
Em uma das vezes que Rinpoche foi a Florianópolis, ele se alojou na casa de uma vizinha da sanga que ficava a poucos metros do Gonpa. Na hora de sair, eu o acompanhava, segurando-o pelo braço para irmos até o carro. Tínhamos que atravessar um pequeno trajeto de lajotas para depois subirmos alguns degraus de pedra junto ao portão do jardim.
O Rinpoche estava com alguma dificuldade de andar e eu não estava muito acostumado a ajudá-lo nisso. Além do mais, eu ainda estava realmente comovido com a sua presença conosco nesses dias e me sentia atrapalhado nas interações que fugiam aos enquadres formais dos momentos de ensinamentos ou cerimônias.
Eu já previa que a tarefa não seria muito simples, pois o peso do Rinpoche não era pouco e minha habilidade com ele não era muita. Eu estava aterrorizado e feliz ao mesmo tempo. Aterrorizado pela possibilidade do Rinpoche cair e se machucar. E feliz por estar junto com ele em uma situação muito simples, mas ao mesmo tempo extremamente profunda. Apesar de eu não ter compartilhado com ele muitos momentos desse tipo, a experiência de intimidade e de cumplicidade era muito grande e o Rinpoche parecia se sentir seguro comigo.
Quando chegamos ao degrau, eu tomei coragem e impulsionei o Rinpoche. Mas, para minha surpresa, ele não parecia estar disposto a se mexer. Tomei novo impulso e dei uma empurrada mais forte. O Rinpoche, no entanto, não só não estava ajudando como parecia fazer força no sentido contrário. E agora? Um novo impulso e o Rinpoche resistiu, mas dessa vez também caiu na gargalhada. Uma gargalhada dessas que parece que vem do centro de uma montanha e faz tremer a terra.
Eu não tive muito tempo para rir pelo desespero de encontrar algum ponto de equilíbrio. Já com nossos quatro pés bem apoiados e o centro de gravidade restabelecido, pude rir ao ver o degrau e entender que o Rinpoche estava evitando pisar em umas formigas que passavam tranquilamente à frente, carregando algum pedaço de folha que lhes serviria de alimento.
[Contada por Luciano Florit]

