Vozes do Parinirvana

Lamparinas

Durante a cerimônia de dez anos do parinirvana de Chagdud Rinpoche, em novembro de 2012, colhemos uma série de entrevistas em áudio com alunos presentes no evento. Infelizmente, problemas técnicos inutilizaram o material para o uso originalmente pretendido. Mas, diante da riqueza dos depoimentos captados, selecionamos trechos significativos e inspiradores para transcrever em texto. Alguns deles são os relatos publicados abaixo, que formam uma representação luminosa da voz da sangha naquele dia tão especial.

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“Eu me lembro da voz dele, nunca vou me esquecer da voz dele. Parecia que ele não mexia a boca e vinha aquele vozeirão. Eu fui numa Essência do Siddhi em 2000 e o Mauriã tinha quinze anos, talvez nem isso. Um dia, eu estava fazendo a prática, que é uma sadhana muito bonita, com melodias muito bonitas, e eu ouvi aquela voz forte e demorei o dia inteiro pra me dar conta que não era o Rinpoche que estava cantando, era o Mauriã. Então, acho que, apesar do Rinpoche ter se ido em corpo, a manifestação dele está em tudo que é lugar. Onde está o nome Chagdud Gonpa tem muito do Rinpoche. Não é um pouquinho, é muito.”

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“Eu sempre me lembro quando ele falava da motivação. Ele batia a mão contra o coração, a mão aberta, juntando os dedos e colocando a mão no coração. Esse gesto ficou comigo, eu sempre me lembro desse gesto. Quando eu estou me sentindo muito ensimesmado, muito autocentrado, eu me lembro do Rinpoche falando de motivação com a mão no coração. Isso aí eu vou levar para a hora da morte, assim espero.”

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“Dez anos atrás eu estava em retiro, completando seis meses no retiro de três anos. Poucos dias antes, ele tinha ido lá dar ensinamentos. E eu lembro perfeitamente que na saída ele fez uma brincadeira, olhou pra todo mundo com um sorriso na cara, como se o último ensinamento dele fosse um sorriso gigante, um sorriso de ‘isso é se alegrar com o Darma, poder praticar, acreditar e confiar no que é o Darma essencial.’ Então, a última lembrança que eu tenho é ele já frágil fisicamente, mas brilhante. Cada vez que ele ia lá, eu pensava ‘nossa, ele está cada vez mais parecido com o sol’. Ele estava muito brilhante, ele não falava, não era a quantidade, não eram as palavras em si, mas ele estava radiante. Parecia que o corpo dele estava ficando mais frágil e ele ficando mais forte. É muito louco, o Rinpoche não para de ensinar.”

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“A gente estava fora do Brasil fazendo uma estátua de Guru Rinpoche. E eu estava com ele bem pertinho, ajudando junto com outros alunos e conversando com a Lama Sherab em português. Ela me contou alguma novidade e eu disse ‘nossa, que legal!’. Nisso, o Rinpoche levantou a cabeça e repetiu: “nossa, que legal!”

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“Uma imagem que eu tenho muito querida do Rinpoche é uma vez que ele ficou em Florianópolis, logo no início, uma das primeiras vezes, quando a sangha era muito pequena. A gente tinha poucas atividades quando ele foi, era só à noite. Então, durante o dia, o Rinpoche ficava sentado perto de uma janela horas e horas costurando, bem quieto, só costurando roupas. E a gente em volta, as pessoas próximas, sentadas.”

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“Uma das coisas que eu fui percebendo depois (do parinirvana) é a presença de todos esses outros lamas que vêm pra nos dar ensinamentos. Eu comecei a cada vez mais olhar pra eles como o próprio Chagdud Rinpoche. Porque dá para perceber claramente que tem uma intenção dele com isso. Já tinha antes e parece que ele preparou tudo pra que tivesse uma continuidade através da Khadro, dos outros lamas do Chagdud Gonpa e dos que vêm de fora. Então, ele continua ensinando de várias outras formas.”

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“Para mim, a lembrança mais forte é o Rinpoche incansável. A gente não via ele cansado. Quando ele ficava cansado, ele começava a praticar e aí melhorava. Mesmo naqueles momentos em que a gente estava caindo no templo, o Rinpoche estava lá que nem uma montanha mostrando como é que é a gente ter a visão diferente a respeito do mundo, de realmente ver o trabalho além daquilo que é o comum pra nós, de realmente ser um trabalho que traz benefício para os seres. E para isso ele era incansável.”

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“O que marca os dez anos do parinirvana é a presença forte ainda depois de tanto tempo, mesmo ele não estando junto com a gente. Isso é marcante. Que a gente ainda vê pessoas chegando nos centros, que nunca o conheceram, mas que, de alguma forma, têm uma conexão. É ele que traz essas pessoas, e elas entram e se conectam e se beneficiam com aquilo que ele nos deixou. Isso ainda é muito forte.”

Terra Pura

“Nesses dez anos, o que eu vejo é que o Rinpoche permanece vivo em todos os lugares aqui no Khadro Ling, na minha mente, no meu coração, nas atividades, em todos os lugares. Em Porto Alegre, por exemplo, quando eu ando e vejo as bandeirinhas que os visitantes compram aqui e penduram em casa, eu penso ‘nossa, é o Rinpoche, é a presença do Rinpoche’. Foi ele que trouxe isso.”

“Hoje eu lembrei da primeira vez que vim aqui neste local. Era um mato, havia chovido e estava um barral enorme. Era a consagração do templo e depois da cerimônia o Rinpoche iria dar entrevistas individuais. Tinha uma fila enorme. Todo mundo queria perguntar alguma coisa e eu não sabia o que perguntaria. Entrei na fila e, quando chegou a minha vez, eu perguntei, muito tímida, se eu não estava muito velha pra começar uma religião nova. Eu já estava velhina, com mais de 60. E ele olhou pra mim, parou, ficou olhando e disse assim: ‘Para o budismo não há idade.’”

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A primeira e a última foto deste post foram tiradas durante as cerimônias de Parinirvana de 2012. Veja mais fotos deste dia aqui.

Carma

Uma vez, eu estava em uma festa surpresa para uma amiga da sanga. O Rinpoche também estava na festa. Ele comeu seu tsampa com guin e se retirou cedo depois de cantar para nós uma canção popular do Tibete.

Eu tinha deixado no carro de um amigo minha bagagem e meu material de prática, inclusive minha almofada, um katag e um zen. Mais tarde, meu amigo descobriu que haviam quebrado o vidro do carro e roubado minha mala com o material de prática. Fomos procurar meu material achando que as pessoas não iriam aproveitar sadanas ou o zen. Meu amigo só encontrou o katag, que ele nem pegou dizendo que o tinham usado para algo “não muito virtuoso”.

