã, às seis horas, e no fim da tarde, ele fazia o puja, e que eu podia ir lá assistir. Então eu providenciei hospedagem em Gramado e, de lá, peguei um táxi para me levar ao Gonpa às cinco da manhã.

Estávamos em setembro, ainda era inverno, estava frio e totalmente nublado; o taxista nunca tinha ouvido falar do Rinpoche e não fazia a menor ideia do caminho que precisava seguir. Quando finalmente encontramos a estrada que ia até o alto da montanha, ainda estava escuro e com neblina, e o motorista ficava perguntando: “Então, aonde mesmo a gente está indo?”. Eu respondia: “Não sei. A única coisa que eu sei é que tem um Lama tibetano que mora no alto desta montanha”. Então nós seguimos em frente até finalmente topar com uma placa dizendo que tínhamos chegado ao Gonpa. O templo ainda não tinha sido construído e a sala das cerimônias ficava em um prédio que hoje serve de dormitório.

Eu entrei e havia um pequeno grupo de pessoas. O puja tinha acabado de começar, e eu lembro daquilo com muita clareza. O Rinpoche estava sentado de costas para a parede, à esquerda da entrada. Quando eu entrei, ele não virou a cabeça, mas eu vi e senti os olhos dele disparando na minha direção, de ladinho. Foi como se aquilo tivesse me atingido. Eu desabei ali na frente e fiquei assim durante o puja todo, só olhando para ele. Daí, depois do puja, ele me chamou e perguntou o que eu queria saber. Eu lembro de ter dito a ele, antes de qualquer coisa, que, se dependesse de mim, eu nunca mais iria embora dali, que eu queria ficar naquele momento mesmo, mas que infelizmente precisava voltar para São Paulo para trabalhar. Perguntei se ele podia me dar conselhos a respeito de como meditar no dia a dia, no meio da confusão da cidade grande. Ele perguntou se eu entendia inglês e eu respondi que sim, claro. Então ele começou a falar e eu não entendi nenhuma palavra. Mas não fez diferença. Eu só olhei nos olhos dele e me perdi completamente. Daí eu me levantei, saí da sala e encontrei uma amiga minha, Susie. Eu me sentei nos degraus e só chorei e chorei. Susie perguntou: “O que foi? Por que você está chorando?”. Eu respondi:

“Ah, Susie, eu estou tão feliz por ter encontrado o Rinpoche e eu sei, com tanta clareza, que esta é a minha última chance nesta vida”.

A partir de então, eu passei a ir ao Gonpa com a maior frequência possível e também conheci a Lama Tsering em São Paulo. O Rinpoche ficava me pedindo, vez após outra, para ir morar no Gonpa, mas o samsara – o trabalho, a família e todos os meus apegos – tinha me pegado de jeito. Finalmente, em 2000, eu consegui me libertar e mudei para o Gonpa. Nunca me arrependi dessa decisão, nem por um instante; a minha vida mudou de um jeito com o qual eu jamais poderia ter sonhado.

O Rinpoche me mostrou minha verdadeira natureza. Ele revelou tudo que é possível em um ser humano e o que a gente é capaz de fazer quando entende como se deve viver, experimentar a vida e estar com os outros seres – como viver tudo isso de outra maneira.

Eu só queria fazer a minha prática. Eu só queria viver tudo aquilo que ele tinha mostrado para nós.
As qualidades dele que eu amava eram sua compaixão ilimitada, seu amor imparcial infinito e a maneira como nos ajudava , nos via e nos ensinava. Ele era tão paciente conosco, os “bebês do Darma” dele, como ele dizia, sempre com humor, risadas, diligência e visão inspiradoras. “Siga em frente”, era a maneira mais simples que ele tinha de nos motivar quando chegávamos com todas as nossas perguntas e dúvidas. Ele era apenas uma mente de pureza total derramando amor em cima de nós; e é tão incrível quando se pode receber esse amor.

E agora que ele se foi do plano físico, não faz diferença, porque tudo continua presente – e muito mais, multiplicando-se como nuvens de oferendas no céu – e ele está conosco o tempo todo. Eu ando por aí e sempre o escuto na minha mente. Eu sempre o vejo e sempre o sinto. Então, ele está comigo o tempo todo. Ele nunca se ausenta. E eu nunca, jamais vou abandoná-lo.