Eu lembro que era um dia daqueles em São Paulo. Eu estava no trabalho, folheando o jornal, e, em uma das últimas páginas, de repente, vi aquela fotinho em branco e preto com algumas palavras escritas embaixo. Dizia que um Lama tibetano – Chagdud Tulku Rinpoche – viria ao Brasil e iria morar em Três Coroas, falando ainda que o lugar iria se transformar em um centro mundial do budismo. Eu já estava envolvida com o budismo havia muitos anos, mas nunca tinha de fato encontrado o “meu Lama”. De algum modo, no momento em que olhei para aquela foto, senti uma convicção claríssima, do fundo do coração: “Isto é para mim”. Peguei uma tesoura e recortei a foto dele, guardei em um saquinho de plástico e coloquei bem ali na minha mesa. Isso foi em maio de 1995, e ele tinha acabado de chegar.
Naquele ano, eu tentei encontrá-lo, liguei para amigos em Porto Alegre, vez após outra, mas ninguém sabia onde “aquele Lama” estava, porque na época ele morava em um apartamento na cidadezinha de Três Coroas e ainda não tinha se mudado para o lugar que posteriormente seria o Gonpa. Além disso, naqueles primeiros meses, ele também viajava muito para os Estados Unidos e para o Nepal, de modo que o tempo foi passando e eu não o encontrava. Daí, em 1997, ele foi convidado para transmitir uma mensagem de paz em um show de rock em Porto Alegre. Ele apareceu nos jornais locais e de repente ficou “famoso”. Foi aí que os meus amigos de Porto Alegre me ligaram e finalmente me falaram sobre o Gonpa em Três Coroas. Eu liguei imediatamente para o lugar e perguntei como poderia ver o Lama ou falar com ele. Disseram que de manhã, às seis horas, e no fim da tarde, ele fazia o puja, e que eu podia ir lá assistir. Então eu providenciei hospedagem em Gramado e, de lá, peguei um táxi para me levar ao Gonpa às cinco da manhã.
Estávamos em setembro, ainda era inverno, estava frio e totalmente nublado; o taxista nunca tinha ouvido falar do Rinpoche e não fazia a menor ideia do caminho que precisava seguir. Quando finalmente encontramos a estrada que ia até o alto da montanha, ainda estava escuro e com neblina, e o motorista ficava perguntando: “Então, aonde mesmo a gente está indo?”. Eu respondia: “Não sei. A única coisa que eu sei é que tem um Lama tibetano que mora no alto desta montanha”. Então nós seguimos em frente até finalmente topar com uma placa dizendo que tínhamos chegado ao Gonpa. O templo ainda não tinha sido construído e a sala das cerimônias ficava em um prédio que hoje serve de dormitório.
Eu entrei e havia um pequeno grupo de pessoas. O puja tinha acabado de começar, e eu lembro daquilo com muita clareza. O Rinpoche estava sentado de costas para a parede, à esquerda da entrada. Quando eu entrei, ele não virou a cabeça, mas eu vi e senti os olhos dele disparando na minha direção, de ladinho. Foi como se aquilo tivesse me atingido. Eu desabei ali na frente e fiquei assim durante o puja todo, só olhando para ele. Daí, depois do puja, ele me chamou e perguntou o que eu queria saber. Eu lembro de ter dito a ele, antes de qualquer coisa, que, se dependesse de mim, eu nunca mais iria embora dali, que eu queria ficar naquele momento mesmo, mas que infelizmente precisava voltar para São Paulo para trabalhar. Perguntei se ele podia me dar conselhos a respeito de como meditar no dia a dia, no meio da confusão da cidade grande. Ele perguntou se eu entendia inglês e eu respondi que sim, claro. Então ele começou a falar e eu não entendi nenhuma palavra. Mas não fez diferença. Eu só olhei nos olhos dele e me perdi completamente. Daí eu me levantei, saí da sala e encontrei uma amiga minha, Susie. Eu me sentei nos degraus e só chorei e chorei. Susie perguntou: “O que foi? Por que você está chorando?”. Eu respondi:
“Ah, Susie, eu estou tão feliz por ter encontrado o Rinpoche e eu sei, com tanta clareza, que esta é a minha última chance nesta vida”.
A partir de então, eu passei a ir ao Gonpa com a maior frequência possível e também conheci a Lama Tsering em São Paulo. O Rinpoche ficava me pedindo, vez após outra, para ir morar no Gonpa, mas o samsara – o trabalho, a família e todos os meus apegos – tinha me pegado de jeito. Finalmente, em 2000, eu consegui me libertar e mudei para o Gonpa. Nunca me arrependi dessa decisão, nem por um instante; a minha vida mudou de um jeito com o qual eu jamais poderia ter sonhado.
O Rinpoche me mostrou minha verdadeira natureza. Ele revelou tudo que é possível em um ser humano e o que a gente é capaz de fazer quando entende como se deve viver, experimentar a vida e estar com os outros seres – como viver tudo isso de outra maneira.
Eu só queria fazer a minha prática. Eu só queria viver tudo aquilo que ele tinha mostrado para nós.
As qualidades dele que eu amava eram sua compaixão ilimitada, seu amor imparcial infinito e a maneira como nos ajudava , nos via e nos ensinava. Ele era tão paciente conosco, os “bebês do Darma” dele, como ele dizia, sempre com humor, risadas, diligência e visão inspiradoras. “Siga em frente”, era a maneira mais simples que ele tinha de nos motivar quando chegávamos com todas as nossas perguntas e dúvidas. Ele era apenas uma mente de pureza total derramando amor em cima de nós; e é tão incrível quando se pode receber esse amor.
E agora que ele se foi do plano físico, não faz diferença, porque tudo continua presente – e muito mais, multiplicando-se como nuvens de oferendas no céu – e ele está conosco o tempo todo. Eu ando por aí e sempre o escuto na minha mente. Eu sempre o vejo e sempre o sinto. Então, ele está comigo o tempo todo. Ele nunca se ausenta. E eu nunca, jamais vou abandoná-lo.
[Contado por Christine]

Conheci o Rinpoche em 1999 na inauguração de uma feira ecológica em Porto Alegre. Eu fazia parte da organização e lembro que todo mundo estava super ansioso para receber esse tal de Lama. As fitas de inauguração da feira tinham as cores do budismo tibetano: azul, vermelha, amarela, branca, verde. Eu fui escolhida para puxar uma das fitas e, como gostava muito de vermelho, fui pegar a fitinha vermelha mas uma mão apareceu, pegou antes e riu assim: “Hi hi hi.” Era o Rinpoche do meu lado. Ele puxou rápido a fita vermelha e eu tive que pegar a verde.
No dia seguinte, eu ia para a Espanha tentar arrumar minha vida. Só que cheguei lá e deu tudo errado. Então, depois de um tempo, voltei para o Brasil e me lembrei do Rinpoche. Eu não tinha uma vida espiritual e pensei que talvez as coisas estivessem dando errado porque isso é que estava faltando.
Um tempo depois, eu estava na feira da José Bonifácio (uma feira de alimentos ecológicos) quando passou um rapaz com o livro do Rinpoche e disse que haveria um evento em Três Coroas – um retiro de Ioga dos Sonhos. Eu decidi ir e, quando cheguei no Khadro Ling, estava de “civil”. Todo mundo tinha sadanas, todos os apetrechos e eu sem nada. Entrei e fiquei em um cantinho. Achei o lugar super bonito, fiquei apaixonada pela música de Tara, mas pensei “não é para mim, vou terminar isso aqui e vou embora”.
Só que daí fui ao Yeshe Ling, em Porto Alegre, e a Maria Inês me procurou e pediu ajuda com o Excel. Eu comecei a frequentar o Yeshe Ling por causa das tabelas de Excel.