Fiquei dias remoendo isso e procurei o Rinpoche, querendo saber se aquilo era algum sinal. Depois de ouvir a tradutora relatando o que havia me acontecido, o Rinpoche disse: “Isto é apenas carma. Tudo é carma. Todo meu país foi roubado e isto foi apenas carma.”

[Contada por Luciano Ribeiro]

Resultado

Quando eu trabalhava com o Rinpoche, ajudando a modelar, em argila, as estátuas, ornamentos, máscaras e tantas coisas que ele fez com as próprias mãos para nos ensinar, eu passava muito tempo sentada frente a frente com ele, e muitas coisas aconteciam ao nosso redor durante um dia de trabalho.

Por exemplo, eu já tinha ouvido falar que o Rinpoche era um ótimo negociador e certa feita tive a oportunidade de vê-lo em ação. Ele estava querendo contratar um empreiteiro para terminar umas obras no templo, mas o homem estava pedindo muito dinheiro. Então, o Rinpoche resolveu conversar com ele. O homem chegou e sentou perto de nós. Os dois começaram a conversar com a ajuda de alguém traduzindo, mas no início a conversa estava meio dura, e eu achei que eles não estavam se acertando. Aí o assunto morreu, mas o homem não ia embora. Lá pelas tantas, ele começou a folhear um livro grande de fotos sobre o Tibete que estava por perto. As fotografias eram lindas, com vastas paisagens, cavalos, cavaleiros empunhado lanças, algumas cenas bastante parecidas com os nossos pampas e costumes gaúchos. O homem, então, começou a fazer perguntas sobre o Tibete e o Rinpoche a explicar as fotos. Logo paramos de trabalhar e a tarde se passou num papo agradável. Não falaram mais em negócios, mas depois o homem pegou o serviço, certamente pelo preço que o Rinpoche achou justo.

Outra vez, uma menina que estava tentando ajudar, mas atrapalhava bastante, se dirigiu ao Rinpoche de uma maneira totalmente imprópria, usando um palavrão bem grande, numa língua que todo mundo entendeu. Eu levei um susto ― levantei a cabeça do trabalho e segurei a respiração. O Rinpoche continuou trabalhando, quieto. A menina, achando que ele não tinha escutado, repetiu tudo, mais alto. E aí o Rinpoche me olhou. Ele olhou dentro dos meus olhos e eu vi e aprendi para sempre o que é compaixão. O olhar dele era pura compaixão, sem o mínimo laivo de raiva, de irritação, de nada ruim. Então, ele disse, bem calmo: “Deixa tudo aí e vai lá pro templo sentar um pouco sozinha.” E continuou trabalhando.

Isso eu escrevi lembrando que há dez anos eu não ouço a voz do Rinpoche, mas tudo o que ele me ensinou, com palavras, com gestos, ou simplesmente com um olhar, continua vivo e crescendo no meu coração. Eu lembro e gosto de contar para as pessoas que chegaram depois, porque muitas vezes era assim que as coisas aconteciam, como se nada estivesse acontecendo, mas depois o resultado estava lá, com as bençãos do Rinpoche.

[Contada por Flávia Pellanda]

Até Hoje

Na época em que eu buscava um caminho espiritual, conheci muitas religiões mas nunca encontrei um mestre autêntico. Li sobre os lamas tibetanos e até comecei a aspirar encontrar um, mas pensei que naquele momento não seria possível. Por questões financeiras, não teria como ir ao Tibete e tampouco um lama tibetano apareceria em Rio Grande, no interior do Rio Grande do Sul, onde eu vivia.

Anos mais tarde, lendo o jornal local, vi numa matéria que um lama tibetano viria justamente a Rio Grande pra dar uma palestra. Pensei: “que oportunidade incrível de conhecer um lama tibetano aqui”! Só que no dia da palestra, esqueci totalmente e fui a uma reunião do meu grupo de teatro.

Quando cheguei no local, a reunião havia sido cancelada. Fiquei chateado, pois eu tinha aberto mão de outros compromissos para ir à reunião. Mas então tive um estalo e lembrei que, naquele exato momento, estaria acontecendo a palestra com o Rinpoche. Eu estava a cinco minutos do lugar da palestra e faltavam dez minutos para o início.

Corri até o local, entrei, sentei e lá estava aquele senhor de barba branca, sério, de olhar penetrante. O Rinpoche começou a ensinar e cada palavra que ele dizia era como um néctar que me preenchia. Senti um grande bem estar e, por alguns meses, sempre que os ensinamentos me vinham à mente, eu entrava naquele mesmo estado e experimentava o sabor do néctar outra vez.

Cinco meses mais tarde, recebi uma correspondência do Khadro Ling convidando para o evento do Ano Novo Tibetano em Três Coroas. Fui, cheguei lá e não senti vontade de ir embora. Aqui estou até hoje, com as bênçãos do Rinpoche.

[Contada por Dudu]

Brisa

Conheci Rinpoche na mesma época que a Lama Tsering chegou ao Brasil para dar ensinamentos que aconteciam numa pequena casa no Brooklin em São Paulo. A primeira vez que fui lá tinha acabado de sair da academia de ginástica. Me lembro de sentar e escutar o que aquela linda mulher falava com uma voz doce e angelical. Tudo era novo para mim. Quando acabou o ensinamento e fui falar com aquele ser maravilhoso.

Nesse momento, a Candinha perguntou quem poderia ir ao aeroporto buscar o Rinpoche com sua tradutora (Lama Sherab), seu filho e seu neto. Levantei a mão sem pensar e assim ficou decidido. Eu e a Ângela Belchior pegaríamos Rinpoche. Algo diferente aconteceu comigo nas duas noites seguintes: sonhei com o Rinpoche o sono inteiro. O detalhe é que eu nunca havia visto sequer uma foto dele.

Ângela me disse que sempre buscava o Rinpoche. Me explicou como eu deveria me portar e como seria a saudação na chegada. Rinpoche chegou usando cadeira de rodas, já que a viagem tinha sido muito cansativa. Fizemos as saudações de costume e fomos em direção ao estacionamento. Eu vinha atrás de todos, acompanhando aquela comitiva iluminada. O carro da Ângela estava à direita da saída do aeroporto e o meu à esquerda. De repente, Rinpoche, sendo conduzido para a direita, levantou a mão e disse ao rapaz do aeroporto que conduzia sua cadeira: “Stop, stop” (Pare, pare). Logo veio a Lama Sherab querendo saber o que estava acontecendo.

