Caixinha de Música

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Eu estava participando de um retiro de dzogtchen e a minha cabeça já estava pra lá de Bagdá. Eu não entendia mais nada que o Rinpoche falava e a gente ainda foi ao quarto dele para receber algumas instruções. E, nossa, as instruções eram muito sofisticadas! A Lama Sherab estava traduzindo, e mesmo assim eu não entendia o que ele estava querendo dizer. Eu comecei a ficar realmente preocupada. Eu já não entendia o inglês dele muito bem, e quando vinha a tradução, eu via que em português eu não entendia nada também!

Então ele pegou uma caixinha de música na forma de um gramofone, uma coisinha bem pequenininha. E toda vez que ele parava de dar ensinamento e começava a tradução, ele pegava aquela caixinha de música e dava corda. Aí botava no ouvido e ficava ouvindo.

No começo, eu achei meio estranho. Só que comecei a perceber que ele estava dando uma versão alternativa para quem não estava entendendo muito bem as instruções. E em cada intervalo, durante a tradução para o português, ele dava corda na caixinha de novo.

Ele não estava só curtindo a caixinha, ele estava meditando com ela. Ele estava dando a versão prática de tudo aquilo que era hiper-sofisticado. Aquela coisa do discurso não entrava na minha cabeça. Mas eu comecei a relaxar e percebi que ele estava de fato dando uma alternativa para nós podermos entender os ensinamentos de um jeito não-discursivo. E aquilo era tudo o que eu precisava naquela hora.

Durante todo o ensinamento, ele manteve por vários intervalos aquele movimento: parava de falar, dava corda na caixinha e ficava meditando. Acho que eu relaxei no decorrer da história por perceber que tinha alguma coisa que eu estava entendendo no meio daquilo tudo.

E quando saí da prática, eu tinha certeza que tinha entendido tudo que era essencial para ser transmitido. Mais uma vez, eu me curvei diante dele. Vi o quanto ele era extraordinário, além da nossa compreensão. Com certeza, foi o ensinamento que me deixou mais marcada no decorrer desta vida como a forma mais linda da compaixão se manifestar e dar oportunidade da gente entender, mesmo quando nossa mente não está em condição de nada.

[Contada por Nenung]

O exemplo perfeito

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Só vi o Rinpoche em seu último ensinamento, sobre P’owa. O seu amor, compaixão, entrega generosa e total falta de preocupação por si mesmo em benefício dos demais produziram um impacto imenso que dura até hoje. Para mim, foi o exemplo mais real que tive de um bodisatva, entregando-se completamente para o benefício dos outros. Recordo perfeitamente de um momento na prática em que seu rosto ficou pálido, ele inclinou-se e levou a mão ao peito. Ficou em silêncio um pouco, respirou profundamente e, esforçando-se, olhou para nós com profundo amor e continuou ensinando. Morreu poucas horas depois.

[Contada por Constanza Aguillar]

Chegar em casa

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Conhecer o Rinpoche foi como ter chegado em casa. Eu finalmente encontrei o meu mestre. E quando encontramos o nosso mestre, nos sentimos tranqüilos, serenos, sentimos o motivo pelo qual estamos aqui. E sabemos que viemos para ajudar os seres a aliviar o seu sofrimento.

O Rinpoche, a cada instante, nos ensinava isso. Ele foi um exemplo de compaixão. Ele dedicava cada pensamento seu para todos os seres. Uma vez ele nos disse: “Quando vocês recitam o mantra de Tara, pensem em todas as vezes que vocês recitaram e dediquem também cada recitação pelo benefício de todos os seres.” Aí eu me dei conta que cada vez que ele dizia “Om Tare Tam Soha”, estava tentando beneficiar todos os seres. E ele disse que colocaria todas as estátuas que ele já construiu de Tara nesse mantra. Para que todos os seres pudessem se beneficiar de cada simples estátua que ele tinha feito ao longo dos anos.

[Contada por Ângela]

As formigas

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Eu estava morando em uma casa que tinha muitas formigas, na pia, no chão, nas paredes e, apesar dos ensinamentos que havia recebido sobre não matar nenhum ser, fazia de conta que não via e matava algumas pensando que elas poderiam renascer no reino dos humanos. E eu não contei isso para o Rinpoche.