Em 2002, eu lembro que tinha que trabalhar horrores e larguei tudo para fazer umas iniciações em um sábado de manhã, lá no quarto do Rinpoche no Khadro Ling. Quando eu estava subindo, uma menina me disse: “Tu não moras aqui, não vais fazer as iniciações”. Eu disse: “Tá, então vou lá pegar o meu dinheiro de volta e vou embora, né”. Mas chegou outra pessoa e disse “Sobe, sobe”, e daí eu subi e fiquei na porta. Fui a última a chegar.
Depois disso, fui a outros eventos e iniciações. Mesmo tomando todas aquelas iniciações, eu me perguntava: “Ai, será?” Eu ficava muito na dúvida.
Daí veio o retiro de P’owa em novembro de 2002 e eu estava meio sem dinheiro. Só que, naquela semana, chegou a restituição do imposto de renda e eu disse “bom, está aqui o dinheiro. Eu vou”. Daí fui, e acho que aquilo foi um marco para mim porque, mesmo que eu não tenha tido uma convivência direta com o Rinpoche, aquele retiro fez toda a diferença. O que aconteceu naquele retiro foi tão forte, me marcou.
Depois disso, quase fui despedida do meu emprego porque passava muito tempo no Khadro Ling fazendo lamparinas. Meu celular tocando e o meu chefe atrás de mim. Eu dizia: “Eu não posso, morreu uma pessoa”. E ele: “Mas quem morreu?”. E eu: “O Rinpoche”. E ele: “É teu avo? Teu pai?”.
Eu enlouqueci, chutei o balde, quase fui para rua. Meu chefe falou: “Marice, tu és uma pessoa séria, responsável, alguma coisa deve estar acontecendo.”
E eu: “Me dá um tempo que não posso explicar agora”.
[Contada por Marice]

Eu nasci com o bom carma de saber costurar. Por isso, nas vésperas de um Drubtchen da Essência do Sidi, o Rinpoche me chamou para costurar os 16 djaltsens (estandartes da vitória, hoje feitos de fibra) que seriam colocados no telhado do templo.
A máquina de costura, presente de casamento da Khadro para o Rinpoche, estava no quarto de hóspedes no apartamento deles. Lá, encontrei sobre a cama muitas peças do brim que eu ia costurar. O Rinpoche foi muitas vezes até lá para ver o andamento das costuras e sentava no meio da cama explicando o que eu devia fazer. Ele abria o tecido e me explicava por meio de gestos, já que eu não falava inglês. Eu respondia com o polegar para cima, indicando que estava entendendo.
Foi aí que eu descobri uma nova língua, o costurês, que tive privilégio de falar com o mestre, também costureiro.
[Contada por Elusa Faria]

Quando eu havia recém terminado meu retiro de 6 meses, tentei desistir de uma entrevista com o Rinpoche quando soube que o humor dele estava irado. Lama Sherab disse que eu não poderia desistir porque ele queria falar comigo. E eu fui, temerosa.
Depois de preâmbulos nada fáceis, o Rinpoche me comunicou seu desejo de que eu fosse cuidar da sanga de Manaus. Eu fiquei tão chocada que não entendi. Enquanto ele falava com alguém que entrou na sala, perguntei para a Sibele, que traduzia: “O que ele falou?” Ela confirmou: “Ele quer que você se mude para lá.”
Com o coração apertado, respondi que não era rica, que tendo parado de trabalhar como fiz, teria dinheiro apenas por um tempo, levando uma vida muito simples. O Rinpoche contra-argumentou que eu poderia trabalhar lá, que com certeza as pessoas me ajudariam a ter clientes. Com o coração apertado e a boca seca, respondi: “Rinpoche, meu lado infantil diz que deseja ficar aqui, na casa que construí, perto do meu mestre. Mas a praticante responde que eu faço o que o senhor desejar”. Rinpoche respondeu: “Ok. Now go, go.”
Saí como se tivesse sido mandada para o exílio. Teria que voltar a trabalhar profissionalmente pra me sustentar e ficaria longe do meu mestre e dos meus filhos.
No dia seguinte, o Rinpoche viajou por um mês. Só me lembro de ter ficado tão angustiada na minha adolescência. Comecei a olhar o Khadro Ling e a minha casinha à qual estava tão apegada, com olhos de despedida, de deixar ir. Foi difícil! O trabalho na lojinha me ajudava a desviar a mente do problema. Os dias passaram. Rinpoche foi, voltou e nunca mais falou no assunto.
O resultado daquele golpe de mestre foi um excelente trabalho de desapego. O Rinpoche fez a mágica de me mandar para longe sem que eu nunca tivesse saído daqui.
[Contada por Yvonne]