E o Rinpoche disse, apontando pra mim: “Eu não quero ir com ela, quero ir com ele”. Sei lá como ele sabia onde estavam os carros. Só sei que minhas pernas começaram a tremer e meu coração começou a bater a mil por hora. E assim foi. Ele se sentou ao meu lado e a Lama Sherab se sentou atrás. Isso foi o suficiente para mudar minha vida.

No dia seguinte, convidei Rinpoche para comer carpaccio no meu restaurante. O que ele prontamente aceitou. Almoçamos e nos divertimos muito. Mas, mais uma vez, Rinpoche surpreendeu a todos com sua presença iluminada. Quando estava saindo do restaurante, uma forte brisa com aroma de flores invadiu o lugar, deixando-nos maravilhados.

Foi assim que conheci meu guru, meu mestre. E é assim que lembro dele. Sorrindo. Sempre.

Contada por Miguel Bittar

Vidas

Quando fui para a India com o Rinpoche no final de 99 em peregrinação, viajamos bastante de ônibus por lá. Em uma dessas viagens, estávamos há umas quatro horas nas difíceis estradas indianas quando o Rinpoche falou para o motorista: “É aqui mesmo, pode parar!”. Eu olhei ao redor e só vi mato seco. Mesmo assim, descemos do ônibus e começamos a caminhar em uma pequena trilha que mal se via. Logo, encontramos umas poucas ruínas onde paramos e sentamos no chão, esperando o Rinpoche falar alguma coisa.

Depois de alguns instantes em silêncio, algumas lágrimas começaram a cair dos olhos do Rinpoche. Ele nos explicou que, há muito tempo atrás, talvez na época do Buda, ele havia sido um monge no mosteiro que agora eram aquelas ruínas. Ali, naquela vida, o Rinpoche foi picado por uma cobra. Ele ainda lembrava de sua morte muito jovem e da tristeza que teve em deixar seus amigos da sanga.

Esse foi um momento muito marcante na minha memória sobre o Rinpoche, de quantas e quantas vidas ele já vinha praticando o dharma e da imensidão do mestre que estava na minha frente.

[Contada por Junior Cordenonsi]

Cada um de Nós

P’howa foi uma prática que o Rinpoche nos ensinou por muitas vezes, em Três Coroas e em Porto Alegre. Na noite que antecedeu sua morte, esta prática foi muito especial, muito forte. Eu tinha a exata sensação de que ele recitava olhando fixamente para mim. No dia seguinte, conversando com colegas, todas relataram a mesma sensação. Naquela noite, ele concentrou-se em cada aluno de uma forma especial e de uma maneira profunda e penetrante.

[Contada por Maria Ignez Samarani]

Mudra Ininterrupto

Em 2001, durante um retiro de Tara, recebemos ensinamentos da Khadro sobre os diferentes mudras (gestos de sabedoria) que são realizados na prática. Muitos mudras são bem difíceis por termos que coordenar mãos, voz e atenção plena, exigindo entrega e disciplina do praticante. Nesse contexto, a Khadro disse algo que me marcou profundamente: “nós nos esforçamos criando estados mentais e, através de gestos específicos, realizamos um mudra. No caso do Rimpoche, o estar dele já é um mudra”.

Com isso, a Khadro deu para nós ao mesmo tempo o exemplo perfeito do que é um mudra e do significado da presença do Rimpoche entre nós. Ele era a própria manifestação de sabedoria plena, um mudra ininterrupto.

[Contada por Padma Yeshe]

Sua presença mudava tudo

Durante uma da viagens do Rinpoche ao Nepal, eu meditava todos os dias com a ideia fixa de mostrar a ele como a minha prática estava evoluindo bem. Só que, quando ele voltou e ouvi sua voz dizendo “Oi”, tudo ficou diferente no mesmo instante. Meus pensamentos pararam e eu não precisava falar. A presença dele mudava tudo e eu sabia exatamente o que fazer dali em diante. Estar com ele era estar em estado de alegria sublime.

[Contada por Mabel]

O Chagdud não dá ponto sem nó

Até hoje, depois de quase 10 anos, as fichas de um ensinamento muito direto que recebi de Chagdud Rinpoche ainda estão caindo. O entendimento do que ele me disse vai se modificando com o passar do tempo e, em cada fase da minha vida, adquire um novo significado.

Em 2000 ou 2001, eu cozinhava para o Rinpoche e estava num momento bem complicado, com ciúmes , querendo ser reconhecida e amada. Velhas questões emocionais. Por isso, pedi que a Lama Sherab perguntasse para o Rinpoche se ele gostava ou não gostava de mim. Eu mesma não tinha nem coragem de perguntar porque, naquele tempo, o Rinpoche era bem duro comigo. A Lama Sherab me advertiu que não era uma pergunta muito apropriada para o momento, que a resposta poderia não ser o que eu queria ouvir, mas eu, claro, insisti e disse que queria uma resposta.

Servi o jantar do Rinpoche e fui pra casa, ansiosa pela resposta que eu sabia que estaria à minha espera quando eu fosse servir o café da manhã. No outro dia, a resposta estava mesmo me esperando. E foi a seguinte: “Se ela me pergunta isso é porque a fé dela é dúbia e eu não tenho que gostar e nem deixar de gostar de aluno nenhum! O problema é dela! “

E eu pra Lama: “E o que mais?”

Ela : “Isso. Mais nada.”

Eu não entendi e continuei no mesmo estado mental/emocional que estava. Mas, como sempre, através do mérito do Rinpoche, cozinhando ao longo dos dias, as fichas foram caindo. Aos poucos, meu estado foi mudando. Eu me acalmei e concordei com o Rinpoche: sim, a minha fé era dúbia e eu não conseguia disfarçar isso. Era o primeiro entendimento sobre o que ele havia dito.

Continuei cozinhando e praticando. Com o passar do tempo, as coisas foram mudando, as experiências acontecendo e, um pouco antes de eu fazer o meu primeiro retiro de Dzogchen (o último do Chagdud em janeiro de 2002), eu entendi outra coisa: que o Rinpoche era o meu professor e que, para ser isso, ele realmente não precisava gostar e nem deixar de gostar de mim.

O tempo passou mais um pouco e eu achava que já tinha sacado tudo. Daí chegou o Paranirvana. Nessa experiência que vivi com ele, depois tantas costelas assadas , tsampas e sopas, além de muita dura, ensinamentos, bençãos e generosidade, a minha fé começou a brotar, intensa, límpida e esclarecedora. Foi muito forte e, mais uma vez, achei que eu finalmente havia entendido o ensinamento completo. Ilusão.