Um certo dia, depois de um passeio no shopping com ele, fui escutar seus ensinamentos e, no intervalo, o Rinpoche me chamou, perguntou como eu estava e, após um silêncio entre nós, falou que não era para eu matar as formigas. Eu olhei para ele espantada e falei que, ao matar, eu aspirava que elas pudessem renascer no reino dos humanos. O Rinpoche sorriu e respondeu que eu só poderia tirar a vida de alguém quando pudesse devolvê-la.

[Contada por Giovanna de Barros]

Disponível

O Rinpoche deixou para todos nós presentes maravilhosos. O que eu, particularmente, mais aprecio, é a compaixão incrível que ele mostrou de todas as maneiras. Eu tenho grande apreço pelo fato de que nós, os alunos ocidentais e os alunos de todos os lugares do mundo, fomos ensinados de maneira tão impecável.

O Rinpoche se concentrava em nos ensinar tudo sobre a prática e a filosofia budista tibetana, principalmente os rituais, exatamente como ele havia sido ensinado. Por isso eu agradeço a Guru Rinpoche e me sinto muito grata ao Rinpoche e a todo o trabalho fantástico que ele iniciou, seu trabalho infinito.

Eu lembro que o Rinpoche passava o ano todo viajando e ensinando, todos os dias; com frequência ele passava a noite toda acordado. Mesmo que as pessoas fossem procurá-lo às 4h da manhã para requisitar ensinamentos ou bênçãos, ele estava disponível para elas. Isso é o que eu mais aprecio. Como ele se empenhou e como sua compaixão por todos os seres era infinita.

[Contada por Silvia Salazar]

A primeira e a última vez

Eu conheci o budismo quando morei no oriente. Ao voltar para o Brasil, o primeiro livro que ganhei de presente sobre budismo foi o “Portões da Prática Budista”. Eu me interessei muito por aquilo e resolvi ir atrás do mestre. Curiosamente, todas as vezes que fui ao Khadro Ling, eu não encontrava o Rinpoche. E quando o Rinpoche estava em São Paulo, eu também não conseguia vê-lo. Eu me sentia até um pouco frustrado correndo atrás do mestre e nunca conseguindo encontrá-lo.

Até que então eu tive uma perda muito próxima na família e não sabia da prática de Powa. Isso foi no dia 25 de outubro de 2002. Logo em seguida, o pessoal de São Paulo avisou que haveria um retiro de Powa e que seriam dados os ensinamentos pelo Rinpoche. Eu deixei tudo que tinha e acabei indo para o Sul, para o Khadro Ling. Tive o privilégio de estar com o Rinpoche fisicamente, a primeira e a última vez. Foi neste retiro que ele deu, não só para mim, mas para todos os praticantes, o maior ensinamento que poderia ter dado.

Então a minha lembrança do Rinpoche é muito forte. A única vez que eu pude vê-lo foi a última. E eu me sinto privilegiado em poder ter estado com ele naquele dia. Obrigado.

[Contada por Argos]

Quadro Abençoado

Certa vez, uma pessoa da nossa sanga começou a fazer pinturas de deidades e a colocar na lojinha pra vender. Quando eu vi, pensei “não acredito que essa pessoa está colocando isso aqui”. A pintura estava muito feia, tudo diferente, as medidas, as cores, mas, enfim, era eu com meus julgamentos, aquela questão de é isto ou aquilo. Eu olhava o desenho e não tinha jeito de gostar. No fim, o quadro ficou encalhado lá.
Aí, outro dia, o Rinpoche falou durante os ensinamentos que era legal a gente desenhar como prática. Porque, a princípio, as deidades pareciam mais demônios do que a própria deidade mas, aos poucos, a gente ia se aprimorando na visualização. Claro que eu lembrei do quadro. E ele completou dizendo que a gente não deveria desenhar de qualquer jeito, que existem as medidas e proporções corretas.
Só que depois eu bati o olho no quadro e ele estava completamente diferente. E perguntei para um amigo: “O quadro foi pintado de novo”. E ele respondeu: “Não, não, o Rinpoche abençoou.”

[Contada por um estudante]

Quase Monges

Certa vez, eu cheguei para um retiro no Khadro Ling com dois amigos e o meu namorado. Os três tinham o cabelo raspado. No final da prática, o Rinpoche os chamou para conversar e convidou-os para permanecerem no templo fazendo retiro. Ele queria enviar alguns alunos brasileiros à India para ter formação monástica.