[Contado por Christine]

Não posso explicar agora

Chagdud and Marice 1

Conheci o Rinpoche em 1999 na inauguração de uma feira ecológica em Porto Alegre. Eu fazia parte da organização e lembro que todo mundo estava super ansioso para receber esse tal de Lama. As fitas de inauguração da feira tinham as cores do budismo tibetano: azul, vermelha, amarela, branca, verde. Eu fui escolhida para puxar uma das fitas e, como gostava muito de vermelho, fui pegar a fitinha vermelha mas uma mão apareceu, pegou antes e riu assim: “Hi hi hi.” Era o Rinpoche do meu lado. Ele puxou rápido a fita vermelha e eu tive que pegar a verde.

No dia seguinte, eu ia para a Espanha tentar arrumar minha vida. Só que cheguei lá e deu tudo errado. Então, depois de um tempo, voltei para o Brasil e me lembrei do Rinpoche. Eu não tinha uma vida espiritual e pensei que talvez as coisas estivessem dando errado porque isso é que estava faltando.

Um tempo depois, eu estava na feira da José Bonifácio (uma feira de alimentos ecológicos) quando passou um rapaz com o livro do Rinpoche e disse que haveria um evento em Três Coroas – um retiro de Ioga dos Sonhos. Eu decidi ir e, quando cheguei no Khadro Ling, estava de “civil”. Todo mundo tinha sadanas, todos os apetrechos e eu sem nada. Entrei e fiquei em um cantinho. Achei o lugar super bonito, fiquei apaixonada pela música de Tara, mas pensei “não é para mim, vou terminar isso aqui e vou embora”.

Só que daí fui ao Yeshe Ling, em Porto Alegre, e a Maria Inês me procurou e pediu ajuda com o Excel. Eu comecei a frequentar o Yeshe Ling por causa das tabelas de Excel.

Chagdud and Marice 2

Em 2002, eu lembro que tinha que trabalhar horrores e larguei tudo para fazer umas iniciações em um sábado de manhã, lá no quarto do Rinpoche no Khadro Ling. Quando eu estava subindo, uma menina me disse: “Tu não moras aqui, não vais fazer as iniciações”. Eu disse: “Tá, então vou lá pegar o meu dinheiro de volta e vou embora, né”. Mas chegou outra pessoa e disse “Sobe, sobe”, e daí eu subi e fiquei na porta. Fui a última a chegar.

Depois disso, fui a outros eventos e iniciações. Mesmo tomando todas aquelas iniciações, eu me perguntava: “Ai, será?” Eu ficava muito na dúvida.

Daí veio o retiro de P’owa em novembro de 2002 e eu estava meio sem dinheiro. Só que, naquela semana, chegou a restituição do imposto de renda e eu disse “bom, está aqui o dinheiro. Eu vou”. Daí fui, e acho que aquilo foi um marco para mim porque, mesmo que eu não tenha tido uma convivência direta com o Rinpoche, aquele retiro fez toda a diferença. O que aconteceu naquele retiro foi tão forte, me marcou.

Depois disso, quase fui despedida do meu emprego porque passava muito tempo no Khadro Ling fazendo lamparinas. Meu celular tocando e o meu chefe atrás de mim. Eu dizia: “Eu não posso, morreu uma pessoa”. E ele: “Mas quem morreu?”. E eu: “O Rinpoche”. E ele: “É teu avo? Teu pai?”.

Eu enlouqueci, chutei o balde, quase fui para rua. Meu chefe falou: “Marice, tu és uma pessoa séria, responsável, alguma coisa deve estar acontecendo.”

E eu: “Me dá um tempo que não posso explicar agora”.

[Contada por Marice]

Costurês

Rinpoche

Eu nasci com o bom carma de saber costurar. Por isso, nas vésperas de um Drubtchen da Essência do Sidi, o Rinpoche me chamou para costurar os 16 djaltsens (estandartes da vitória, hoje feitos de fibra) que seriam colocados no telhado do templo.

A máquina de costura, presente de casamento da Khadro para o Rinpoche, estava no quarto de hóspedes no apartamento deles. Lá, encontrei sobre a cama muitas peças do brim que eu ia costurar. O Rinpoche foi muitas vezes até lá para ver o andamento das costuras e sentava no meio da cama explicando o que eu devia fazer. Ele abria o tecido e me explicava por meio de gestos, já que eu não falava inglês. Eu respondia com o polegar para cima, indicando que estava entendendo.

Foi aí que eu descobri uma nova língua, o costurês, que tive privilégio de falar com o mestre, também costureiro.

[Contada por Elusa Faria]