Anos mais tarde, a minha vida mudou completamente. Eu fiz outro retiro de Dzogchen e quando já estava praticamente vivendo outra vida, um outro significado surgiu daquele ensinamento. Eu entendi claramente que umas das coisas que ele queria me dizer foi: “Eu não sou seu pai!!!”

Fiquei impressionada como esse insight do ensinamento depois de tanto tempo operou grandes mudanças no meu coração e na minha mente. E esse entendimento gerou muito outros. Entendi que eu sou o meu pai, a minha mãe e todo o resto. E que meu professor me conduziu com firmeza e generosidade. Se meu pai dessa vida me instigou à procura da liberdade, foi o meu professor que me mostrou o caminho. Minha fé ficou mais forte ainda e logo depois recebi a notícia de que o Chagdud estava renascido e bem. Novamente, do alto do meu orgulho, achei que o entendimento do ensinamento estava consolidado. Outra ilusão.

Há três semanas, ouvi os ensinamentos de Mahamudra e então começou a florescer, daquela resposta tão antiga, um novo entendimento. Se naquele tempo a minha fé era dúbia, agora ela é inabalável e eu ainda tenho muito para apreender com o ensinamento precioso e perfeito do meu professor.

[Contada por uma aluna]

O Bom Velhinho

Em 1997, o Rinpoche e a Sanga foram festejar o natal em nossa casa, pois meu pai iria se vestir de Papai Noel e cantar músicas de natal em alemão. Havia uma amiga minha com cinco filhos e mais outras crianças. Depois do Natal, fizemos vários passeios, fomos ao rafting, visitamos a aldeia do papai noel, entre outros programas.

No final do período, perguntamos às crianças do que elas mais tinham gostado em toda a viagem e elas disseram que tinha sido o velhinho de barba branca. Nós perguntamos: o Papai Noel? Elas responderam que não. Elas estavam falando do Rinpoche.

[Contada por Monica]

Aos pés do mestre

 

O dia 14 de novembro amanheceu com promessa de sol e beleza. O tempo corria solto para o final do ano de 2002 e nosso retiro amadurecia nos seus 800 dias de práticas e aprendizado constante de domar a mente. Talvez nosso mestre viesse nos visitar! A cerca de bambu que nos separava do mundo era insuficiente para cercear nosso olhar que se alongava pela estrada à procura do mestre.

À tardinha, ele chegou! Corremos para recebê-lo. Sorrindo e falando amorosamente, dirigiu-se à sala de meditação. Rinpoche estava lindo, brilhando intensamente – parecia um noivo que cuidadosamente se arrumara para visitar a noiva. O chapéu vermelho o deixava mais garboso e a barba trançada dava um toque elegante ao seu rosto. Tudo estava perfeito! Sentamos aos seus pés ansiosos para ouvi-lo, olhar para ele, senti-lo pertinho. “Fique conosco Rinpoche!” era a súplica do meu coração.

Rinpoche demorou-se mais naquele dia, ensinou, explicou com detalhes os conteúdos mais difíceis, respondeu perguntas, contou histórias, brincou… Já era noite quando foi embora e queríamos mais! O carro afastou-se lentamente na escuridão e ficamos parados no portão olhando, olhando.

Um recado na manhã seguinte selou sua visita: “Mesmo que eu não esteja aqui, minhas bênçãos estarão com vocês!” Rinpoche morreu na madrugada do dia 17.

Meu Mestre Precioso, louvo sua vida e sua morte!

[Contada por Leda Volino]

Do Alasca, com amor

Em outubro de 1988, eu comecei a ter sonhos e experiências muito fortes a respeito do Alasca. Eu era enfermeira itinerante e nunca tinha pensado sobre esse lugar antes, mas comecei a me pegar perguntando à minha chefe se havia algum emprego disponível para mim no Alasca. Curiosamente, ela tinha acabado de receber um pedido de Juneau, no Alasca, e eu disse: “Pode me inscrever!” – sem perceber o quanto a minha vida iria mudar.

Alguns meses depois, eu estava caminhando pela rua em Juneau no fim da tarde quando ouvi alguém chamar o meu nome. A neve caía fraca. Eu olhei ao redor mas não vi ninguém, de modo que segui em frente. Mais uma vez ouvi alguém chamar o meu nome, mais alto, até com insistência. Mais uma vez eu parei, olhei e não vi ninguém. Mas havia um cartaz em um poste telefônico perto de mim sobre um lama tibetano que iria visitar Juneau – e ele estava olhando bem para mim! Eu disse a mim mesma: “Acho que devo conferir isso”. Na época, eu não estava procurando um professor espiritual – eu tinha feito isso anos antes e estava feliz com quem e o que eu era –, mas resolvi ir mesmo assim.

No dia seguinte, eu saí apressada do trabalho para ir ver o tal lama. Ele já estava falando quando eu cheguei e, em poucos minutos, eu estava chorando ao escutá-lo falar sobre Tara Vermelha. Eu nunca tinha ouvido uma descrição assim “do feminino” e, na medida em que ele prosseguiu, eu senti que estava entrando em colapso por dentro. No dia seguinte, eu tomei refúgio com aquele lama, Chagdud Tulku Rinpoche, e recebi a iniciação de Tara Vermelha.

Rinpoche estava indo embora para ensinar no Yukon, e eu não queria me separar dele assim tão logo depois do nosso encontro. A tradutora de Rinpoche, Tsering Everest, concordou que eu os acompanhasse. Mas a nossa viagem foi adiada por uma tempestade de neve violenta, “a pior em meio século”, e nós nos apertamos em um pequeno apartamento para esperar um telefonema da companhia aérea. Finalmente, às cinco da manhã, recebemos a ligação – e tínhamos apenas trinta minutos para decolar para que pudéssemos voar pelo olho da tempestade, que era calmo.

Fomos correndo para o aeroporto e deparamos com um velho DC7 da Segunda Guerra Mundial, sem calefação. A atendente de bordo, vestida com uma roupa de neve bem grossa, nos ajudou a subir por uma escadinha de corda, ofereceu dois cobertores de lã para cada um de nós e disse que poderíamos nos sentar em qualquer lugar – desde que nos sentássemos logo, porque iríamos partir dali a quatro minutos! Nós fomos todos para assentos de janela, menos Lama Tsering, que se encolheu toda com sua capa comprida e os cobertores de lã.

A viagem foi apavorante, com turbulência pesada, mas Rinpoche ficou dando risada o tempo todo, e o riso dele me acalmou – se o Lama estava dando risada, certamente não havia nada a temer! Nós chegamos a Whitehorse com a aterrissagem mais suave que eu já vi – quase nenhum solavanco enquanto deslizávamos pela pista de pouso de lado! Fomos recolhidos com um enorme trator de esteira.