Enquanto ele explicava como era a vida de um monge, cheguei com o meu filho, que era muito pequeno. Nesse momento, o Rinpoche começou a rir e percebeu que havia a família em nossa vida. Nesse momento, ele mudou a direção da conversa: começou a dar ensinamentos sobre o que é a família e os méritos que uma família tem em praticar o Darma.

[Contada por Janaina Torves]

Cuecas

A experiência que eu quero contar é um pouco engraçada e aconteceu durante um drubtchen de Vajrakilaia no qual eu estava sentado pertinho dele. Uma hora eu fui ao banheiro e, quando voltei, passei pelo Rinpoche e percebi que ele estava rindo muito de mim. Chamava as pessoas ao lado, chamava os lamas para olharem para mim, apontava e eu não entendia o porquê.

Quando eu cheguei mais perto do meu lugar, uma amiga que estava sentada ao lado apontou para a minha tchuba. Aí eu percebi que tinha voltado do banheiro com metade da tchuba aberta, aparecendo as cuecas. O Rinpoche não parou de rir disso.

O que eu aprendi a respeito do Rinpoche é que entre suas várias qualidades elevadas, estava o seu elevado humor.

[Contada por Gabriel]

Espaço

A memória maravilhosa que eu tenho do Rinpoche é a de seus olhos quando ele olhou para mim. Eu pude ver espaço. Isso foi algo que marcou muito o meu coração. O Rinpoche me deu disciplina. Ele me deu método. Ele me deu amor. Ele me ensinou a como me abrir para outras pessoas. Acho que ele mudou a minha vida.

[Contada por Cândida Bastos]

Cozinhando para Retirantes

As instruções orais que o Rinpoche me deu sobre ser um cozinheiro para os retirantes foram: “Quando os retirantes vierem até a cozinha, diga a eles para irem embora. Diga para irem meditar. Diga que, se a comida vier, eles devem se regozijar. Se a comida não vier, eles purificarão o carma de renascer no reino dos fantasmas famintos. E aí bata neles”. Então ele fez um gesto de dar uma palmada com o seu braço. Eu ri.

Lembrar dessas palavras dissolveu muita frustração ao longo do retiro, só por pensar que ele reconhecia a minha dificuldade de encarar minha tarefa com leveza.

[Contada por um estudante]

Você tem certeza?

Quando encontrei o Rinpoche, quis ter a impressão de apenas ter conhecido um mestre, budista, “velhinho” e bizarro. Em seguida veio a sensação de uma familiaridade muito, muito forte, e a distância que naturalmente existiria entre uma mineira matuta e um mestre do Tibete trazia um inexplicável desconforto. Meses depois, como se olhasse para minha vida depois de um furacão, estava eu, bem do ladinho dele inúmeras vezes, literalmente sacudindo minha cabeça para não ter meus pensamentos revelados, mas aí já não adiantava mais. Quanto mais me esquivava, eu ouvia: are you sure? (Você tem certeza?)

[Contada por Liliane Souza]

Orgulho

Certa vez tive uma conversa com o Rinpoche sobre alguns sonhos e, no final, contei que sentia muito orgulho. Perguntei o que poderia fazer para lidar com isso. Rinpoche disse: “Toda vez que você tiver orgulho, contemple que, espiritualmente, você não é nada porque não tem realização alguma; como humano, você não é nada porque está tão imerso em samsara quanto qualquer outro ser senciente; qualquer elogio ou crítica que você receba não vale nada porque vem de pessoas tão confusas e imersas no samsara quanto você.”

[Contada por Luciano Ribeiro]

Paciência

É muito difícil dizer em poucas palavras o que aprendi com o Rinpoche, mas eu acho que a coisa mais importante foi a compaixão. Porque o Rinpoche tinha uma compaixão muito grande. Eu sempre me impressionava com a paciência que o Rinpoche tinha com estudantes difíceis, para quem ele já tinha falado sobre a mesma coisa muitas e muitas vezes. Mas ele não perdia a paciência. Depois de um tempo, eu percebi que essa paciência vinha da sua compaixão e da sua sabedoria. Assim ele conseguia ser paciente com aquelas pessoas.

[Contada por Lama Sherab]

Ninguém como ele

Meu nome é Lama Inga e eu sou do Padma Ling em Spokane, estado de Washington (EUA). O Rinpoche me orientou em um retiro de três anos, deu-me o nome de Yeshe e então me enviou para Spokane para ser a Lama residente. Tudo que eu sei, aprendi com o Rinpoche.