A primeira vez que eu vi Rinpoche foi em 1998, quando morava em Manaus e trabalhava com informática. Na época, eu estava com um abcesso no ombro e passava o tempo todo consertando e carregando máquinas com aquilo nas minhas costas doendo.
Uma vez, passei o dia inteiro dopada com Cataflan. Tomava Cataflan de duas em duas horas. Nesse dia, o Rinpoche ia dar uma palestra em Manaus. Era a primeira vez que eu iria vê-lo. Eu não sabia quem ele era, não tinha a menor idéia. Na hora de sair para a palestra, parei de tomar o Cataflan e fiquei com a dor. A palestra era bem perto do meu trabalho. Eu cheguei cedinho, sentei e fiquei esperando minha colega.
Então chegou o Rinpoche. A Lama Sherab tinha um cabelão e eu pensei “nossa, que cabelão é esse”. O Rinpoche sentou e eu pensei “nossa, que estranho ele é”. Até esse momento, eu ainda tinha consciência da minha dor. Daí o Rinpoche começou a falar. Falou, falou várias coisas e aquilo foi me acalmando, aquilo fazia muito sentido. Ele falou muito tempo. Eu esqueci a dor, esqueci o meu braço, esqueci tudo e fiquei prestando atenção nele. Eu prestava atenção na barbinha, no olhinho tão engraçado e teve uma hora que eu senti uma coisa engraçada no braço. Tinha estourado o abcesso. E eu não quis nem saber, eu queria saber do Rinpoche, fiquei só prestando atenção nele.
Quando ele terminou, eu não lembrava mais da minha dor, nem lembrava que estava escorrendo, nada. Ele terminou e a gente ofereceu o katag ( lenço branco de seda) para ele. Depois fomos embora e só dentro do carro da minha colega é que eu me lembrei do ombro. Então eu disse para ela: “Eu estava com dor, não mexia o braço…” e daí mexi o braço e minha colega disse: “Isso foi o Rinpoche”. E eu: “Ah tá, foi o Rinpoche”. Fiquei feliz, porque na verdade eu senti uma conexão com ele, isso ficou bem presente para mim.
[Contada por Sandrinha Vinhales]

Eu nunca entendi o inglês do Rinpoche muito bem. Quando cheguei aqui, eu tentava entender e não dava. A tradução era em português e então eu também não entendia a tradução. Todos os brasileiros entendiam o inglês dele, mas para mim ele não estava falando inglês. Eu fiquei com muita inveja por todos os brasileiros poderem conversar com ele sem fim.
Com Rinpoche, eu estava o tempo todo assim: “O que ele disse? O que ele disse? O quê? O quê? O que ele diz?” Eu não entendia nada. Mas, na verdade, com o Rinpoche não era preciso falar. A mente dele permeia o nosso coração, permeia tudo. Eu me lembro de uma vez quando finalmente entendi o que ele dizia: foi um milagre.
Ele sempre estava com pressa para construir todas as coisas aqui no Khadro Ling, como um cavalo em uma corrida. Ele tinha essa sensação: pressa, pressa, não temos muito tempo, e esse sentido do corpo humano precioso estava sempre muito presente dentro dele. Nós tínhamos essa sensação de que o corpo dele estava perdendo energia, mas a mente, não. A mente tinha um caráter nuclear.
Nós não tínhamos escada de carpinteiro nem rampa na frente do templo. E ele disse: “Eu tenho de fazer isto e meu corpo não pode, mas tem de fazer”. E ele estava olhando para fora da janela e viu o Eduardo, Dudu, que tem os siddhis do trabalho físico. E o Rinpoche falou: “Oh! O Dudu está aí! Ele é os meus braços”.
Eu fiquei muito tocada com isso, porque vi que ele tinha amor, um tipo de valor. Ele valorizava as pessoas que trabalhavam para ele. Parecia que ele tinha dito: “Meus braços não funcionam mais, minhas pernas não funcionam mais, mas eu tenho o Eduardo. Ele é os meus braços, ele é meu corpo, um corpo humano precioso”.
Outra coisa de que eu me lembro é quando minha mente mudou de uma posição muito ordinária para outra posição. Ele estava sentado no trono e depois do puja nós sempre nos reuníamos aqui de modo informal. As pessoas estavam fazendo prática. Ele tinha urgência com a prática: “Nós não temos muito tempo nesta vida”. E nós sempre tínhamos uma idéia, uma noção de que nós não tínhamos muito tempo com ele.
Tudo estava muito quieto. No lago, lá embaixo, costumava ter muitos sapos. Nessa noite tinha muito, muito barulho. E porque estávamos muito quietos, dava para ouvir aquele crê, crê, crê”, e mais e mais. E o Rinpoche disse: “Essas pessoas…”. E eu pensei: “Que pessoas? Só há sete pessoas aqui – Lama Sherab, Andreia, Cris, Sonia, Cibele, eu, Dudu, que pessoas estão fazendo muito barulho hoje à noite?”. E o Rinpoche: “Será que essas pessoas estão dando uma festa?”. E eu pensando: “Que pessoas?”.
Até que eu me dei conta que ele estava falando dos sapos. Para ele sapos são pessoas, não animais. Eu era nova no Brasil, nova na sanga. Então, pensei: “Se ele se sente assim em relação aos sapos, talvez ele possa gostar de mim, talvez eu possa ficar aqui”.
Outra história: eu sou de Boston, perto de Nova York. Em Boston nós não temos muita sanga. Eu só havia visto a Lama Tsering e a Khadro. Eu cheguei aqui no Khadro Ling pela primeira vez e estava com Rinpoche em um retiro de 40 pessoas na outra sala. Eu não sabia nada sobre budismo, sobre a mente, e eu não sabia muito sobre o Rinpoche. Mas eu estava muito, muito feliz, com muita expectativa por estar aqui.
Durante este retiro, de 4 ou 5 semanas, o Rinoche apontou para um lugar onde só havia um pedestal e um buraco no chão e disse: “Neste mês, nós vamos terminar esta estátua”.
E eu ri sozinha, completamente sozinha. Eu fechei a minha boca, sentei muito ereta, olhei ao redor e ninguém estava rindo. Pensei: “Fecha a boca, Liz, ele está falando sério, ai meu deus… ok, vamos terminar a estátua. Tá bom… ok, estátua…vamos ver.”
E claro que sim, ele terminou.
[Contada por Liz]