Rinpoche, com suas roupas tibetanas de inverno e seu chapéu de pele, foi atrás do piloto e garantiu que ele iria esperar para nos levar de volta a Juneau. “Você bom piloto!!”, Rinpoche disse a ele.

Naquele fim de semana, a sangha de Whitehorse abriu sua casa e seu coração para nós. Eu senti como se todas aquelas pessoas fossem meus irmãos e irmãs, e essa sensação permanece até hoje. Na verdade, não faz diferença em que lugar do mundo eu esteja com qualquer uma das sanghas de Rinpoche, a sensação é sempre a mesma – de que estou com a minha família da sangha, é uma prova do amor e da compaixão de Rinpoche por todos nós o fato de brilharmos com o mesmo amor e compaixão uns pelos outros, e por qualquer pessoa que conhecemos.

Nas décadas de 60 e 70, quando eu estava à procura de um professor, eu compreendi que era possível saber muito sobre um professor ao examinar as qualidades de bondade desenvolvidas em seus alunos. Eu sempre sei que posso encontrar Rinpoche, e suas qualidades, na minha grande e maravilhosa família do Darma!

Obrigada, Rinpoche, por ter gritado comigo e chamado a minha atenção naquela tarde. Eu fiquei com tanta saudade de você quando se mudou para o Brasil, e como tive inveja dos brasileiros! Mas eu também aprendi que você está no meu coração e nos meus sonhos, do mesmo modo que eu sei que estou nos seus.

Ao longo dos anos, eu fiz a minha prática e o meu trabalho, pedindo a ajuda de Rinpoche em silêncio e dedicando mérito. Eu finalmente fui capaz de aquietar o meu anseio pela presença física de Rinpoche – e a minha inveja dos brasileiros sortudos que podiam estar com ele – e me enchi de regozijo alegre com a maneira como Rinpoche foi capaz de conquistar e fazer frutificar tantas de suas aspirações no Brasil. Que outra lição maior ele poderia ter me ensinado?

[contada por Pat Martin]

Sem roupas

O primeiro contato que tive com o Khadro Ling foi em 1998, quando estava fazendo um trabalho fotográfico pra faculdade. Na verdade, esse primeiro contato aconteceu também devido ao vínculo familiar – meus irmãos Cinthia, Maurício e seus filhos já residiam próximo ao Centro e participavam das atividades do local. Naquela época, o templo iniciava sua construção num grande terreno, com algumas residências ao redor, a cozinha, um refeitório pequeno e uma sala de meditação, que hoje são dormitórios.

Na primeira vez que vi o Rinpoche, fiquei assustada com a concentração, sabedoria e disciplina com que ele conduzia as cerimônias. Mas essa primeira impressão de “medo” logo foi se dissipando. Um dia, ao notar que eu estava sentada muito longe de todos pra assistir a cerimônia, ele fez um gesto olhando diretamente pra mim e me chamou, fazendo sinal com a mão, pra que eu sentasse junto dos outros. Aquele pequeno ato demonstrou a sua compaixão e sensibilidade, pois eu realmente estava me sentindo deslocada lá.

O segundo momento marcante que tive com o Rinpoche foi quando comprei um mala na lojinha do Khadro Ling. A pessoa que me vendeu me deu uma série de recomendações sobre como usar o mala e também disse que seria muito auspicioso se eu o levasse pro Rinpoche abençoar.

Depois de confirmar com a minha irmã, que morava lá, se isso era realmente necessário, fui até o Rinpoche. Chegando no seu quarto, foi Andréa (Lama Sherab) que me atendeu com um pequeno cachorro poodle nos braços, o Snowy. Ela pediu pra eu sentar na frente do Rinpoche e logo ele começou a falar comigo em inglês, que eu não entendia na época, o que me deixou muito envergonhada, mais do que já estava.

A sensação de sentar na frente dele, naquela primeira vez, foi como de estar completamente sem roupas. É difícil de explicar. A simplicidade na forma como ele olhava e enxergava através das minhas máscaras me impressionou. Todos os pensamentos sobre “aprovação”, “ser aceita ou não”, “desejo de compra do mala”, toda a confusão interna sobre a escolha de um caminho espiritual, são conceitos que eu só consigo ver claramente hoje. Mas pro Rinpoche, isso tudo parecia muito claro naquele momento. A experiência dele em observar e contemplar a mente proporcionava essa realização de poder enxergar na gente aquilo que nem mesmo a gente tinha consciência sentir.

Então, através da tradução da Lama Sherab, ele começou a me perguntar onde aquele mala tinha sido feito e onde eu havia comprado. E com um olhar desaprovador. Foi um pouco engraçado, porque eu disse que havia comprado ali mesmo, na lojinha do Khadro Ling. Ele disse que não estava bom, não estava certo. E, pra minha surpresa, ele desmanchou o mala e começou a refazê-lo com um novo fio que pediu à Lama Sherab.

O que era para ser uma entrevista de 15 minutos se tornou 40 minutos de espera e suor frio pois eu não sabia o que fazer, o que dizer ou onde colocar minhas mãos. Fiquei acariciando a Snowy que também pareceu ter notado o meu desconforto. Sabiamente, o Rinpoche me fez esperar um tempo precioso, me fez parar e observar a minha própria mente. Não existia nada a ser feito ali, nenhuma palavra a ser dita, mas os pensamentos eram milhares, e isso só hoje eu consigo perceber. Esse era o motivo pelo qual eu me envergonhava na frente dele: meus verdadeiros pensamentos e intenções em adquirir aquele objeto, que ele parecia enxergar claramente.

Com o passar dos anos, ajudando, ouvindo, observando e contemplando tudo o que era ensinado e feito pelo Rinpoche e pela comunidade, pude perceber e identificar sua compaixão, generosidade e amor em ensinar incansavelmente até o último dia de sua vida. Seu exemplo de diligência, paciência e sabedoria é o que mantém viva sua presença na mente e coração de todos aqueles que tiveram a preciosa oportunidade de encontrar sua manifestação iluminada.

[Contada por Vivian Clark]

Incansável

Chagdud Rinpoche breaking stones at USA

O Rinpoche era incansável e isto não foi expresso só no seu parinirvana, quando ensinou até o último instante, mas ficou evidente em cada contato que tínhamos com ele.