Eu conheci o Rinpoche em 1988, em Portland, no Oregon (EUA), e esta é uma das minhas lembrancas preferidas.

Tínhamos chegado de Santa Cruz e estávamos esperando o lama, e eu simplesmente estava lá sentada, meditando, quando senti uma presença atrás de mim. Eu me virei e lá estava o Rinpoche. Eu ainda não tinha sido apresentada a ele, então só me curvei perante ele, porque sua presença era tão arrebatadora. Mais tarde, estava ajudando e cheguei toda carregada de caixas e, quando deparei com o Rinpoche, simplesmente me curvei com todas aquelas caixas.

Ele se evidenciava por si só. Não precisamos ser apresentados. Depois de eu me mudar para Cottage Grove, onde o Rinpoche inaugurou um centro, ele me pediu que o ajudasse a fazer uma estátua pequena de Guru Rinpoche. Aquela foi a primeira estátua. Uma coisa levou à outra e depois ele se tornou meu lama-raiz.

Realmente, nunca existiu ninguém como ele. Há tanta coisa sobre o que falar, então contar uma história curta ou escolher um fato é praticamente impossível. Eu fiz o Ngondro com o Rinpoche e ele me orientou durante um retiro de três anos e nos ensinamentos de Dzogtchen. E assim, como já disse, tudo que sei aprendi com o Rinpoche.

[Contada por Lama Inga]

Caminhando com o Buda

Eu sou o lama do centro de Seattle, estado de Washington (EUA), chamado Chagdud Gonpa Amrita e sou aluno do Rinpoche desde 1983. Alguns anos atrás, fizemos uma peregrinação à India e ao Nepal. Eu estava com o Rinpoche e, um dia, tive uma sensação muito forte de que eu estava realmente caminhando com o Buda.

Essa sensação é algo que eu sempre tento recuperar, vez após outra. Então, estar aqui para estas cerimônia, acredito, marca a última vez que eu tenho a experiência da forma física do Rinpoche. Eu quero purificar o meu erro de pensar que o Rinpoche é outro que não o Buda.

[Contada por Lama Padma nas cerimônias de cremação do Rinpoche no Nepal]

Amor que se espalha

A primeira vez que encontrei Rinpoche foi em um retiro de Troma, que é uma introdução e tanto. Uma das coisas que eu e minha esposa nos lembramos daquele retiro é que havia pouquíssimos banheiros e todo mundo tinha que esperar em uma fila. De repente, em um dos intervalos, lá estava Rinpoche, de pé na fila com todo mundo esperando para ir ao banheiro. Isso foi algo realmente novo para nós, algo bastante impressionante.

Alguns meses depois, estávamos levando Rinpoche para um ensinamento que ele daria em São Francisco. Vínhamos de Berkeley e passamos pelo pedágio de Bay Bridge. A essa altura, eu sentia muito amor pelo Rinpoche. Era muito fácil amá-lo. Eu estava dirigindo e quando chegamos na cabine do pedágio, eu puxei um dólar e entreguei para a atendente. Ela era apenas uma simples atendente de pedágio, mas eu senti por ela o mesmo amor que estava sentindo pelo Rinpoche. Eu pensei: “Uau, isso é realmente algo especial. Não é algo apenas dele. É algo relacionado ao tipo de amor que se espalha.”

Não tenho como falar de algo em particular que tenha recebido dele, porque acho que foi realmente tudo. Quanto mais tempo passamos com ele e mais tempo estivemos ao seu redor, mais profunda e rica foi nossa experiência com o Rinpoche.

[Contada por John]

Carrinho de golfe

Pensei em tantas coisas que eu poderia dizer sobre o Rinpoche, porque fomos mesmo muito afortunados de passar alguns anos com ele. Mas eu lembro de algumas histórias engraçadas, algumas relacionadas ao carrinho de golfe Harley-Davison do Rinpoche no Rigdzin Ling, que era famosíssimo. O Rinpoche ficava meio descontrolado com o carrinho de golfe.

Ele adorava aquele carrinho de golfe, e eu lembro de uma vez que estávamos trabalhando na oficina com o Lama Norbu, que estava com uma bicicleta nova parada na frente da oficina. Então, nós terminamos o trabalho que estávamos fazendo e saímos, e alguém tinha atropelado a bicicleta nova do Lama Norbu. Ele ficou furioso: “Quando eu descobrir quem fez isto, a pessoa vai se encrencar feio”. Eu nunca tinha visto o Lama Norbu se irritar. Mas quando nós descobrimos que tinha sido o Rinpoche, o Lama Norbu disse: “Ah. A única pessoa com quem eu não consigo ficar bravo”. Eu lembro que, sempre que o Rinpoche saía do caminho com o carrinho de golfe dele e batia em um muro, ele simplesmente saía andando e deixava lá mesmo. A gente resolvia.