Certa vez estava tomando banho no Khadro Ling e simplesmente esqueci dos problemas com a água. Fiquei cerca de meia hora no chuveiro. No final da cerimônia, naquele dia, fui entregar um pequeno presente ao Rinpoche e me despedir. Ao me aproximar, ele virou para o Lama Rigdzing e perguntou sobre a água.
Imediatamente percebi a minha não-virtude e devo ter ficado bem vermelho. Eles ficaram conversando sobre a água por alguns minutos. Eu fiquei paralisado a alguns passos do Rinpoche, que nem olhava para mim. Passei dias meditando sobre o que aconteceu e sobre como ele havia sido capaz de me advertir sobre minha falta de atenção de uma forma tão não-violenta mas ainda assim tão impactante.
[Contada por Eduardo Pinheiro ]

O ano de 1993 fez parte de um ciclo de profundas e drásticas mudanças em minha vida. Um tempo de muitas revisões, análises, esperanças e buscas. Em agosto daquele ano, fui ouvir a palestra de um lama tibetano com algumas amigas. O processo de tradução era lento e, por muitas vezes, eu me perdia, me dispersava. Num dado momento, algo mudou dentro de mim, foquei-me diretamente no rosto do lama, atenta à sua voz. Um magnetismo muito forte vibrava e suas palavras vieram diretas ao meu coração. Fechei minhas anotações, uma sensação suave de primavera me envolveu – era a magia da descoberta. Tudo estava, não faltava nada.
[Contada por Leda Volino]

Minha lembrança mais marcante é da primeira vez que eu vi Rinpoche. Ele veio ao Rigdzin Ling pra dar ensinamentos muito preciosos. Eu não o conhecia pessoalmente e, nos dias que antecederam a visita, a emoção foi crescendo no ar até o momento em que ele chegou. E a presença dele superou em muito a emoção antecipada. Se eu pudesse imaginar como o Buda era em pessoa, seria o Rinpoche.
A mente dele era como o espaço, é como o espaço. E sua compaixão é ilimitada. Amor, equanimidade, visão imparcial em relação a todos os seres e a todas as situações: assim era o Rinpoche. Os ensinamentos dele eram a respeito de como incorporar isso. O desejo dele era que todos os alunos fossem capazes de incorporar a equanimidade sem limites e a compaixão no estado vasto da mente. Foi isso que eu aprendi com o Rinpoche, a me abster de causar prejuízo em qualquer forma, a praticar virtude em todas as formas e a domar minha própria mente.
[Contada por um aluno]

Em agosto de 2008 fez 10 anos que tivemos a bênção de conhecer o Rinpoche durante a inauguração do Dordje Ling em Curitiba. No início, o centro ficava na minha casa, pois eu e minha família oferecemos de todo o coração nosso salão de festa para inaugurar rapidamente um Gonpa.
Devido à sua energia maravilhosa, queríamos ficar perto do Rinpoche para sempre, nem que fosse só olhando. Nos divertimos muito, por exemplo, quando fomos buscá-lo no aeroporto e o perdemos. Saímos um para cada lado, desesperados e inconformados por tê-lo perdido de vista, quando vimos uma pequena multidão assistindo ao que um policial descreveu como “uma senhora andando no elevador panorâmico”: lá estava Rinpoche, entretido, subindo e descendo no elevador. Ficamos apenas parados olhando porque ele parecia estar gostando muito. Outra vez, no mesmo aeroporto, Rinpoche desafiou nossa pressa com o início de um evento decidindo comer um X-salada “exatamente como o colorido da propaganda do painel” que a lanchonete mostrava. Foi a maior graça.
O passeio pelo Shopping Mueller foi outra diversão. Tudo ele gostava, entrava em cada loja e fazia o mudra de oferenda de mandala até que, em uma delas, experimentou um agasalho que gostou. Comprei-o e ele saiu da loja vestindo o presente, quase correndo de alegria pelos corredores, parecendo uma criança feliz.