A primeira vez que ele esteve em Porto Alegre, ensinou um fim de semana inteiro – era um workshop sobre as Seis Perfeições – e, ao final, concedeu o voto de refúgio para uma platéia bastante numerosa ainda no local onde havia ensinado. Depois, concedeu uma iniciação de Ngondro que seria “apenas para aqueles realmente interessados em continuar a prática”, o que significou quase todos os presentes.

Tudo era muito novo para nós, acostumados com a austeridade e simplicidade do zen. A iniciação certamente foi um momento único, pois estávamos em uma sala cheia, todos apertados, com pessoas do lado de fora sentadas pelas escadas do local, na cozinha, onde coubesse alguém. Não havia espaço para se mexer. E lá estava o Rinpoche, concedendo a iniciação, dando ensinamentos sobre os quatro pensamentos, conduzindo o tsog, tudo isto ornado por duas traduções: uma do inglês dele para o inglês e outra para o português.

Não me recordo exatamente o horário no qual tudo acabou, mas já era madrugada de segunda-feira, eu, “praticante zen”, cansado e o Rinpoche lá, paciente e presente, firme como uma montanha. Mostrou-se incansável e destemido – claro, afinal era o Rinpoche – abordando a questão de comer ou não carne para uma platéia zen que torcia um pouco o nariz para este tipo de alimentação.

Chagdud Rinpoche at Tibet

Depois de reviravoltas em minha vida, tive a oportunidade de reencontrar o Rinpoche que, com seu gancho compassivo, me alcançou bem no meio do samsara. Fiquei um tempo em Três Coroas trabalhando e lembro de uma preparação para um drubtchen. Estávamos arrumando a sala e fui perguntar algo para uma pessoa da sanga enquanto outra pessoa estava em um andaime que eu deveria cuidar. O Rinpoche viu que o andaime precisava ser movido de lugar e, quando vi, ele já estava indo movimentá-lo com a outra pessoa em cima. Lembro de tê-lo impedido de fazer isto, eu mesmo empurrando o andaime. Os braços eram meus, mas a força era do Rinpoche porque não sou muito forte e a pessoa sobre o andaime não era leve. Não tive dificuldade nenhuma para executar a tarefa.

Em outra oportunidade, estávamos em um trabalho intenso, enrolando mantras dentro do templo: enquanto alguém enrolava, outro passava água de açafrão. Eu estava passando a água de açafrão e quando vi o Rinpoche veio para junto de mim e começou a enrolar os mantras. Com toda a dificuldade física dele, ele era muito rápido, muito intenso, uma força que era do tamanho da motivação dele em beneficiar os seres. Como esta força era muito maior que qualquer força que eu pudesse ter naquele momento, ao final lá estava ele, rindo, inteiro e eu cansado, provavelmente com a língua de fora…

Estas são situações visíveis, manifestas, onde ficou evidente que o Rinpoche era incansável. Mas quando penso em tudo que ele me ensinou, vez após vez, em todas as vezes em que ele deve ter olhado e percebido que teria que ensinar de novo até que a minha cabeça dura permitisse que algo mudasse, vejo que ele era muito mais incansável que aquilo que nossos olhos podem ver. E quando penso em todas as pessoas que praticam o darma ou se aproximam dele graças às atividades e realizações do Rinpoche, percebo que mesmo não estando fisicamente entre nós, ele continua como sempre foi: incansável.

Contada por Luciano Ribeiro

Generosidade

Certa tarde, o Riponche parou as recitações durante um retiro e começou a falar sobre generosidade. Disse que devemos praticar a generosidade, que isso poderia ser bom para todos nós. Falou que devemos experimentar dar algo que temos. Se não temos muito, podemos doar um pouco do que temos. Disse que sempre temos algo pra dar, basta querer. Podemos doar um sorriso, ajudar alguém.

Se ainda assim, pensarmos que não temos nada para doar, devemos olhar em volta, ver a beleza da natureza e fazer generosamente uma doação desse presente que a natureza nos oferece: as árvores, as flores, o vale. Se não temos tanta beleza em volta, olhamos para o céu, vemos a beleza do céu azul, das estrelas, do sol, da lua. Podemos generosamente doar a beleza do céu, das estrelas….

[Contada por Cledi]

Companhia

Chagdud Rinpoche and his dog Snowy

Há alguns anos tive a linda e única oportunidade de morar no Khadro Ling. No curto espaço de tempo em que vivi com esta grande família do Rinpoche, a minha história foi desenhada por diversas pinceladas, mas a mão do artista era uma só. Fui escalada pra trabalhar na loja, na administração, atendendo telefonemas noturnos e no Projeto de Livros Infantis com a Mônica. Essa última atividade se tornou a paixão da minha vida e foi no desempenho dela que a minha história com o Rinpoche começou a tomar um rumo de humor misturado com a severidade de um grande mestre.


Uma vez, como de costume, a Mônica e eu estávamos na sala do quarto da Khadro (que se encontrava em retiro), onde escrevíamos todos os dias a história sobre um sapo e seus amigos. Nessa ocasião, estávamos completamente envolvidas pela atmosfera do livro e, sem nos darmos conta, desencadeamos uma risadaria por conta do sapo.


Ao terminar aquele meu turno, me despedi da Mônica. Quando estava indo embora, passei por uma sala cheia de alunos do Rinpoche com o próprio sentado no meio, desenhando a face de Akshobia. De repente, ouço o Rinpoche esbravejar. Primeiro, não me dei conta que aquelas palavras em inglês misturadas com tibetano eram dirigidas aos meus ouvidos, e mais profundamente, ao meu coração. Mas Sultrim sussurou no meu ouvido: “Rinpoche está falando com você”. Eu fiquei completamente atônita, sabia que alguma besteira tinha feito, mas não imaginava o quê.


O Rinpoche continuou em muito alto e bom som: “Onde você pensa que está pra rir desse jeito? Não percebe que está atrapalhando a Khadro em retiro? Não quero que isso se repita novamente”. Não preciso falar que devo ter purificado um tantão de carma pela vergonha que passei, tudo por causa do sapo da história. Eu não sabia pra onde correr e a minha vontade era evaporar.


Como toda aluna indisciplinada, sem dominar os meus impulsos, o meu ego me deu mais duas rasteiras. Por mais duas vezes quis evaporar. Mas tive que enfrentar, por mais duas vezes também, o barulho forte da bengala do Rinpoche no assoalho de madeira. A gente não consegue evaporar perante o nosso verdadeiro mestre.


Na segunda vez, estava matando a saudade de uma amiga com uma sonora gargalhada no telefone, quando ouvi o tilintar da bengala do Rinpoche. E falei pra Lili: “Vou pular a janela”. Mas, infelizmente, não tinha pra onde correr, pois na minha frente em pé na porta, estava Rinpoche. Me curvei o bastante pra tirar meu olhar da sua mira. E ele, docemente, e com o seu humor contagiante começou a contar uma história tão engraçada que os quatro (Rinpoche, Lama Sherab, Lili e eu) caímos numa uníssona gargalhada.