Acho que estas são algumas lembranças que eu tenho do Rinpoche, mas em termos da maneira como ele afetou a minha vida, sabe, tenho tantas coisas a dizer, mas nem tenho como colocar em palavras. Só de poder estar com uma pessoa de quem você não consegue esconder nada, e estar com o Rinpoche, que não tinha nada a esconder, já foi um ensinamento maravilhoso. Ele era um ser tão puro, e tão cheio de compaixão e paciência… Nunca vi o limite da compaixão nem da paciência dele. Nunca vi, em todos os anos que passei com ele.

[Contada por Lama Rigdzin]

Meio Gordo

Eu fui enviado ao Rinpoche pelo meu guru-raiz, Trulshik Rinpoche. Ele me disse para ir estudar com ele. Foi o que eu fiz.

Eu ficava envergonhado de verdade de falar com o Rinpoche e ocupar o tempo dele. Mas, uma vez, estávamos fazendo uma pintura juntos e tínhamos parado para descansar, sentados, quando ele se virou para mim e disse: “Você está com algum problema? Tem alguma coisa para a qual precisa de ajuda?”. E eu respondi: “Não, está tudo bem. Eu tenho um problema… Mas não acho que você seja o professor certo para resolver”. E ele disse: “Ah. E qual é o seu problema?”. Eu respondi: “Bom, eu estou acima do peso. Estou meio gordo”. E ele disse: “Ah, não é problema. Não se preocupe com isso”. Ele também estava um pouco acima do peso. Bom, eu estava bem acima do peso.

Passei 30 anos no Nepal com muitos lamas elevados, mas sem tradução; com o Rinpoche, tivemos que trabalhar a questão. Fiz cinco retiros de inverno com o Rinpoche e nós realmente tivemos que sentar para estudar e arranjarmos boas traduções, para que eu não pudesse dar a desculpa de que não sabia sobre o que estavam falando. E daí precisamos nos concentrar e refletir sobre os ensinamentos. Então, ele de fato me ensinou, de modo que hoje eu tenho uma certa compreensão sobre os ensinamentos.

[Contada por um Lama de Crestone, Colorado]

Bondade

Minhas lembranças do Rinpoche se estendem por um período de 22 anos, então tenho muito em que pensar quando puxo pela memória. Mas uma das minhas recordações preferidas é de quando eu o conheci e nós ainda não tínhamos nenhum tradutor, de modo que a barreira da língua era um grande problema. Nessa ocasião, eu dei a entender ao Rinpoche que gostaria de ser aluno dele, e perguntei sobre os ensinamentos budistas. Em uma prateleira alta, estavam os vários textos tibetanos que ele tinha trazido consigo. Então ele apontou para os textos, para mostrar que os ensinamentos estavam ali, nos livros, e colocou a mão no coração para mostrar que todos os ensinamentos, em essência, se resumiam no cultivo de um bom coração.

Realmente, o Rinpoche era a epítome da bondade, da compaixão e do amor. Se eu fosse resumir o ser dele em uma palavra, seria bondade, bondade insuportável. O Rinpoche, até o último dia que eu o conheci, foi a personificação da bondade. A grande bênção de ter dado o último ensinamento de P’howa foi absolutamente poderosa e inesquecível, e ele continuou ensinando mesmo quando seu estado de saúde começou a piorar – até a noite em que ele faleceu. Naquela noite, ele convidou alguns de nós para jantar com ele em seu quarto e ficamos lá assistindo à TV. Tudo que ele precisava dizer já tinha sido dito nos ensinamentos.

Até hoje, eu encontro pessoas que eu nem sabia que tinham conhecido o Rinpoche, e elas falam sobre ele e sobre o impacto enorme que ele teve sobre a vida delas e sobre a força da bondade dele.

Ele exemplificou isso por meio de seus ensinamentos contínuos sobre a compaixão, e magnetizou uma sanga originária de todas as classes e culturas, de vários tipos de formação e nacionalidades; todas essas pessoas, no entanto, têm basicamente um bom coração e desejo de beneficiar os outros.

[Contada por Lama Norbu]