Em uma segunda-feira, decidimos levá-lo para um city tour, mas eu não sabia que a maior parte dos pontos turísticos ficam fechados para limpeza e conservação nas segundas. Apesar disso, foram poucos os lugares que não conseguimos conhecer. Onde Rinpoche chegava, as portas se abriam. Os funcionários que estavam trabalhando faziam questão de deixá-lo entrar.
No Parque Papa João II, o funcionário que abriu o portão estava justamente naquela hora lendo a reportagem do evento no jornal local, que trazia uma foto de Rinpoche. O funcionário ficou tão emocionado que pediu autógrafo no próprio jornal.
Esse foi o local que o Rinpoche mais gostou. Construído em homenagem ao Papa quando de sua primeira visita ao Brasil em Curitiba, o parque tem casas rústicas construídas com troncos maciços de árvores. Rinpoche pediu ao Lama Norbu que verificasse em detalhes como era tudo. Foi tanta emoção, tanta energia boa que até hoje não tem como esquecer.

Outra coisa que Rinpoche gostou muito foi a costela que meu marido Celso fez especialmente para ele. A costela é colocada para assar na churrasqueira um dia antes e, ao ser consumida, está derretendo de tão macia. Ao final de um lindo ensinamento, já por volta de meia noite, ele desceu do Gonpa e, sentadinho todo lindo em nossa cozinha, começou a comer. Gostou tanto que perguntava ao meu marido como foi feita e pediu à Andréa que anotasse tudo.
Ao final de um outro ensinamento, sentamos no terraço externo que ficava anexo ao Gonpa e rimos como nunca das piadas do Rinpoche. Ele ria mais do que todos. Não tinha como não nos divertirmos com tanto amor, compaixão e alegria que ele transmitia.
Foram dois anos maravilhosos, que deixaram lembranças inesquecíveis e que mudaram a vida de todos. Mudaram para melhor, pois, ao lembrarmos as experiências maravilhosas, apesar de tanta dor de saudade, nos sentimos felizes simplesmente por termos conhecido o Rinpoche.
[Contada por Sumaia]

Eu morei três anos perto do Rinpoche e, por muito tempo, pela sua sabedoria, o Rinpoche me manteve quieto. Ele não me deixava fazer nenhuma pergunta e era sempre irado comigo. Certo dia, ele convidou todas as pessoas que moravam no Khadro Ling para falar com ele. Depois de conversar comigo por um tempo, ele perguntou se eu tinha alguma pergunta. Eu fiz uma pergunta e ele me deu a resposta mais bonita que já recebi.
Naquela noite, voltei para o meu quarto, sentei e meditei de acordo com as suas instruções. Foi como ter o sol brilhando onde antes ele só tinha se posto. Naquela noite, eu realmente chorei não porque me senti triste, mas porque eu percebi que nada poderia retribuir a sua bondade. Nenhuma palavra poderia expressar a bondade que ele mostrou não somente naquele momento, mas em todos os momentos que eu vivi com ele.
[Contada por Sérgio Senna]

Quando lembro do Rinpoche, lembro de um Buda. Quando dei o último boa noite a ele, sei que dei um último boa noite a um Buda. Conforme o percebia com olhar mais puro, a necessidade de ficar mais próxima a ele crescia também. E sabe o que o meu coração via nos olhos dele? Compaixão.
Desde a primeira vez que o Rinpoche me fitou, até o último olhar de boa noite, ele sempre irradiou compaixão. Ele era um Buda vivo que irradiava compaixão. Ah, essa compaixão ainda irradia, porque um Buda não morre. Ainda temos o corpo Sanga. Sua voz não é ouvida mais ao vivo, porém ainda temos os ensinamentos preciosos e a mente – bem, esta continua irradiando bênçãos para todas as direções.
Obrigada, Rinpoche, por me pescar desse oceano de sofrimento e contar a verdade, plantando em mim a semente da iluminação.
[Contada por uma aluna]

Eu nunca tive coragem de chegar e conversar com o Rinpoche. Eu achava que não tinha méritos e não sabia o que dizer. Então eu sempre me senti um espectador dos meios hábeis dele.
Eu me lembro de vir aqui e de achar o Gonpa um lugar um tanto quanto árido na minha visão do que deveria ser um lugar espiritual. As pessoas pareciam estar de mau humor muitas vezes. Além disso, eu falava muita bobagem e isso deixava as pessoas ainda mais irritadas.
Um dia, durante uma prática que eu não lembro qual era, eu fiquei com muita inveja de todo mundo porque as pessoas tinham os tamborzinhos e os vajras e eu não tinha nada disso. Eu fiquei com muita inveja. Eu estava criando muita não virtude durante a prática e, logo depois da sessão, o Rinpoche disse: “Eu realmente não conheço, não sei o nome de todo mundo aqui. Mas eu conheço todas as pessoas pelos sentimentos delas, por aquilo que elas sentem. Às vezes, eu até me confundo com os nomes, mas eu conheço todas as pessoas e elas têm de cuidar durante a prática para não ter inveja dos outros praticantes.”
E eu continuava pensando coisas como: “As pessoas trabalham demais, será que elas estão vendo que estão sendo exploradas?” Uma mentalidade meio marxista, meio fora de lugar. Eram ideias que surgiam na minha mente.
Daí o Rinpoche falava: “Há pessoas que têm um tipo de compaixão errada por aqueles que trabalham muito para o Darma. É um tipo de compaixão errônea, equivocada, que não gera virtude.”
Enfim, ele acabou com todas as coisas que eu estava pensando. E eu me perguntava: ” Será que o recado é para mim?” Eu achava sempre que os recados eram para mim.
Tem outra história de que eu fui testemunha. Aconteceu com o meu irmão. Um exemplo de como a fala dele atingia as pessoas em vários níveis, como a fala do Buda atinge, individualmente, cada um dos alunos. O Rinpoche tinha a fala búdica. Hoje eu sei disso, mas na época eu me sentia paranoico.
Foi em um retiro de Ngondro, se não me engano. No final do ensinamento, o Rinpoche dizia que as pessoas não deviam ficar orgulhosas da sua prática, mas que também não deviam esconder de si as suas qualidades. Isto seria não valorizar a sua mente, o seu corpo humano precioso. E falou mais alguma coisa que a Lama Sherab se recusou a traduzir. E ele disse: ” Traduz, pode traduzir, vai lá”. E a Lama Sherab: “O Rinpoche diz que ele pode ser velho e pode ter mau cheiro, mas que ele é um bodisatva, ele reconhece isto. Talvez ele não seja um grande bodisatva, mas ele reconhece que não é grande.”
Recentemente, quando os movimentos do carma me trouxeram de novo à prática, eu estava conversando com o meu irmão, e ele me disse: “Uma vez, durante os ensinamentos, eu estava desatento, perdi a linha do ensinamento e comecei a pensar ‘Bah, como o Rinpoche é velho. Será que ele toma banho?’
[Contada por um estudante]