Nesta mesma tarde, ganhei um presente que sempre desembrulho com a memória quando estou com saudades do Rinpoche. O presente, depois do grande mico, foi ele tirar a sua costumeira siesta. E, como dessa vez, a Cinthia não podia ficar lá, a Lili com delicadeza se encarregou de me presentear. Ela disse: “Marta vai fazer companhia para o Rinpoche.” Eu, completamente sem graça, querendo fugir do alcance da bengala dele, respondi que não. Ainda bem que ela insistiu.

Enquanto estava lá, ao lado da cama, fiquei aflita em não saber ou não estar preparada pra responder aos seus pedidos. Durante o sono, ele mexeu o corpinho arredondado, abriu lentamente os olhos, tentou me identificar e, em seguida, coçando a barriga, entregou-se à minha guarda, voltando a dormir. Com certeza era ele quem cuidava de mim.


Quando acordou, Rinpoche me chamou pra separar com ele as qualidades de diversos chás tibetanos, que ele sabia identificar um por um pelo aroma. E desta vez me senti tão familiar a ele como uma filha que brinca com o pai, de viver.

[Contada por Marta Maia]

Construção

Durante a construção do Lha Kang, eu trabalhava no terraço do quarto antigo do Rinpoche, onde o Chris havia colocado uma lona amarela para proteger o nosso “atelier” da chuva. Era o início do inverno e choveu muito nessa época, mas quando era dia de fazer as lages de concreto, o Rinpoche dava um jeito de parar a chuva. Os operários não entendiam: “Está chovendo forte lá embaixo na cidade e aqui o dia está bonito!” É…

Lá de cima, eu gostava de ver a obra do templo e ouvir o barulho que vinha da carpintaria, das misturadoras de cimento, dos tratores movendo terra, de caminhões que chegavam com material. Também dava pra ver o pessoal passando de um lado para outro, sempre alguém gritando “Tu viste o Chris? A Soninha? O Dudu?” E a vozinha do Diogo, seguida da voz da Fernanda: “Menino, desce daí, quantas vezes o Rinpoche já disse que não quer as crianças brincando no meio da obra?” Ou então a Irinia, chegando das compras na cidade e distribuindo material: uma serra para o Dave, tinta para a Inês, tecido para a Cíntia e as notas para a Lili conferir!

Um dia eu pensei: “Deve ser por isso que o Rinpoche é o Senhor da Dança. Tantas, tantas coisas acontecendo sem parar e Rinpoche sentado tranquilo no meio de tudo, sabendo de tudo, resolvendo cada detalhe, negociando orçamentos, ensinando a pintar, desenhando, fazendo traduções, medindo, decifrando sonhos, dando ensinamentos, assoprando o passarinho que caiu do ninho, tirando fotos com visitantes (uma vez ele se virou pra mim e disse, com a maior ironia: “Fiz um samaya de tirar 100.000 fotos!”), telefonando para a Lama Tsering, recebendo jornalista, preparando uma iniciação, costurando, jogando Mo pra moça que ligou da Suíça, cuidando de cada um de nós e sempre perguntando: “Done, done?” (Está pronto?)

No dia em que fizeram as colunas, no meio do puja da noite o Rinpoche parou tudo e disse: “Esqueci uma coisa!” Então chamou o Chris e perguntou algo. O Cris fez que não com a cabeça. Ele chamou a Andréia, ela saiu e voltou com um pote cheio de purbas. O Rinpoche escolheu várias, entregou para o Chris e o Chris correu a enfiar purbas nas colunas. Ainda bem que o cimento ainda não estava seco!

Uma vez, o Rinpoche e a Soninha chegaram muito atrasados para o puja, pois tinham ido a Porto Alegre comprar as louças do banheiro do templo. A Khadro perguntou: “então, compraram tudo?” “Sim”, disse o Rinpoche. “Encontramos uma ótima oferta”. “E de que cor são, Rinpoche?” “Lama color!” respondeu ele, mostrando a sua tchuba. A Khadro quase desmaiou! “O que? Lama color nos banheiros para o público?” “Yes, I like it.” (sim, eu gosto!) A Khadro só dizia “ah não, me diga que não é verdade…” Ele procurou uma cor no seu casaco de cetim colorido, depois olhou o forro, que era levemente mais claro que a tchuba, e disse triunfante: “Like this: pink!” (Como isso, rosa!) Eu nunca fiquei sabendo se ele estava brincando com a Khadro ou se era verdade, mas os banheiros hoje são brancos, como mandam as regras de higiene pública.

Outra vez, estávamos no fim do puja de Tara, de manhã cedo, quando o Rinpoche entrou muito rápido na sala e foi sentando no trono fazendo sinal para não levantarmos do lugar. A Andréia ia traduzindo: “o Rinpoche disse que se vocês fizerem prostrações, estarão se prostrando para uma bola de fogo, pois ele está muito brabo.” E ele continuou dizendo que tinha acordado às duas da manhã e não tinha mais conseguido dormir de tão brabo, pois ficara sabendo que houvera um desentendimento com os operários da construção. Eu não me lembro de todas as palavras, mas ele disse que nós não estávamos construindo uma casa qualquer, um hotel ou uma loja, mas que aquilo era um templo e que um templo não se constrói com tijolos e cimento, mas sim com tudo que pensamos e sentimos e expressamos… e por aí se foi. Nunca vi o Rinpoche tão furioso! Depois disso nos comportamos como verdadeiros santos por umas duas semanas.

Eu dormia na sala de meditação, onde hoje é o dormitório. Era uma sensação maravilhosa ficar lá sozinha, com as lamparinas de manteiga iluminando as estátuas e depois se apagando uma a uma durante a noite. Já estava chegando o inverno e, muitas vezes, depois do puja, o Rinpoche ficava até mais tarde conversando com o Lama Norbu, o Chris, o Randy, o Dudu, a Suzi e todo o pessoal mais envolvido com a construção. Eu gostaria de lembrar o nome de todas as pessoas que vieram de muitos cantos do mundo para ajudar na construção. Eu sempre pensava em escrever um diário desta época, mas nunca sobrava tempo. Enquanto o Rinpoche continuava no templo, eu ia para a cozinha tomar um chá com o Maurício e a turma que ficava por ali por um motivo ou outro, modelando uma torma, cortando o pão para o dia seguinte, fazendo a lista de compras, tomando um mate. Se alguém estava gripado, o Billy fazia um chá mágico, que cura qualquer coisa. Uma noite, em vez de ir para o quarto, o Rinpoche se foi para a cozinha, sentou num banquinho e disse: “Vim ver por que vocês vêm prá cá.” “Porque é quentinho perto do fogão e tem chá, Rinpoche! Aceita uma xícara?” Ele tomou, ficou um pouquinho e se foi.