Eu estava com o Rinpoche trabalhando na preparação de um Drubtchen da Essência do Sidi e, enquanto isso, choramingava minhas penas. E ele com aquela paciência infinita, tratando de me fazer entender que “assim é o samsara, todos nós somos seres humanos e, portanto, todos temos nossos defeitos”. Mas eu, por hábito, seguia no papel de “pobrezinha de mim”.
Uma noite, a Lama Tsering chegou com um quadro que tinha um peixe que cantava e mexia a cabeça quando você ligava um botãozinho. Lá foi ela mostrar o tal peixe para o Rinpoche e, como eu estava por ali, escutei o peixe cantando Bob Mac Ferrin: “Don’t worry, be happy”.
Rimos bastante e a Lama Tsering deixou o peixe na mesa da entrada da casa. Na vez seguinte que eu fui dizer “pobrezinha de mim” para o Rinpoche, ele ficou quieto, muito sério e me disse, com essas mesmas palavras: “You there go…fish pull…and…” e nós dois caímos na gargalhada! Claro: “Don’t worry, be happy”!
Até hoje, sempre que minha mente começa a se apegar demais à realidade aparente do samsara, lembro dessa cena e tento fazer isso: “Don’t worry, be happy”.
[Contada por Ângela]

Eu conheci o Rinpoche em 1996, mas nunca consegui falar com ele em todas as vezes que vim aos eventos do Khadro Ling. Eu sempre ficava próxima, mas me perguntava: “Por que eu não consigo falar com ele? Eu não devo ter mérito. Mas no fundo acho que eu tenho é medo que ele vá me dar um xingão.”
Só que chegou um período que eu tinha muita vontade de falar com ele. Em 2002, meu pai faleceu. Um mês antes do Rinpoche. Daí eu decidi: “Eu vou lá, eu preciso falar com o Rinpoche.” Ele ia dar ensinamentos de Powa, que foi no mesmo final de semana que ele faleceu. Eu cheguei aqui e ele já não estava bem. Eu olhava nos intervalos para ele, para a Lama Sherab e dizia para mim mesma: “Ah! Eles estão tão cansados, não é justo. A Lama Sherab também está tão abatida e ele não está bem. O que eu faço?” Eu precisava falar, eu tinha umas questões sobre a morte, até porque eu assisti meu pai falecer.
Então, no retiro, durante um intervalo, meu olhar cruzou com o do Rinpoche de uma forma tão especial que eu senti como se ele tivesse dito assim: “A gente não precisa de palavras”. Aquilo para mim foi o suficiente. Eu me tranqüilizei e logo depois ele faleceu.
Durante um tempo, fiquei muito triste por não ter falado com ele. Depois comentei com a Khadro que eu sempre sentia muita dificuldade de falar com os lamas, que eu achava que estava tomando o tempo deles. E ela disse que os lamas estavam ali exatamente para estas coisas, para ajudar.
Depois que o Rinpoche partiu, eu percebi que sentia muito mais a presença dele. Tanto é que eu sentia mais necessidade de estar aqui, de vir para cá. Numa manhã de domingo, eu estava fazendo prostrações num cantinho do templo e a pessoa que teria que receber os visitantes não estava naquele momento. Os visitantes começaram a chegar e eu pensei: “Será que eu posso interromper minha prática? O que eu faço?” Naquele momento, é como se eu estivesse enxergando ele na minha frente e perguntei: “Rinpoche, o que eu faço?” E a resposta foi natural, eu senti como se ele tivesse dito assim: “Faz disso parte da tua prática”. Imediatamente, eu parei as prostrações e fui atender os visitantes com todo amor e carinho.
Mas isto é para colocar para vocês que o fato de ele não estar aqui fisicamente… ele está aqui junto com a gente e isso é uma coisa muito forte.
[Contada por Nice]

Um grande mestre dá a cada um dos seus estudantes o remédio necessário para que acorde e tire os óculos da ilusão. Existem aqueles que dele receberam o calor do sorriso, o chamado da intimidade. A dureza do meu carma exigiu tratamento irado: o gelo do olhar, a palavra que ao revelar me deixava prostrada de vergonha.
Um dia nos cruzamos na saída posterior do templo. Curvei-me com humildade à sua passagem. Ele me olhou e, por um breve segundo, tão curto como o cintilar de uma faísca, deixou-me entrever um mar imenso, profundo e extraordinário de amor. Fiquei paralisada, embasbacada, como se fica quando se entrevê algo excepcional. Era uma janela para o infinito, maior do que cabia na minha mente estreita. A resposta ao meu espanto foi que ele baixou as pálpebras fechando a cortina. Tudo ficou comum outra vez.
Se há um pedido que sempre faço é que ele me dê nova chance, que me deixe banhar a saudade neste incomensurável mar de amor.
[Contada por Yvonne Vieira]

Eu estava participando de um retiro de dzogtchen e a minha cabeça já estava pra lá de Bagdá. Eu não entendia mais nada que o Rinpoche falava e a gente ainda foi ao quarto dele para receber algumas instruções. E, nossa, as instruções eram muito sofisticadas! A Lama Sherab estava traduzindo, e mesmo assim eu não entendia o que ele estava querendo dizer. Eu comecei a ficar realmente preocupada. Eu já não entendia o inglês dele muito bem e, quando vinha a tradução, eu via que em português eu não entendia nada também!
Então ele pegou uma caixinha de música na forma de um gramofone, uma coisinha bem pequenininha. E toda vez que ele parava de dar ensinamentos e começava a tradução, ele pegava aquela caixinha de música e dava corda. Aí botava no ouvido e ficava ouvindo.
No começo, eu achei meio estranho. Só que comecei a perceber que ele estava dando uma versão alternativa para quem não estava entendendo muito bem as instruções. E em cada intervalo, durante a tradução para o português, ele dava corda na caixinha de novo.
Ele não estava só curtindo a caixinha, ele estava meditando com ela. Ele estava dando a versão prática de tudo aquilo que era hipersofisticado. Aquela coisa do discurso não entrava na minha cabeça. Mas eu comecei a relaxar e percebi que ele estava de fato dando uma alternativa para nós podermos entender os ensinamentos de um jeito não discursivo. E aquilo era tudo o que eu precisava naquela hora.
Durante todo o ensinamento, ele manteve por vários intervalos aquele movimento: parava de falar, dava corda na caixinha e ficava meditando. Acho que eu relaxei no decorrer da história por perceber que tinha alguma coisa que eu estava entendendo no meio daquilo tudo.
Quando saí da prática, eu tinha certeza que tinha entendido tudo que era essencial para ser transmitido. Mais uma vez, eu me curvei diante dele. Vi o quanto ele era extraordinário, além da nossa compreensão. Com certeza, foi o ensinamento que me deixou mais marcada no decorrer desta vida como a forma mais linda da compaixão se manifestar e dar oportunidade da gente entender, mesmo quando nossa mente não está em condição de nada.
[Contada por Nenung]

Só vi o Rinpoche em seu último ensinamento, sobre P’owa. O seu amor, compaixão, entrega generosa e total falta de preocupação por si mesmo em benefício dos demais produziram um impacto imenso que dura até hoje. Para mim, foi o exemplo mais real que tive de um bodisatva, entregando-se completamente para o benefício dos outros. Recordo perfeitamente de um momento na prática em que seu rosto ficou pálido, ele inclinou-se e levou a mão ao peito. Ficou em silêncio um pouco, respirou profundamente e, esforçando-se, olhou para nós com profundo amor e continuou ensinando. Morreu poucas horas depois.
[Contada por Constanza Aguillar]

Conhecer o Rinpoche foi como ter chegado em casa. Eu finalmente encontrei o meu mestre. E quando encontramos o nosso mestre, nos sentimos tranqüilos, serenos, sentimos o motivo pelo qual estamos aqui. E sabemos que viemos para ajudar os seres a aliviar o seu sofrimento.
O Rinpoche, a cada instante, nos ensinava isso. Ele foi um exemplo de compaixão. Ele dedicava cada pensamento seu para todos os seres. Uma vez ele nos disse: “Quando vocês recitam o mantra de Tara, pensem em todas as vezes que vocês recitaram e dediquem também cada recitação pelo benefício de todos os seres.” Aí eu me dei conta que cada vez que ele dizia “Om Tare Tam Soha” estava tentando beneficiar todos os seres. E ele disse que colocaria todas as estátuas que ele já construiu de Tara nesse mantra. Para que todos os seres pudessem se beneficiar de cada simples estátua que ele tinha feito ao longo dos anos.
[Contada por Ângela]