Com o Rinpoche descobri que as paredes não são coisas estáticas. Um dia tem uma porta aqui, no outro já mudou tudo. O quarto dele era atelier, escritório, sala de visitas, tinha computador, máquina de xerox, água quente para o chá, um telefone (o outro ficava na lojinha) que a Drica atendia sem parar. Logo que o quarto novo ficou pronto, o chão brilhando, tapete novo, tudo perfeito, entrei na ante-sala e lá estava o Rinpoche, de roupa limpíssima, trabalhando bem feliz em argila. Logo entrou a Andréa: “Rinpoche, está na hora de descer para o ensinamento.” Eu perguntei: “Desço ou fico aqui trabalhando?” Ele me passou o trabalho e disse: “Fica aqui. Se a Khadro vier e te mandar trabalhar noutro lugar, diz yes, yes – e continua trabalhando!”

Um dia eu pensei: “Daqui um tempo vai estar tudo pronto e eu vou sentar e meditar no maior silêncio.” E comecei a rir sozinha, pois já sabia que o Rinpoche nunca sequer pensou em parar de construir. Depois que o Lha Kang ficou pronto, vieram as casas das rodas de oração, as estupas, as estátuas, a sala das lamparinas, e nós vamos ainda construir muito mais, pois esta é uma parte importante da nossa Guru Yoga. Ele até nos deixou uma lição de casa: construir o Palácio de Padmasambhava. Daqui uns quatro ou cinco anos ele vai subir as escadas correndo, com os olhinhos brilhando como uma criança que entra pela primeira vez num templo… “and it’s better be well done!” (e é bom estar bem feito!)

[Contada por Flávia Pellanda]

Tudo passa

Estávamos eu e alguns membros da sanga de Manaus no quarto do hotel em que Rinpoche estava hospedado, aproveitando seu tempo conosco para fazer perguntas e ouvir seus ensinamentos.

Lembro dele sentado na cama, sem camisa, comendo tsampa. Chamou-me atenção a simplicidade da cena e, ao mesmo tempo, a estranheza da mesma. Nosso tão venerado mestre, ali, como um ser humano comum, com parte do corpo exposta e misturando com as mãos a farinha e a água sem nenhum constrangimento.

Naquela época, eu ainda havia tido muito pouco contato com ele e, mesmo assim, sinto não ter tido a abertura necessária para usufruir da sua presença. Queria ter podido conversar mais e ouvi-lo com todo meu coração, mas sentia medo dele.

Lembro de ter feito uma única pergunta. Na verdade, eu queria um conselho, pois não estava mais satisfeita com meu relacionamento amoroso e queria me separar. Mas como não tive coragem de perguntar se isso seria o melhor para mim, já que era algo tão direto e pessoal, fiz uma pergunta geral. Indaguei se deveríamos agir no sentido de buscar a mudança de uma situação difícil, como por exemplo, no caso de uma mulher que tem um marido agressivo e que sofre violência, se ela deveria tentar se separar do marido. Não era o meu caso, mas hoje vejo que a minha pergunta direcionava o tipo de resposta que eu queria ouvir.

A resposta do Rinpoche foi totalmente surpreendente para mim. Ele respondeu algo que demorei muito tempo para entender. Ele disse que, quando compreendemos verdadeiramente o que significa a impermanência, não há razão para mudar. Penso que até hoje eu ainda não consegui compreender completamente o significado mais profundo deste ensinamento, mesmo tendo refletido sobre ele durante muito tempo.

Quando o Rinpoche morreu, tive outra grande surpresa. Não acreditei que ele pudesse simplesmente ir e não nos avisar, mesmo estando todos ali com ele, ouvindo ensinamentos sobre P’owa. Por um momento, cheguei a ficar com raiva. Me senti desamparada e abandonada por ele. Depois, percebi o que ele queria nos ensinar: “Tudo é impermanente. Tudo passa. Não esperem que as coisas durem. Não esperem que vocês possam controlar o que lhes acontece.”

[Contada por Carliza Vettorato Timm]

Fortaleza

Conheci o Rinpoche num começo de noite de janeiro de 2001 durante um retiro de Dzogchen. Eu não estava fazendo o retiro, mas apareci no Khadro Ling com alguns amigos e na loja me aconselharam a falar com a Andréa (hoje Lama Sherab) para chegar ao Rinpoche.

No final do turno de prática, como a Lama Sherab havia prometido, o Rinpoche nos chamou mesmo antes que todos os praticantes saíssem do templo. Ficou aquele mundo de gente olhando e as outras duas pessoas que estavam comigo não quiseram falar com ele. Eu fui e entreguei um presente, uma rede no formato de uma cadeira, dessas de pendurar no teto. Ele abriu, riu e ficou olhando para o teto do templo como se fosse pendurar lá. Foi a maior risada. Eu quase tive um troço de tanta timidez.

No dia seguinte, ainda estávamos no Khadro Ling e, de repente, alguém disse que o Rinpoche estava no carro esperando para sair. Um monte de gente foi até o carro se despedir. Eu fui junto e, quando cheguei perto, pedi pra ele me dar uma benção. Ele colocou a mão na minha cabeça e ficou rezando um tempo. Eu não sei realmente descrever até hoje a sensação daquele momento.

Em 2002, o Rinpoche veio à Fortaleza e aí foi uma “viagem” andar com ele de carro pra lá e pra cá, com ele tentando ler um monte de placas e letreiros em português, perguntando o significado de cada uma. Na primeira palestra pública, havia quase 300 pessoas em um hotel, com a maior parte da platéia sentada no chão. Depois, nos ensinamentos, ele deu iniciação do Buda da Medicina com uma explicação sobre o surgimento das doenças a partir dos venenos da mente.

A alegria e o prazer que ele demonstrava com os lugares e as pessoas eram incríveis. Durante a participação em um programa de rádio local, ele ria o tempo todo. Era tudo muito rápido: a visita ao hospital das crianças com câncer, as bênçãos que ele dirigiu a tudo e a todos… a minha devoção só aumenta a cada dia, pois cada lembrança dessas fortifica a minha conexão com ele, com a Khadro, com a Lama Sherab, enfim com as atividades do Lama.

[Contada por Patrícia]